lundi 2 novembre 2015

ABERTURA DO CONSULADO-GERAL DO BRASIL NO SÁBADO 7 DE NOVEMBRO


SALÃO DO LIVRO E DA IMPRENSA DE GENEBRA, SUÍÇA COM O VARAL DO BRASIL


LIVRO IMPRESSO E DIGITAL


(E outras reflexões)
EMANUEL MEDEIROS VIEIRA
Há cinco anos – lembra Alexandra Alter, do “New York Times” –, o mundo dos livros foi tomado por um pânico coletivo quanto ao futuro incerto da impressão.
Leitores migravam para is novos equipamentos digitais e as vendas dos livros eletrônicos disparavam, até 1.620 por centro entre 2008 e 2010, “alarmando os livreiros que viam os consumidores usarem suas lojas para  encontrar títulos que comprariam on-line”.
“Os ex-books eram um foguete em disparada”, disse Len Vlahos, ex-diretor executivo do Grupo de Estudos da Indústria de Livros.
Resumindo: o apocalipse digital não aconteceu.
Em 2015, as vendas digitais desaceleraram acentuadamente.
Segundo Alexandra Alter, há sinais de que alguns adeptos dos livros eletrônicos estão voltando para os impressos.
As vendas de e-books caíram 10 por cento nos primeiros cinco meses deste ano, segundo a Associação de Editores Americanos, que coleta dados de quase 1.200 editoras..
“A queda da popularidade dos e-books pode indicar que o setor editorial, embora não seja imune à revolução tecnológica, suportará o maremoto digital melhor que outras formas de mídia, como a música e a televisão”.
Eu sei, eu sou absolutamente suspeito. SÓ LEIO LIVROS IMPRESSOS.
Não consigo imaginar alguém lendo “Guerra e Paz”, de Tolstoi (e muitos outros livros), via e-book.
Nostalgia? Pode ser.
Pode ser mais, como a lembrança dos sebos, de tocar nos livros, de folhear, de  anotar (como sempre faço – só leio com duas canetas) Sim, o cheiro, a lombada. Alguns dirão que é um lugar-comum, que é mania ou falta de adaptação  aos tempos novos – pode ser.
Mas lembro-me que as pessoas falavam da morte do livro físico. O velório já estaria avançado.
Alguns executivos de editoras– lembra a jornalista –AFIRMAM QUE O MUNDO MUDA DEPRESSA DEMAIS PARA SE AFIRMAR QUE A ONDA DIGITAL ESTÁ PERDENDO FORÇA.
Uma nova geração poderá achar que o livro impresso morreu. Pode ser. Quem sabe.
João Ubaldo Ribeiro dizia que o bom do futuro é que ele não estaria mais aqui (ele, João Ubaldo)...

Como disse alguém, é tão importante a literatura na sociedade que quanto “mais frágil ela for”, o povo estará em vias de perder o rumo de sua identidade e de seu país.
“A literatura é a expressão mais completa do homem, como ente que pensa e sente”, afirmou Cyro de Mattos.
Como salientou Jaime Pinsky, “com os papiros e pergaminhos, inicialmente, e mais tarde com o papel, (...), a cultura, no sentido de patrimônio acumulado, passou a alcançar um número  cada vez maior de pessoas, democratizando o saber e dando oportunidades a uma parcela importante da população. Sem a palavra escrita, em geral, e sem o livro, em particular, a história não teria sido a mesma.
Como observa o historiador citado, “jogamos no lixo milhares de anos de avanço civilizatório e nos transformamos em meros consumidores de softwares”.
Seria preciso uma novo Renascimento:  da esperança,de utopia, através da resistência da cultura contra a barbárie.

(Salvador, outubro de 2015)

CRÔNICA DA URDA

Mãos que oferecem rosas
           

(Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

                                   Eu vinha de uma infância muito mágica, por conta da natureza, das minhas emoções e dos livros que lia. Escrevi muitas coisas, já, sobre isso, mas acho que nunca escrevi sobre a magia de ir de bicicleta à Biblioteca Púbica pegar livro novo, e na volta, vindo pela rua Amazonas, olhar para os morros e os vales do vale maior, que era o Garcia, e absorvê-los numa grande inspiração só, com suas distâncias, suas tonalidades que me pareciam as cores da nostalgia, e me sentir inteiramente parte daquilo tudo, dos morros, das cores, das distâncias. A bicicleta era como uma nave única no universo, onde eu podia viajar pela rua Amazonas e por todas as galáxias que a emoção e os livros traziam – por trás de tudo vinha a minha fada madrinha que se chamava Irmã Maria Adalgisa e que fora a minha professora de quarta série.
                                   Assim fui atravessando a adolescência, cantando coisas bonitas como:
                                   “Fica sempre um pouco de perfume
                                   Nas mãos que oferecem rosas
                                   Nas mãos que sabem ser generosas...”, canções aprendidas com as minhas freiras queridas, e são tantas as lembranças desse tempo que nem dá para lembrar tudo aqui e agora, e assim fui andando pelo meus espaços, imbuída dessa magia que me vinha desde as primeiras lembranças, e um dia já tinha 19 anos e comecei a trabalhar.
                                   E lá na escadinha que havia que subir para entrar no serviço, havia aquele moço mais bonito de todos, manhã após manhã, a me cumprimentar calorosamente com um sorriso de rosa desabrochando, e ele tinha também aquela cor das rosas mais suaves e lindas, pura cor de rosa, como a cor que a gente imagina que têm as nuvens onde anjinhos brincam, e havia um halo que o envolvia com aqueles tons de rosa que tem o amor.
                                   Se vinha de uma vida encantada, mais encantada fiquei, e foi aquele moço mais bonito de todos quem me ensinou novas canções, daquelas que cantavam no rádio, mas que aprendi como se tivessem nascido somente da minha emoção:

                                   “Contigo aprendi que existe luz na noite mais escura
                                   Contigo aprendi, que em tudo existe um pouco de ternura...”
                                   Tudo faz tanto tempo, mas é tudo tão real ainda!  Tanto a minha Irmã Maria Adalgisa quanto aquele moço mais bonito de todos e os aprendizados da magia, e fico pensando como a magia é coisa tão séria, que não se rompe, não se acaba, mas se multiplica e pode atravessar as décadas e iluminar uma vida inteira.
Hoje, quando passo por pequenos bosques, lembro daqueles tons de nostalgia dos morros do meu vale do Garcia e de outras coisas tão mágicas que aconteceram que acabaram norteando minha vida, e o moço mais lindo de todos, que partiu faz tantas décadas, normalmente me espera em lugares assim, e de novo me sorri seu sorriso de rosa, e vez ou outra sai da penumbra do bosque e me acolhe nos seus braços com tamanho carinho e proteção que não posso deixar de inspirar profundamente para absorver momentos de tal grandeza, como um dia, na adolescência, absorvia o encantamento do vale aonde vivia.

Blumenau, 01 de novembro de 2015.

Urda alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

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