lundi 9 février 2015

FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL: PARTICIPE DO SALÃO DO LIVRO DE GENEBRA!






BERLIM 5

Rui Martins

Berlim, os astros também envelhecem
Os festivais vão passando e seus astros vão mudando de personagens. Todos se lembram da Juliette Binoche da Insustentável leveza do ser, que, no ano passado, fez Sils Maria, cuja personagem é uma atriz já veterana, e este ano viveu a esposa ciumenta de Robert Leary, cinquentona sem esconder as rugas, no filme Ninguém quer a  noite.

Charlotte Rampling, inesquecível em Zardoz, vive no filme 45 Anos, de Andrew Haig, uma esposa cinquentona, ainda apaixonada pelo marido apesar de tanto tempo passado juntos. O envelhecimento dos astros tem levado o cinema a fazer filmes para a chamada Terceira idade, alguns com grande sucesso, como foi Amor, com Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.

Andrew Haig, conhecido por filmes sobre homossexuais como Weekend, ao ler uma novela de poucas páginas sobre um velho casal inglês, decidiu fazer um filme e trabalhou num roteiro mais longo e mais recheado, mantendo o conceito original.

Trata-se de um casal tranquilo sacudido certa manhã, ao chegar o corrêio, com a notícia de ter sido descoberta, com o derretimento das geleiras na Suíça, do corpo de uma jovem chamada Kátia. Ora, a jovem encontrada como conservada nos seus 20 anos, tinha sido a noiva de Geoff, prestes a comemorar 45 anos de casado com Kate.

A notícia poderia ter sido logo digerida, porém Geoff parece profundamente marcado pela reabertura desse pedaço de sua vida de jovem, tanto que vai ao sótão buscar fotos e slides de Kátia, modificando seu comportamento e demonstrando mesmo o desejo de ir à Suíça, onde Kátia sofreu o acidente e desapareceu numa avalanche de neve.

Na monotonia daquele casal quase idoso, ressurge o ciúme de Kate, pois ao consultar as fotos guardadas no sótão descobre Kátia grávida, pouco antes do acidente. Filme aplaudido pela crítica.


Charlotte Rampling acha que para ela o mundo do cinema pouco mudou, pois gosta dos filmes independentes e nunca se sentiu bem nos filmes de Hollywood. "O cinema que eu gosto de fazer é o cinema de autor, de pequeno orçamento, e nisto o cinema pouco mudou. O que me interessa é o comportamento das pessoas, a maneira diferente apresentada por cineastas diferentes".

Nicole Kidman e James Franco no deserto


A espanhola Isabel Coixet fez a atriz Juliette Binoche ir ao deserto do gelo, mas com muito mais credibilidade e competência, o alemão Werner Herzog filmou os dois astros Nicole Kidman e James Franco no deserto do Marrocos, onde ambos sentiam aquele temor e calafrio de aparecerem por lá os jiadistas. "Eu me sentia seguro com Werner Herzog, tanto como ator guiado por ele, como no lugar de grande beleza, escolhido por ele no deserto, a 8 horas de viagem de Casablanca"
Por sua vez, Nicole Kidman contou que, ao ter sido convidada por Herzog para fazer um filme no deserto, envolvendo a versão feminina de Lawrence da Arábia, só fez uma exigência "posso levar meus filhos?" E, disse ela, Werner logo colocou a disposição o local, "onde pude ter a experiência maravilhosa de dormir à luz das estrelas. Vou me lembrar toda vida dessas maravilhosas filmagens".
Ambos vivem os papéis principais de A Rainha do Deserto, no qual se conta a vida aventureira de uma filha de boa família inglesa, ainda na época do Império Britânico, ao fim da Primeira Guerra Mundial e ao fim do Império Otomano, depois de cinco séculos de existência, com uma nova marcação de fronteiras entre os árabes. Bastante conhecida é a figura de Lawrence da Árabia, mas ninguém sabia da existência de Gertrude Bell, consul em Teerã e depois em Amã, no Cairo e Damasco, tornando-se depois única figura feminina de projeção no serviço secreto britânico, naquela região, cujas convulsões se prolongam até hoje.
Werner Herzog, como ele mesmo confessou no encontro com a crítica, nunca fez filme de amor, " devia ter começado mais cedo" diz ele aos 72 anos. Mas ao ler o roteiro sobre Gertrude Bell, de família abastada de diplomatas, sedenta de aventuras, desejando deixar Londres, e de ler suas cartas de amor, mais sua ação política numa época em que Churchill era apenas ministro das Relaçoes Exteriores, Herzog sentiu-se obrigado a fazer o filme. Gertrude Bell, vivida por Nicole Kidman, "era uma mulher extraordinária e fui eu quem lhe deu esse título de Rainha do Deserto".
James Franco comentou ter sido uma ótima experiência conviver e trabalhar com Nicole Kidman, no Marrocos. Contou mesmo a quase irresponsabilidade dos dois, logo ao chegarem ao local das filmagens, por terem montado em dois cavalos previstos para as filmagens. "Nicole me perguntou se eu sabia montar, pois não era nenhuma habituada em equitação. Decidimos fazer um passeio assim mesmo e, na volta, corremos um certo perigo, pois os cavalos não eram ainda bem treinados".
Werner Herzog contou ter escolhido os dois atores mas não sabia se ambos eram compatíveis. "Uma má escolha pode comprometer todo o filme. Felizmente, ambos não tiveram problemas entre si". Isso tanto é verdade que Nicole, ao nomear qual sua cena predileta, refere-se ao momento em que ambos sobem uma longa escada de uma tôrre e, no alto, se deparam com um enorme abutre, ela grita e, logo depois, descem correndo as escadas, continuam correndo sobre a areia e, ao pararem de correr, se abraçam e se beijam. "Era um lugar diferente e eu adoro o deserto", disse Nicole.
O próprio Herzog reforça o encantamento exercido pelo deserto sobre Nicole e "pelo mundo árabe hoje demonizado". "Nicole trabalha bastante é extremamente séria como atriz, o filme repousa sobre ela, pois, exceto o começo do filme, Nicole está em todas as cenas".
"Naquele calor, de repente Nicole me pediu para tomar um banho, conta Herzog, arranjei uma banheira, enchemos com água e decidi incluir as cenas do banho de banheira no filme, pois Nicole não foi contra. Werner conta também terem enfrentado uma verdadeira tempestade de areia e ter posto todo mundo para trabalhar às duas da manhã, quando nevou, para filmar a passagem da caravana com neve no chão, antes que derretesse.
"Para fazer O Mágico de Oz eu treinei para ser mágico, por isso foi fácil fazer aquele simples passe de mágica para impressionar Gertrude Bell", conta o ator James Franco.

"Viver Gertrude Bell é diferente de viver uma Virgina Woolf. Esta exige até semelhança na voz e na maneira de falar, mas Gertrude ninguém conhece, então eu precisava criar a personagem e torná-la credível".

ELA LINDA COMO A FLOR

 

Se o a mor que me dedicas é fingido...
...e sem valor!
Então nunca, digas a alguém que me amas,
Porque isso é desamor!

Se quando pensares num carinho;
E na mesma hora lembrares,
Que não vale a pena!
Porque esse alguém te feriu te maltratou...

Presta atenção no que digo;
Porque isso não é amor...
E sim desamor!

Quando tudo estiver pronto
Ela linda como a flor!
E na ânsia do desejo.
Pronto para fazer amor.
Se ela te negar carinho,
Podes crê que é desamor!


Vivaldo Terres

BERLIM - 4



O Irã visto por um taxista

Jafar Panahi, cineasta iraniano, libertado do prisão mas proibido de sair do país, razão pela qual seu filme Taxi, não teve a costumeira entrevista coletiva dos realizadores com a crítica, foi proibido de filmar. Entretanto, Panahi sempre encontra uma maneira de fazer seu filme, mesmo porque, como consta  de um testemunho próprio escrito, distribuído pelo Festival, filmar faz parte de sua vida.
E acontece aquele paradoxo, sob pressão e proibições os artistas têm melhores inspirações, como ocorreu na nossa época de ditadura. Assim, Panahi, cujos filmes premiados em Locarno e Veneza, incomodavam o governo iraniano a ponto de ter sido preso, continua criativo e cada um de seus filmes ganha premios em Berlim.
Desta vez, Panahi teve a idéia de se transformar num chofer de taxi para colher as impressões de seus usuários. durante o trajeto. Chofer de taxi e barbeiro são os profissionais que concorrem com os psiquiatras, pois seus clientes, valendo-se do fato de serem desconhecidos vistos só uma vez, com eles se desabafam e chegam mesmo a transmitir críticas impossíveis de se colher numa entrevista.
O filme taxi de Panahi tem essa originalidade de se ver, talvez pela primeira vez, um renomado e premiado realizador, tomar o lugar de um chofer de taxi, inclusive com boné, embora acabe tirando. E seus passageiros, mesmo provavelmente programados, vão fazendo suas críticas como passageiros comuns. "Depois da China, é o Irã onde existem penas de morte", diz uma passageira professora, usando seu véu preto sobre a cabeça. Com ligeiras variações de cor, todas as mulheres vistas passando pelas ruas observam a lei corânica e, embora Brasil e Irã sejam parecidos em muitas coisas são totalmente diferentes quanto ao visual feminino, vistas as proibições de mostrar braços e pernas.
A conversa no taxi entre um passageiro favorável, que não declina sua profissão, deixando a impressão de ser alguém próximo do governo, esquenta quando se trata da discussão da aplicação da chariá a lei religiosa que é também o código penal. A conversa era sobre algo um tanto lúgubre, o enforcamento de um casal de ladrões, transmitido pela televisão.
Mais tarde, a passageira é um vendedora de flores, cujo marido advogado está proibido de exercer, não fica claro se participou de processos envolvendo opositores ao governo. E enqaunto o taxi roda, se comenta a recente prisão de uma mulher presa por ter tentado entrar numa competição esportiva.
Panahi interrompe o trajeto de duas senhoras preocupadas com seus peixinhos vermelhors, cujo aquàrio se despedaça numa brecada inesperada do taxi. E vai buscar 
a sobrinha na saída da escola, interessada também em fazer um curta-metragem para uma exibir pela escola. E consultando seu caderno, ela vai dizendo quais são as regras, ditadas por sua professora, para se fazer filmes, um rosário de censuras a serem seguidas pelos realizadores, que felizmente desde Abas Kiarostami, os grandes realizadores iranianos conseguem obedecer mas driblando e criando obras-primas.
É sabido não entrar no Irã os filmes americanos, mas um dos clientes do taxista Panahi é um vendedor de Dvds piratas, como os que se vendem na rua Augusta em Sao Paulo ou na entrada do Mercadão. Panahi acaba comprando um Cd pirata de algum músico local. seria de alguém como o nosso Chico na ditadura?

Enfim, Taxi de e com Jafar Panahi é uma pérola rara, logo no começo do Festival de Berlim, um filme no qual se transmite com o sorriso constante de Panahi, trechos da vida cotidiana e das críticas comuns na boca do povo, quando se vive num país de liberdade controlada. 

50 VELAS AMARELAS


                                                                       (eleaesse) Luiz Alberto dos Santos

                                            (Condensado do conto A Borboleta Branca)
                                                                                                                                                          



“Esta vila de casas, aqui em Maceió, lembra muito, a vila que a gente morou, em Bangu, lá no Rio de Janeiro. As mesmas cinco casas. Uma maior nos fundos e duas de cada lado do terreno. Até o portão meio enferrujado, é igual... A única diferença é que nestas daqui, em todas tem um banheiro. Acho que havia muito dinheiro naqueles envelopes. Senão minha boa mãe não teria comprado toda a vila. Outubro de 1967.”

“E, é alta e loura, a senhora com enormes óculos de grau, que veio receber a gente na rodoviária simples de Maceió. Muito educada e simples também, a senhora de óculos gentilmente nos acompanhou de ônibus até um lugar chamado Jacarecica. A rua ainda não tinha asfalto, mas a vila era limpa era muito acolhedora. E, segundo a moça de óculos, as residências só estavam vazias porque não era ainda de fato o verão. O verão de Maceió é quente e muito bonito. Depois a moça apontou para casa nos fundos do terreno, que era a maior e tinha dois quartos. Eu até acho que ela morava nesta casa, porque a gente já pegou toda mobilhada. Tinha até geladeira e rádio. E a gentil moça disse que, todo o tempo que minha mãe quisesse ficar na casa, poderia dormir tranqüila, que o aluguel seria pago por umas pessoas que ainda estavam no Rio de Janeiro. Apontou para um mercadinho que ficava do outro lado da rua e falou que a minha mãe pegasse lá o que precisasse. Também era com o pessoal  do Rio. Ah, quanto a escola, a gente ia ter que esperar o restinho do ano passar. Mas que a nossa vaga tava garantida assim que março chegasse. Aí minha mãe quis saber se ela pensava em vender a casa que a gente ia morar. A moça retirou os óculos e afirmou que ela não era a dona, mas ouvira falar que o proprietário pensava sim, em negociar. Só tinha um detalhe: o homem só faria negócio, se fosse a vila toda. Minha boa mãe pensou um pouco. Depois pediu pra moça avisar ao dono. Que ele  viesse logo amanhã bem cedo, pra conversar com ela. Setembro de 1967.”

“Maceió. Alagoas. Não foi coisa de outro mundo, a nossa adaptação a esse novo mundo. Casa, comida e escola, a gente tinha e o pessoal daqui nos trata muito bem. Só ri de vez em quando, do nosso jeito de falar. Mas depois a gente vai estar falando tudo igual a eles. A gentil moça de óculos aparece de vez em quando e pergunta se a gente precisa de alguma coisa. Depois, nunca mais nós a veremos. Quando no rádio dá alguma notícia em que aparecem as palavras: COMUNISTA, TRABALHADOR, TORTURA, GOVERNO, DITADURA, EXÉRCITO, REVOLUÇÃO, PRESOS... Minha mãe larga o que está fazendo, dispara e desliga o aparelho, só faltando quebrar o botão .Fevereiro de 1968.”



Besteira. Babaquice, eu, sentado no vaso sanitário, fumando um cigarrinho e... me cagando, tentando explicar pro intestino, que eu ainda estou me acostumando com peixe, coentro e leite de coco. Ah, e esses pensamentos de merda. Fedem mais que a que cai no vaso. 1.967... Eu ia fazer dez aninhos. Porra, isso foi há tanto tempo!... Já era pra eu tomar vergonha na puta da cara e esquecer, ou pelo menos desviar peste de lembrança ruim!  Ôche, o tempo passou! Tudo passa! Se coisa boa passa... Coisa ruim, também tem que passar! Õche!... E eu já sou um senhor, tio de quatro; padrinho de dois; trabalho, ganho bem... Pra quê tanta merda de lembrança, pensamento que só faz magoar o cérebro e a merda do coração!?...
Ainda vai dar sete da manhã e fui o primeiro a chegar na Revendedora Maceió. Eu vendo carros. Mas merda de Kombi, eu não vendo não.
Lembranças. Episódios que estão lá longe. Lembranças. Deve ser por causa do meu aniversário, que é amanhã, 01de maio de 2.007. Quando a gente chega a certa idade e faz (mais um) aniversário dana a recolher lembranças lá da casa do cacete. Ainda mais, quando se completa 50 velas. Eu costumo (costumava) dar murros terríveis num lado da minha cabeça, sempre que certas recordações cismam com a minha cara. Parei com isso: além de ficar com dor de cabeça o dia todo, as merdas das lembranças continuam ainda por dois, três dias. Apesar de que, nesses últimos quarenta anos, um denso nevoeiro amarelo, pouco a pouco se apossou do meu também amarelo cérebro. É isso. A névoa camufla. Pra ser sincero, acho que eu sempre quis que assim o fosse. Viver dentro dum amarelo nevoeiro. Coisa de covarde, filha-da-puta. Coisa de homem lambão. Meu bom pai ficaria bem puto, por ter um filho assim. Lambão.
Sim, é amanhã, o dia do meu aniversário. Cinqüentão. Reconheço que já sou um senhor. Reconheço também, sem truque e sem traumas, que gostaria muito de ter um pouquinho menos de anos sobre as costas. Uns vinte aninhos a menos estava bom demais. Não, não que eu tenha ou mantenha o mínimo de saudade, gosto ou nostalgia, por qualquer época da minha amarela existência. Como já disse, eu até espanto, dando murros terríveis na cabeça (não faço mais) qualquer lembrança ou espectro idiota que me apareça pela frente, lembrando lá atrás.
 E, por favor: quando eu afirmo que gostaria de ter vinte anos a menos, isso não quer –por favor– absolutamente mostrar, expor fiapos de saudade ou nostalgia. Certos tipos de sentimentos ficaram para sempre retidos nas finas solas dos meus pés. E os pés ficam bem longe da cabeça. Devo porém admitir que, por uma simples questão estética-plástica-física-egoísta-ingênua, ando ultimamente arengando com o Senhor do Tempo. Não quero, não tolero a pegajosa paixão que esse senhor tem pelos cidadãos cinquentões. Paixão miserável, essa!  Não, não vejo qual a necessidade da visita quase que diária desse abominável Senhor do Tempo, que nunca volta sem deixar uma marca ou um carimbo. Sim, são essas marcas, que eu vou morrer contestando. Começa pelos cabelos, cada dia mais sem cor e sendo levados aos montes por qualquer ventinho besta que passa. Os dentes?!... Ah, pobres dentes, pedindo, com dores, urgente substituição. Alguns até chegam a cair em campo. Outros, o dentista-juiz os expulsou. Ah, meus pulmões, tão infláveis em outros tempos, hoje já não agüentam mais que quinze ou vinte cigarrinhos. E eu sempre gostei de duas carteiras-dia. O fígado? Se transformou num grande vacilão e se assusta,  até faz dengo, na quarta ou quinta dose. Boca amarga. No dia seguinte, chá de casca de alho. Uma tristeza. Mas, o pior de tudo, o mais doloroso de tudo, sãos os pentelhos embranquecidos, invadindo sem pena e sem dó, o meu peito e o saco. Sim, os culhões. Dois pendurados ovos, com tristes fiapos embranquecidos. Feio pra caralho. Eu, que ficava na frente dum espelho, só admirando meus dois ovões, cheios de veias roxas... E sem porra de fiapo branco... Uma tristeza. Dá pra deprimir qualquer cristão. Caso, caso eu me sujeitasse a tingir os cabelos, os primeiros a terem suas cores restituídas seriam os pelos do tórax e os dos culhões. Ah, e por falar em culhões, pode ser até impressão minha, mas, de uns tempos pra cá eu tenho sentido um relevante aumento de peso nos ditos cujos. Pelos menos uns quinhentos gramas. Em todos dois. Dizem que é uma doença que dá no saco dos cinqüentões. O nome é chumbose. É, o saco vira chumbo.
Um brincalhão, esse Senhor do Tempo, que, em vez de ficar de sacanagem comigo, deveria, isto sim, era me emprestar um ferro bem quente, para eu passar na testa e principalmente em redor dos olhos. Usar óculos de sol é bom. Mas quando não os quebro, acabo perdendo os danados. Toda semana é um novo no camelô.
E, logo após meu aniversário, é o aniversário da passagem de minha mãe para um mundo supostamente melhor. Falta, muita falta eu sinto da presença quase silenciosa da minha mãezinha. Meus irmãos que perdoem, mas ninguém, ninguém sente mais sua falta, que este senhor aqui. Talvez por ser o filho mais velho, minha mãe, na falta do marido-irmão-companheiro, me tomou como absoluta referência a suas dores e amores familiares. Amores arrancados. Minha mãezinha, talvez desejando, precisando de diferentes tipos de apoio, afeto e consolo... E eu, um ser amarelo, um lambão, não tive, não soube como ajudá-la. Não soube ajeitá-la. Me perdoa, mãe!... A senhora me perdoa?...
  Perdoa, o quanto custei a entender e a me acostumar com suas generosas doses de afeto e impaciência. Tudo ao mesmo tempo. Perdoa, minha mãezinha!...
Oh!... Pra quem não sabe, minha boa mãezinha, ainda nova, ficou viúva. Viúva dum operário. E mãe de cinco filhos. Cinco moleques com idades entre três e nove anos. Eu, era o que tinha nove anos. Mas, minha mãe não queria isso, não. Porém, segundo costume da época, toda boa esposa tinha o dever de ser companheira. Companheira.
Ah, pra quem não sabe, meu bom pai era um recém demitido da Rede Ferroviária que, por capricho de Deus, ou do Outro, foi cair, se enganchar, bem no meio dum MR. Pra quem não sabe, MR que dizer: Movimento Reto. Isso foi no final dos anos 60, bem no meio do tolete de merda eclodido por uma tal de ditadura militar. Foi um rio que passou na pacata vida do meu bom pai e ele foi na enxurrada. Para sempre.
E, foi a dita enxurrada que nos deportou (mãe e filhos) do Rio de Janeiro para Maceió, com passagem só de ida, é claro. Sumir, desparecer, enquanto dava tempo.
Ah, minha boa mãe... Perdoa. Perdoa a todos! Inclusive a enxurrada. Maceió é uma cidade bonita e nos recebeu muito bem. Mas, pra uma deportada mãe, com cinco embaixo da saia... Até se acostumar... Tentar “esquecer”... Não, não é mole não. Alagoas. Pior que, nem o velho Graciliano estava mais... Pelos menos me dar um cigarrinho e pra nos mostrar a cidade, sua terra. Ah, Graciliano odiava covardias.
Porra de recordações. Lembranças. Mãe?... Você tá aí, mãe?...  Mãe, se você tá aí, me ajuda, ajuda a não lembrar tanto!...
Mãe... E, meu carma mesquinho ou minha sina vulgar, permitiram que, num bonito domingo de sol alagoano, logo após o almoço, eu a encontrasse, sentadinha na sua cadeira de balanço, completamente liberta de sua existência física. Ainda quente e com os olhos muito abertos, segurando nas mãos os dois carnês do Baú da Felicidade e na televisão o Silvio perguntava “quem quer dinheirôô?” Puxei a outra cadeira de balanço e ficamos ali, o resto da tarde, de frente para o outro, nos olhando com ternura indescritível. Sim, liguei o ventilador só pra nós dois e vez em quando eu balançava as duas cadeiras. Nós dois, pra lá e pra cá, a hélices girando e nós balançando. Até o tempo parar. Até os pensamentos me consumirem. Porra, nunca dei tanto murro na cabeça. Depois, quando meus irmãos e cunhados, chegaram à tardinha da praia, eu saí da casa, e, aparentemente calmo, fumando um cigarrinho, soltei a notícia infame: “Gente, nossa mãe morreu”.  Enquanto, aos gritos, todos dispararam na direção do quarto de minha mãezinha, eu acendia mais um cigarrinho. Mas eu não estava nervoso, não. Não, não estava.  Apenas amarelo. E, eu mesmo me escolhi para ir à funerária e cuidar de tudo. Tem gente que pede pra gente escolher um caixão bem bonito. Porra, caixão, existe bonito?!... Mas eu fui e escolhi. Filho mais velho, é pra isso.
            Todos os meus irmãos casaram. Tenho poucos sobrinhos. Alertei a esses meus irmãos, de que residíamos na parte nobre de Maceió, portanto não havia necessidade deles terem cinco ou seis filhos, cada um. Sou o irmão mais velho e eles concordaram. Anos mais tarde, andando por um lugar chamado Vergel, próximo ao centro de Maceió, eu mostrei a esses meus irmãos e cunhadas, as condições em que aquele povo vivia e o absurdo número de crianças nas portas dos barracos. Todos sem feijão, arroz e mortadela... e kisuco. E nem uma comunista Dona Laura, pra chegar pelo menos no Natal.
Três dos meus bons irmãos preferiram não morar na vila. Construíram suas casinhas em outros bairros. Na época, minha mãe reclamou muito. Disse que havia comprado uma vila com cinco casas; era pra gente ficar tudo junto. Não teve jeito: dois moram na Serraria, o outro no Farol. Também são bairros bons e não ficam assim tão longe de Jacarecica. Na vila, ficou meu irmão mais novo, que ocupa a casa maior. Nas outras, moram eu e mais três casais sem filhos, que pagam em dia o aluguel.
Todos casaram. Aos domingos, sempre nos reunimos e vamos pra Paripoeira, que, além da praia linda, o mar tem paciência com a molecada.
Sim, todos casaram. Fiquei eu, com o título e a coroa de tio. Às vezes, quando o assunto é matrimônio, e eu não consigo fugir, me esquivar, eles gentilmente me recriminam por não manter uma companhia “certa”, e insistir em abrigar em casa, por curtíssimas temporadas, moças de todos os tipos, cores e vergonhas. Reclamam que meus sobrinhos confundem e trocam o nome da última pela penúltima. “Já passou da hora de você casar!” “Tanta moça boa, nessa cidade!...” Inclusive teve uma dessas moças-boas que, assim que eu a apresentei, a danada caiu nas graças de todos: irmão, cunhada, sobrinho-afilhado... Uma morena meiga e educada, que é gerente na Caixa Econômica. Não durou seis meses. Ela chegava pra me visitar e eu trancado no quarto, com um monte de folhas manuscritas espalhadas por todos os lugares. Ai dela, se tocasse numa daquelas folhas! Um dia ela pediu só pra olhar e eu, ríspido, disse que depois mostrava. E as vezes mal a cumprimentava. Nem um beijo!... Voltava para os papéis e só saía na hora do Jornal Nacional. Qual mulher resiste a um animal assim? O pior é que, no início do namoro, empolgado, eu sou o mais romântico dos homens, talvez o amante que toda mulher deseja. Porém, pouco tempo depois... E, na realidade, são poucas as mulheres que se sujeitam a conviver com um amarelo pintor de Bandeiras. Um amarelo contador de histórias. Sim, um contador de histórias. Muitas já me disseram que são todos uns covardes e não merecem confiança.
Calma, aí. Também tenho cá as minhas compensações. O paciente papel de tio-padrinho-solteirão, exerço com muita atenção e carinho, e as vezes até exagero. Vezes e mais vezes pego o carro do meu irmão e saio de casa em casa, catando a molecada. Praia, pesque-e-pague, shoping... Meu bolso reclama, mas eles adoram. Falem de todo mundo, menos desse tio-padrinho-abestado, que eles se transformam num MR. Sim, me defendem com unhas e dentes. Talvez, até com metralhadoras e bombas. Soube que, durante todo ano, fizeram feroz economia. Nem foram assistir ao Homem Aranha 2 !... Parece que amanhã, depois de apagar as cinqüenta (argh!) velinhas, vou ganhar um computador novinho em folha. Aí, é que eu não caso mesmo.
Calma aí. Também não sou aquele tipo que só dá trabalho à família. Posso até ser um amarelo, mas preguiçoso, não. E, por falar em trabalho, todo mês ganho o prêmio de melhor vendedor na revendedora de automóveis, dos meus irmãos. Pagamos uma pequena multa a fábrica, mas não admitimos nenhum modelo de Kombi em nosso estacionamento. Mesmo que seja de outra cor. A Borboleta Branca foi apenas uma. Única! Única! E voou para sempre.
 Voou. Sim, toda estragada pelos tiros de metralhadora, a Borboleta não resistiu. Um veículo, uma kombi branca, que meu bom pai chamava de “borboleta”. Por estarem sempre juntos e ser companheira de fato, a borboleta kombi levou, também todo furado, o subversivo Dr. Marcelo. Junto ao Dr. Marcelo, foi-se um operário, pai de cinco, que nem sabia que Moskow não era Brasília. E que Brasília tava por fora, longe pra caralho do Brasil. Porra, meu bom pai tava apenas dirigindo a tal Kombi!  Nem de arma, ele gostava! A comunista Dona Laura, quem levou foi a Polícia do Exército, bem na saída da rodoviária de Campos−RJ.  Foi Dona Laura, quem embarcou a viúva e os cinco  moleques, de Campos para Maceió. Quando ela tava saindo da bendita rodoviária de Campos...  Dona Laura? Também foi de metralhadora. Pegou bem no olho. Esquerdo.  Ah, porra de pensamentos.
Epa! Oito horas. Presta atenção, cagão. Hora de limpar a bunda, levantar a calça, o espírito e as portas da frente.  Começar a atender a clientela. Revendedora Maceió. Mais uma vez, vou ter que alertar:
−Senhor, por favor... Já disse que não trabalhamos com Kombi! Não, muito menos, branca!



                                      FIM

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