vendredi 15 mai 2015

Crônica da Urda

Intensidade 1
                                  
                                   (Para Eduardo Venera dos Santos Filho)                                        

Foi ontem ou foi no outro milênio? Não sei, a pedra estava ali como parecia que sempre estivera, basalto misturado com outras coisas de um antigo derrame vulcânico, rodeado de espuma branca, com uma marca sambaquiana e o grande oceano Atlântico por tudo – houvera então a lua, e agora havia o sol? Essas coisas podem acontecer no mundo do amor; é um mundo onde tudo é possível. E se então houvera um homem de jaqueta azul, agora havia uma fada de olhos claros, e filetes de prata se derramavam no ar e nos ligavam a todos, a ele, à fada, a mim...
                                   No outro tempo houvera menos vegetação – a restinga, agora, se repovoara de plantas, estava densa, como que escondendo lembranças, mas a fada era de verdade e vinha de lá daquele tempo de tanta intensidade de vida que era complicado viver, mas tão bom, mas tão bom estar-se vivo então! Aquela noite de lua e de frio ali naquela pedra valia por uma existência, era uma florzinha que valia tanto quanto o imenso buquê de intensidade que fora a grande história de viver lá no outro milênio, tão grande, maravilhosa e densa que bastava aquela história, ou aquela noite de lua, para a vida ter valido a pena. Dou-me conta, agora, que muitas pessoas passam todo o seu tempo no mundo sem ter uma história, e para mim houve tanto, tantos buquês e tantos momentos de infinito valor, que quando se estilhaçou a taça da felicidade e já não havia como reunir os fragmentos de cristal, permaneci atrelada ao mundo por aqueles filamentos de saudade e de dor, pois aquele tanto de plenitude que bebera daquela taça valia por uma intensa vida inteira.
                                   E o milênio se fora e as décadas correram com a lentidão que há quando se espera um milagre que se acha que nunca virá, e só era possível o continuar caminhando porque lá atrás, no outro tempo, tudo estivera tão cheio de lua e de sol, e houvera coisas como a noite de luar naquela pedra que um dia fora lava que escorrera de um vulcão esquecido, e por momentos assim era possível continuar-se vivendo.
                                   Mesmo depois de tanto tempo, a pedra não parecia ter sofrido nenhum milímetro de desgaste, acossada que estava, todo o tempo, pelo grande mar-oceano e eu até me espantei com a pujança da vegetação de restinga que crescera tanto – mas espanto muito maior era a presença da fada, emergida lá de dentro do tempo, vinda de uma semente do outro milênio, boa e generosa, coração grande para entender tudo, espargindo pó de pirlimpimpim no meu entorno e dando o sentido para toda aquela espera. Não havia que ter apresentações – os filetes de prata que vinham lá do passado e nos uniam a todos eram suficientemente claros para que se pudesse ter a certeza de tudo. E então era tão bom, tão bom, que não importava que a pedra que estivera coberta de lua estivesse agora coberta de sol – o dia era único e especial, desses dias em que se devem fazer coisas boas como comer doces, para sacralizar a intensidade.
                                  
                                   Blumenau, 09 de Maio de 2015.


                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.



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