vendredi 10 juillet 2015

HISTÓRIAS DE NOSSAS ROUPAS E CALÇADOS

Oficina literária realizada pelo Grupo do Varal do Brasil no Facebook.
Organizado por Isabel C. S. Vargas



MINHAS BOTAS DE VERNIZ MOLHADO MARROM
Lá pelos idos de 1971, saímos, toda nossa família, a comprar calçados para todos. No alto dos meus 10 anos, eu queria uma bota para usar com minha saia "midi" azul marinho com botões, aliás, modelo que eu escolhi, explicando para minha mãe como queria a saia. Entramos e saímos de várias lojas, nas ruas comerciais de Porto Alegre.
Era um dia feliz. Todos juntos, conversávamos e olhávamos as lojas. Os meus pais olhavam os preços e prestavam muita atenção aos nossos desejos. Depois que os homens da casa compraram seus calçados, as meninas estavam livres para escolher. Eu não me demorei. Coloquei os olhos em um par de botas de cano alto, em verniz molhado marrom. Elas eram o meu "sapatinho de cristal". Um pequeno salto para uma mocinha. Ah! Para amarrar, usava-se um cordão e vários ganchos que deixavam uma trama trançada na perna. Depois de calçá-las, não consegui imaginar como eu vivi sem elas até aquele momento. E olhando bem para as botas de verniz molhado marrom tive a certeza que elas também perceberam que não eram nada sem mim, até aquele momento.

Isabel Cristina Albuquerque- 2014
 Uma das vantagens da juventude é possuir aquela tal alienação natural, que na verdade é uma mistura de ingenuidade com uma pretensa coragem de desafiar as convenções. Eu nunca me preocupei muito em seguir modismos ou imposições de momento. Houve uma ocasião na minha adolescência em que eu comprei um par de tênis cujo desenho insinuava um foguete decolando, ou seja, um calçado bem colorido com o vermelho e amarelo representando o fogo das turbinas do foguete. Certo dia eu saí com uma calça cor de abóbora com listras pretas finas e uma camisa t.shirts vermelha e branca. Eu estava parecendo o Tocha Humana dos quadrinhos. Quando eu saltei do trem, alguém gritou assim: Ei cara! Você tá competindo com o sol? Ele vai acabar ficando com inveja de você.
                                                                                                        Juca Cavalcante


 TRES HISTÓRINHAS E UM EPÍLOGO

Primeira história:
Na juventude, a curtição era de saias amplas, rodadas, em farto godê, tendo arremate de um belo cinto contornando a cintura de vespa, fina, delgada, esbelta e elegante.
Veio a moda de minissaia, acompanhada também por belos cintos.
E assim, a minha coleção de cintos aumentou. Novas modas. Novos arremates Sem cintos. O jeito foi guardar todos os cintos colecionados.
E, um belo dia, nova moda, os cintos em destaque. Lembrei-me da minha coleção, tirei do armário, e eufórica apreciei o meu tesouro, A tristeza bateu inteira: nenhum cinto me serviu. O corpo de cintura de vespa já não existia mais.

Segunda história:
Ainda na juventude, ganhei de um amor, um par de brincos de brilhantes e platina. Fiquei meio triste com este presente, pois o amor não reparara que eu não usava brincos e nem tinha orelhas furadas para tal. Mesmo assim, recebi o presente e guardei, afinal era uma jóia. O amor se foi e ficou a jóia.
Certo dia, precisando demais de dinheiro, lembrei-me do par de brincos e levei para uma avaliação. Ansiosa eu esperava uma resposta, precisava urgentemente do dinheiro, perguntei então ao avaliador:
- quanto vale este par de brincos?
- Nada. Respondeu-me ele. Nada. Não é um brilhante puro, tem carvão nele, e as garras desta jóia, são antigas, não mais comerciável...

Terceira história:
Fui então desapegando-me de coisas, com as experiências vividas. Só colecionava retratos. Quando minha filha nasceu, tirei fotos dela de cada fase, seu primeiro sorriso, seus primeiros passos, seu primeiro banho de piscina... registrei cada dia, cada mês de seu primeiro ano de vida.
Um belo dia, um ladrão entrou na nossa casa, carregou tudo, minha máquina fotográfica, álbuns e fotos... Nunca mais recuperei o primeiro ano de minha filha... Isto dói, dói mesmo até hoje...

Epílogo:

Raiva. A raiva predominou totalmente nessas situações. Raiva. Revolta. Desassossego. A vida é dor. Mas, não deixarei que essas dores me dominem, decidi então. A vida se movimenta. Tenho de seguir seus movimentos. Não mais fiquei colecionando cintos ou roupas desnecessárias. Nada de acúmulos. Não mais quis jóia como investimento financeiro: curto as jóias que me dão prazer. Ah... os retratos: esses, sim, faço questão de colecionar: momentos, pessoas, fatos vividos, mas principalmente guardo no coração os prazeres sentidos e vividos, que nem os retratos podem captar. Viver. Usufruir o que a vida nos proporciona, no seu momento exato e único, virou meu lema. Mas, uma raiva eu evito há muito tempo: não empresto livros. Cansei das não devoluções dos empréstimos. Tenho um xodó com os meus livros, só conservo aqueles que realmente me marcaram e são importantes. Gosto também de ver a articulação dos livros. Assim, dou livros. Sempre dou. Mantenho um razoável acervo para meu uso. Mas, emprestar livros... Jamais! Assim, nem livros em uma biblioteca particular, eu não coleciono.

Norália de Mello Castro
Brumas, 20 de outubro de 2014


Num de meus aniversários, não sei qual, ganhei da minha madrinha um vestido vermelho; era a coisa mais linda que eu já tinha visto, com a saia rodada, a cor viva, eu me sentia uma princesa com ele. Mas havia um probleminha: o vestido era sufocantemente quente, parecia um forno, com todo aquele tecido pesado e o forro grosso, me fazia suar em bicas e eu suportava calada a tortura, ficava quietinha, não brincava, pois parecia que a roupa abafada me tirava as forças, me deixava febril, sem ânimo para nada. Minha mãe dizia que com aquele vestido eu (moleca) me comportava como uma "mocinha". A paixão doentia pelo vestido vermelho acabou de vez quando eu cresci um pouco e ele não cabia mais em mim... Parando um pouco para pensar, acho que aquela coisa nem era tão bonita assim, não passava apenas de delírios de conto de fadas na cabeça de uma sonhadora criança do interior... Fiquei bem melhor sem ele, acho que por isso até hoje não suporto roupa desconfortável, aquela já foi suficiente para a vida toda, ufa!!!!                                                                                                                    
Ana Rosa Santana


 Relembrando
Desde a mais tenra idade sempre gostei de usar os melhores vestidos após o banho da tarde.
Recordo-me que sempre eu discutia com mamãe, pois queria me vestir como se fosse uma princesa, mas, normalmente acabava ganhando uma palmada e a opinião dela prevalecia.
Quando cheguei aos meus 12 anos de vida, tive que me virar para aprender a costurar, pois meus pais atravessavam uma faze muito difícil, e o dinheiro era escasso em nossa casa.
Até hoje me recordo das primeiras peças que costurei. Era uma blusa xadrez enfeitada com sinhaninhas, e uma saia godê guarda-chuvas, em moda naquela época.
Quando as usei pela primeira vez, parecia que tinha conseguido ganhar o primeiro prêmio na loteria.
Até hoje não sei se as peças estavam bem acabadas, mas a verdade é que a partir deste dia, nunca mais deixei de me vestir como sempre desejei.
Com pouco dinheiro ia até a loja e escolhia os tecidos mais baratos. Como eu mesma criava os meus modelos, todos passaram a me admirar e copiar os meus vestidos.
Mas querem saber? Até hoje quando fecho meus olhos ainda vejo aquela blusa xadrez e aquela saia godê guarda-chuvas.
Fiquei muito triste quando estas peças tiveram que deixar de serem usadas, pois já se encontravam sem cores e muito rotas.

Maria Nilza Campos Lepre


 Não sei quanto tempo meu sapato de camurça preto está ali esquecido ou dormindo a minha espera... Mas sei que ele está enrolado em minhas lembranças. Se tem anos? – Sim, tem e muitos, caminhamos, cúmplices várias vezes. Estávamos juntos em dias ensolarados, e também quando a chuva nos surpreendia. Ela vinha mansa, para depois nos abraçava forte, corríamos para nos escondermos dela... Quando eu era criança ao ganhar uma coisa muito desejada, me acordava a noite e olhava para ver se ela estava ali... e se era verdade. “Com esse sapato, eu gostava muito dele, eu voltei a ser criança, me acordava a noite e quando olhava, estava lá e parecia ‘‘sorrindo”.
Carmen Di Moraes

 Quando tinha uns quinze anos o grito da moda era pantalonas boca de sino e túnicas cumpridas cobrindo os quadris. Minha mãe copiou para mim um modelo da Revista Burda e fez minha primeira roupa com jeito de adulta. Primeiro escolhemos os tecidos entre as sobras de seu ateliê de costura. Tinham que ser lilás, minha cor favorita. Encontramos um liso quase roxo, para a calça e outro de fores miudinhas em lilás sobre fundo branco. O modelo da túnica era em decote V e depois se fechava com delicados botõezinhos forrados até o umbigo e se abria novamente no mesmo formato até o meio das coxas. As aberturas laterais deixavam o meu andar fluido o que eu achava o máximo. Adorava exibir (ou me exibir!) meu conjuntinho de adulta nas festinhas do clube.                                                      Ly Sabas


Menina sapeca, vivia brincando com meninos vizinhos na rua, então palco de folguedos. Jogavam finca e vôlei, brincavam de pega e até de casinha... E a menina sapeca vivia descalça... só calçava quando ia ao cinema ou alguma festinha. Amava andar descalça. Chegando à adolescência, começou a ouvir lições de sua mãe e de uma tia: - Vá calçar sapatos... você está crescendo e seus pés também... uma mocinha precisa ter pés delicados...Mas, nada disso a entusiasmava tirar os pés do chão, sem sapatos, o que veio realmente a fazer, quando começou a freqüentar bailes... aí sim, os sapatos eram lembrados pela jovem alta, elegante, de pés grandes. Ao chegar em casa, jogava os sapatos para o ar e andava pela casa descalça, até que um sapato em especial a encantou: sapato dourado, de bico fino, maravilhoso complemento. Passada essa fase, ela guardou o sapato dourado, guardou por muito tempo... Num desses retornos de moda, um dia, buscou o sapato dourado, iria usá-lo novamente. Feliz pegou o lindo sapato, calçou, e de repente... plaf... o sapato estourou... Já não tão jovem, corpo encorpado, seus pés haviam crescido, melhor dizendo, engordaram... não couberam no sapato dourado... Lembrou-se das recomendações da mãe e da tia:...uma mocinha precisa ter pés delicados... E riu, com o sapato dourado as mãos. Afinal, não era mais mocinha, seus pés eram proporcionais à sua altura, Mas, uma coisa não mudou para a menina sapeca: andar descalça pela casa. faça frio ou calor, ela está sempre descalça... até hoje... e que prazer sente ela.
Brumas, 26 de outubro de 2014- Norália Castro
 Eu não me lembro muito bem de histórias com roupa ou sapatos, exceto de uma que me deixou envergonhada... Eu devia ter uns sete ou oito anos e como íamos em família almoçar em casa de uns amigos dos meus avós, tivemos todos que ir bem arranjados, porque as pessoas em questão eram formais e cheios de frescura. Decidi vestir a minha toilette nova para ir bonita... Mas a beleza durou pouco porque no almoço, de tanto brincar, acabei sujando a roupa com molho e ficou uma mancha enorme. Eu escondi com o guardanapo, mas a minha mãe reparou e disse: "Rita! Não podes estrear roupa nova, nunca! Olha, estas toda suja." E nesse momento todas as pessoas na mesa me olharam e eu só queria ser uma avestruz... Que vergonha!

Rita Pea


 Ganhei um vestido de listras vermelhas, de malhinha, muito bonito. Eu tinha uns oito anos na época e, mais lindo de tudo, o presente veio de meu pai, o qual estava quase sempre ausente por causa de seu trabalho como representante farmacêutico. Mas naquela sua volta ele chegou trazendo presentes para minha mãe, meu irmão e, para mim, o maravilhoso vestido. Meu pai, confesse-se aqui, não tinha muito tino de tamanho e moda e o dito vestido ia quase até os meus pés, de tão grande para mim. Mas quem disse que eu quis, sob os conselhos sábios de minha mãe, guardar o vestido "para mais tarde". Na primeira oportunidade, uma festinha, lá fui eu vestida com meu novo mimo que quase arrastava no chão. E me achava linda. Depois usei ainda várias vezes caindo na mesma situação: o vestido era largo, era comprido, e eu pendurava cinto, fazia qualquer coisa, mas queria usar o vestido. E usei. Só para ter uma ideia, aos quinze anos eu ainda o tinha. E foi mais ou menos nesta idade que ele, até que enfim, ficou do tamanho adequado. E, graças aos meus cuidados exemplares, parecendo novo!
Jacqueline Bulos Aisenman

 O PAR DE SAPATOS

Quando era pequeno, queria muito crescer para ganhar o mundo.
Queria dedilhar as estrelas e beber todos os rios, andar todas as terras, conhecer todas as pessoas e me banhar de todas as chuvas por onde passasse.
Queria falar todas as línguas (que aos poucos fui sabendo que existiam) e cantar todas as canções que faziam as moças namoradeiras suspirarem.

Queria sentir o calo apertado pelo primeiro par de sapatos comprados com meu trabalho; pelo menos assim poderia comprar um que me agradasse e que, para descobri-lo, eu pudesse experimentar vários, ao invés de ver meu pai dobrar a esquina com a minha medida de pé metida no bolso, concretizada em uma palha de milho que ele cortava dois centímetros maiores para o sapato durar o ano inteiro.
Consegui várias dessas coisas: meu trabalho, meu salário, aprendi um pouco de poucas línguas, cantei algumas canções, namorei algumas moças e comprei meu primeiro par de sapatos..
Perdi vários de meus sonhos, perdi meu pai para Deus e hoje o sinto entre uma das estrelas que jamais dedilhei, perdi a minha inocência e descobri, com um travo amargo na boca, que jamais ganharei o mundo, visto que sequer tenho a mim.
Sou prisioneiro de minha adultice, com calos nos pés e cicatrizes na alma!

Paulo Pazz
Sapatos de menina

Quando criança adorava calçar os sapatos da minha mãe e sair desfilando pela sala com ares de mocinha. Os meus sapatos de menina eram muito sem graça para o meu gosto, eram sempre brancos e tinha de usá-los com meias brancas enfeitadas com renda, bordados ou desenhos. Uma chatice para uma menina cheia de sonhos. Meu maior desejo na época era usar sapatos pretos sem meias. Assim se passaram os anos até que ganhei o meu primeiro sapato colorido, não eram pretos, mas mesmo assim adorei. Eram sapatos tipo boneca, rosa com detalhe que formava um laço no peito do pé. Fiquei muito feliz, pois a partir dai nunca mais usei sapatos brancos e muito menos aquelas meias horrorosas que tanto me causavam aflição.

Marilu R F Queiroz

 A alma

Uma vez comprei um sapato mais pela beleza do que pelo conforto. Tinha um salto que teimava em fazer barulho tal e qual aqueles de sapateado. Clac! Clac! Clac! um horror! Para descer escada então... um barulhão. Logo me acostumei e comecei a caminhar dum modo mais silencioso, como se andasse nas pontas dos pés. Mesmo assim continuei a usá-los por um bom tempo. Já acostumada ao calçado percebi que ao caminhar o danado começou a ranger do mesmo modo quando se pisa num assoalho de madeira rachada. Rhaim...Rhaim... O jeito era levá-lo ao sapateiro e qual não foi a minha surpresa quando ele me disse que a alma do sapato estava quebrada. Pensei comigo um tanto surpresa: Sapato tem alma?
   Marilu R F Queiroz


 Meu vestido de noiva, é óbvio, me acompanhou na cerimônia religiosa e na festa que ocorreu após o evento. Eu mesma o escolhi. Era simples, com o colo transparente e todo feito em nervuras bem fininhas.
 Não me perguntem o porquê, pois nem mesmo eu sei responder por que
o fiz de mangas longas transparentes com as mesmas nervuras, sendo as mangas, a
saia, o decote arrematados com florzinhas de guipure bordadas com pérolas. Meu
casamento foi em pleno verão. Qual o sentido das mangas longas ainda não
descobri, mesmo passados quase 40 anos.
A verdade é que o guardo até hoje. E, por apego ou mania, o que vai dar no mesmo, guardo o de minha irmã, o de minha filha assim como os vestidos de 15 nos de minhas filhas e os de debutantes.
Que se faz com estas roupas, que ninguém mais vai usar, e que outras pessoas fora da família também não desejarão? Aliás, nem os da família.
Valor sentimental! Mas, haja lugar para guardar tantas coisas
                                                                                                          Isabel Vargas


Sapatos: Quem não adora sapatos?
Pois eu, certa ocasião juntei tantos, que não tinha lugar para guardar no
quarto, porque os guardo enrolados dentro das respectivas caixas. Então, a
solução foi guardar as caixas na garagem. Acontece que eu acabo sempre usando
os mesmos, pois vão ficando mais cômodos para os pés, com o formato anatômico
de modo a nos proporcionar conforto. Comprava três, quatro pares de uma só vez.
Cores? Preto, branco, marrom, cinza, marinho, rosa, vermelho, azul, amarelo,
tigrado, o que aparecesse na loja e eu gostasse. As estações passam, e
determinadas coisas de moda acabam não dando para ser usadas sempre. Resultado?
Certa vez juntei cinqüenta pares de sapato para doação.     Isabel Vargas


             

Tenho que me desapegar de um costume muito forte, sob pena de virar acumuladora. Guardo coisas que eu gostava de usar quando
jovem e que me custaram relativamente caro, à época e foram comprados com o meu
próprio salário. São os óculos de sol. Os de grau que não uso mais, dou para as
campanhas que aproveitam as armações para fazerem com o grau das pessoas
necessitadas. Mas, os de sombra é um caso à parte. Tenho vários, Ray-ban legítimo,
outro que a armação era folhada à ouro, tem coloridos, azul, verde, preto, branco,
com armações quadradas, redondas, oval, imensas, outras nem tanto. Tenho um que
era de minha sogra, que deve ter uns noventa anos, pelo menos, pois ela era
nascida no início do século passado. Era do tipo “gatinho” com pedrinhas
aplicadas e estão novinhos. A caixa é couro com zíper. Um mimo , que serve como recordação de uma pessoa
querida. Entretanto, sei que o dia que eu não mais estiver aqui deixarei um
imenso trabalho para minhas filhas para desfazerem-se de todas essas coisas já
que não há nem lugar para elas guardarem.
                                                                                   Isabel Vargas

             

Era meu aniversário de sete anos. Não haveria festa. Era dia de semana. Minha mãe fez um bolo para o café da tarde para o qual viriam minhas tias.
Ela mandara fazer um vestido novo. Era de tafetá rosa, mangas curtas-era verão- com tomas na parte do corpo e a saia franzida, o que o deixava bem rodado. Estava muito contente e me sentia bonita com o vestido.
Naquela época era possível e não perigoso deixar as crianças ficarem à porta da casa, sentada nos degraus, com a porta aberta, pois a violência não era comum. Cidade pequena e pacata.
 Era uma rua estreita, bem no centro da cidade, todos os vizinhos conhecidos.
Ansiosa para receber os convidados, as tias que iriam para o café, ia até a esquina e voltava. A casa era no meio da quadra. Eis que em uma das vezes que ia até a esquina no sentido oeste, vinha do sentido contrário, pela calçada, um jovem de bicicleta, em
velocidade acentuada, de modo que não pode frear e me atropelou. Lá fiquei
atirada na calçada, toda arranhada nos joelhos, nos braços e no nariz. E meu
vestido além de sujo, com pingos de sangue.                      Isabel Vargas


  

  Lembro de passar pela frente da vitrine e lá estavam elas: as mais lindas botas que o fim de minha infância tinha visto: cano alto, pretas, toda cheia de lacinhos passando pelo mar de ilhós prateados. Me apaixonei e fui correndo falar desta nova paixão para minha querida vó. Claro... claro que ela não pensou duas vezes e foi comigo até a loja comprar o meu novo sonho! Saí de lá com o pacote nas mãos, felicidade pura. No domingo seguinte, toda arrumada para ir ao cinema com as amigas, na famosa sessão da tarde, lá fui eu vestida com uma saia curta e blusa combinando. E com as botas, minhas lindas e novíssimas botas pretas! Não há dúvida, foi "a" sensação entre as meninas!
                                     Jacqueline Bulos Aisenman


 Quando fui fazer o curso para primeira comunhão, pouco me interessava todo o conteúdo. Verdade seja dita, o que me interessava mesmo era o tal vestido branco que eu deveria vestir no dia 8 de dezembro! Era tal a vontade de usar um longo vestido branco, com aquele véu lindo e esvoaçante... Do alto dos meus nove anos de idade, era como me sentir princesa! Por isto, quando o modelo designado para as meninas foi entregue às mães, ah que decepção! O modelo do vestido era curto (onde estava o meu longo vestido??) e o véu também curto (onde estava meu esvoaçante véu branco??). Fiquei traumatizada. Recusei-me a vestir o dito no dia da festa. Não queria ir. Fui, mas ameaçada por uma mãe furiosa com meu comportamento. Confesso que até tentei entrar no clima, mas cada vez que olhava o vestido, desanimava. A festa para mim acabou quando um dos meninos, na reunião após a Comunhão, derramou, sem querer, café no meu vestido. Foi o mote. Bati no menino, gritei feito um menino e ali foi encerrada minha festa. Com a mãe furiosa (novamente) me levando para casa.
                                                 
                                      Jacqueline Bulos Aisenman


Última da última historinha

Não sou saudosista, mas tenho muitas lembranças, que ficam como lições de vida...
Sim, um bom e belo par de sapatos adquire alma nos pés que precisam...
Naquele ano, a casa dos meus pais virou um pandemônio: gente pra cá, gente pra lá, todos se agitando e trabalhando para a caçula da família que iria se casar: cerimônia religiosa preparada, a festa organizada, enxoval completado, tudo em torno da irmã mais nova... e eu também participando e ajudando,,, Lá pelas tantas comecei a sentir algo estranho: certos olhares, certos comentários... e um coitadinha da irmã mais velha ali encruada com um noivado prolongado. Me enchi de medos...Vocês vão ver, dizia pra mim mesma, não pensem que irei ficar assim pra baixo... Sai, comprei um belo vestido vinho, e comprei aquele sapato maravilhoso vinho, salto alto, o mais alto salto que encontrei. No dia do casório, caprichei. Eu deslizava nas nuvens, voava nos céus com aqueles sapatos. Participei do evento, com a auto estima levantada, sem ninguém me olhar como a irmã mais velha coitadinha... Tive meu momento de glória, desfilando altiva e alegre. Nada melhor para levantar a moral de uma mulher, torná-la poderosa e mais feminina, do que um bom e requintado par de sapatos de salto alto...
Norália Castro



Sempre achei lindas as cenas de filmes onde a moça tinha uma saia longa que esvoaçava ao vento na beira da praia de mar. Nunca tive a oportunidade de fazer isso... Mas, uma vez fui fazer uma homenagem a Iemanjá, após a homenagem quando voltava, começou a ventar na beira do mar. Eu estava com uma saia longa e azul, de tecido leve, e ela esvoaçava ao vento... Lembrando-me de cena do filme, olhei para o mar e sorri... Agradecendo a Mãe sereia... por aquele momento de felicidade...

Carmen Di Moraes


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