jeudi 3 mars 2016

CRÔNICA DE RENATA DAL-BÓ

Literatura brasileira em festa

     Nos dias de hoje, com tantos problemas que enfrentamos em inúmeras áreas no nosso país, é difícil se sentir orgulhosa por ter nascido aqui. Pois lhes digo que estou me sentindo duplamente orgulhosa, por ser brasileira e por ser mulher. O motivo é para lá de nobre: a escritora Lygia Fagundes Telles foi  indicada pela União Brasileira de Escritores (UBE) para o Prêmio Nobel de Literatura. A indicação, por unanimidade, foi enviada no início de fevereiro para a Academia Sueca. A literatura brasileira está em festa e precisamos comemorar.
       A escritora paulistana, hoje aos 92 anos, sempre esteve adiante de seu tempo. Feminista muito antes do movimento, em 1941 entrou para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP. Ao escrever seu primeiro livro, ainda na faculdade, sua mãe ficou preocupada: “Você já entrou para uma escola de homens e vai publicar um livro? Agora você não casa mais.” A previsão foi ignorada por Lygia e desmentida pela vida. A escritora casou-se duas vezes: a primeira com seu ex-professor de faculdade, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr, com que teve um filho, e a segunda com o cineasta Paulo Emíllio Salles Gomes.
     Lygia é antes de tudo uma romântica apaixonada pela palavra. “É impossível procurar novas palavras para dizer eu te amo e, no entanto, estou eu em busca dessas palavras, dessas novas formas, são as aventuras da linguagem. Sem paixão, mesmo com competência, você não consegue dar conta do seu ofício”, diz ela num documentário. A escritora publicou dezessete livros de contos e romances, traduzidos para o Espanhol, Inglês, Russo, Alemão e outras tantas línguas. Seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, foi publicado em 1953 e é um marco em sua carreira literária, considerado por ela mesma como o ponto em que alcançou o amadurecimento. Ciranda de Pedra foi adaptado para uma novela da Globo em 1981  - apesar de ter apenas nove anos na época lembro-me bem que a personagem Laura Macedo, interpretada por  Eva Wilma, era uma mulher frágil e oprimida,  tida como louca pelo marido. Morria de pena dela e odiava aquele marido. Em 1973, Lygia publicou o seu terceiro romance, As Meninas, e ganhou vários prêmios literários.
    Em uma  de suas entrevistas Lygia conta que quando era nova sentia vergonha de dizer que tinha vocação para a escrita. Achava que estava sendo arrogante, que a vocação exigia sucesso. Com o passar do tempo foi se dando conta que a vocação – do latim vocare -  simplesmente quer dizer o chamado. “Vocação é a felicidade de exercer o ofício da paixão. Tenho vocação, mas não exijo dessa vocação o sucesso. Cumprimos com a nossa tarefa.” Lygia considera o leitor, mais do que um parceiro, um cúmplice: “Sei que a minha palavra é a única maneira de ajudar o próximo. Se eu puder ajudar o outro no seu sofrimento, no seu medo, na sua luta, que também é o meu sofrimento, meu medo, minha luta, minha missão estará cumprida.”

     Em 1985 Lygia recebeu o título de imortal ao ocupar a cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras. Mas,  a verdadeira imortalidade já estava garantida muito antes através de sua obra. “Dizer não, não vou morrer, não vou, não vou. Me leia, dizia o poeta, não me deixe morrer, não me deixe morrer!” Não deixaremos Lygia, não deixaremos!

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