lundi 2 novembre 2015

CRÔNICA DA URDA

Mãos que oferecem rosas
           

(Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

                                   Eu vinha de uma infância muito mágica, por conta da natureza, das minhas emoções e dos livros que lia. Escrevi muitas coisas, já, sobre isso, mas acho que nunca escrevi sobre a magia de ir de bicicleta à Biblioteca Púbica pegar livro novo, e na volta, vindo pela rua Amazonas, olhar para os morros e os vales do vale maior, que era o Garcia, e absorvê-los numa grande inspiração só, com suas distâncias, suas tonalidades que me pareciam as cores da nostalgia, e me sentir inteiramente parte daquilo tudo, dos morros, das cores, das distâncias. A bicicleta era como uma nave única no universo, onde eu podia viajar pela rua Amazonas e por todas as galáxias que a emoção e os livros traziam – por trás de tudo vinha a minha fada madrinha que se chamava Irmã Maria Adalgisa e que fora a minha professora de quarta série.
                                   Assim fui atravessando a adolescência, cantando coisas bonitas como:
                                   “Fica sempre um pouco de perfume
                                   Nas mãos que oferecem rosas
                                   Nas mãos que sabem ser generosas...”, canções aprendidas com as minhas freiras queridas, e são tantas as lembranças desse tempo que nem dá para lembrar tudo aqui e agora, e assim fui andando pelo meus espaços, imbuída dessa magia que me vinha desde as primeiras lembranças, e um dia já tinha 19 anos e comecei a trabalhar.
                                   E lá na escadinha que havia que subir para entrar no serviço, havia aquele moço mais bonito de todos, manhã após manhã, a me cumprimentar calorosamente com um sorriso de rosa desabrochando, e ele tinha também aquela cor das rosas mais suaves e lindas, pura cor de rosa, como a cor que a gente imagina que têm as nuvens onde anjinhos brincam, e havia um halo que o envolvia com aqueles tons de rosa que tem o amor.
                                   Se vinha de uma vida encantada, mais encantada fiquei, e foi aquele moço mais bonito de todos quem me ensinou novas canções, daquelas que cantavam no rádio, mas que aprendi como se tivessem nascido somente da minha emoção:

                                   “Contigo aprendi que existe luz na noite mais escura
                                   Contigo aprendi, que em tudo existe um pouco de ternura...”
                                   Tudo faz tanto tempo, mas é tudo tão real ainda!  Tanto a minha Irmã Maria Adalgisa quanto aquele moço mais bonito de todos e os aprendizados da magia, e fico pensando como a magia é coisa tão séria, que não se rompe, não se acaba, mas se multiplica e pode atravessar as décadas e iluminar uma vida inteira.
Hoje, quando passo por pequenos bosques, lembro daqueles tons de nostalgia dos morros do meu vale do Garcia e de outras coisas tão mágicas que aconteceram que acabaram norteando minha vida, e o moço mais lindo de todos, que partiu faz tantas décadas, normalmente me espera em lugares assim, e de novo me sorri seu sorriso de rosa, e vez ou outra sai da penumbra do bosque e me acolhe nos seus braços com tamanho carinho e proteção que não posso deixar de inspirar profundamente para absorver momentos de tal grandeza, como um dia, na adolescência, absorvia o encantamento do vale aonde vivia.

Blumenau, 01 de novembro de 2015.

Urda alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia.

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