mardi 24 février 2015

DIVAGANDO ENTRE PALMEIRAS


Texto de Adair Dittrich 
enviado por Urda Klueger

            Um dia eu me deparei a rabiscar palmeiras em qualquer papel a meu alcance. Toscas palmeiras que minha mão nada hábil na arte do desenho tentava fazer com que alcançassem o mar ali ao lado à tênue luz de um imaginário luar.
            E assim passei por longo, longo tempo, em minha vida. E ainda passo. Rabiscando palmeiras. E nas poucas tentativas de aprender pintura também lá estavam elas, as minhas amadas palmeiras. E sempre a me perguntar por que esta obsessão por palmeiras. Eu não nasci “à sombra de uma palmeira que igual não há”.
            Essa busca minha por palmeiras debruçadas sobre o mar é contínua. Inúmeras praias vislumbradas e elas lá estavam. Mas sempre longe do mar. Porque as que deveriam estar sendo beijadas pelas prateadas espumas já haviam sido banidas dali e em seu lugar só encontrei o que a civilização considera confortável.
            Mas, no verão passado, verão dos trópicos do lado de cima da linha do Equador eu encontrei o meu paraíso repleto de palmeiras à beira-mar. Que não era um mero paraíso imaginário.
            Lá estavam as lindas e verdejantes ramagens debruçando seus enormes e majestosos cílios sobre um mar de infinitas cores, sobre um cristalino e cálido mar que carrega em seu bojo todas as tonalidades do mais claro verde até o azul mais escuro que se delineia lá longe nas fímbrias do horizonte.
            Cores que, se mesclando às cores do crepúsculo, impregnadas ficam com todos os tons que se emaranham desde o pálido amarelo até o mais rubro vermelho, entrelaçados ainda nos lilases, em cada amanhecer, em cada entardecer...
            Vagando pelas areias da linha d’água, com todo aquele verde se embalando a minha frente eu ouvia um sussurrar baixinho entre as ondas do mar e o farfalhar das palmeiras. Só poemas dos deuses e das musas soavam em meus ouvidos e o cântico dos cânticos ali estava sendo entoado.
            E entre as esguias e altaneiras árvores de beira-mar nos deixávamos ficar deitados e refestelados nas areias sombreadas. Nos espaços entre as palmeiras erguiam-se abrigos, pequenos quiosques hexagonais cobertos com estas verdes ramagens para um sombrear mais abrangente.
            E ali se passavam as horas, dia após dia, saboreando puros sucos de fresquíssimas frutas tropicais com pura espuma de cristais de gelo.
            E ali se passavam as horas, dia após dia, deslumbrando-se com as cores daquele mar, daquele céu vestido de azul-esplendor, debruçados em longas cadeiras, lendo, escrevendo, cantando e contando das coisas todas das vidas nossas.
            E ali se passavam as horas, dia após dia imergindo e flutuando, nadando e boiando naquelas tépidas, límpidas e cristalinas águas de ondas amigas de um mar sem fim.
            Saborear lagostas recém retiradas do fundo do mar, ali, à sombra dos palmeirais com as “Bucaneros” mais polares do mundo, vocês podem ter certeza de que igual não há.

            Fomos conhecer este paraíso à beira-mar, estas brisas do mar, depois de passarmos alguns dias em Havana, a capital daquela ilha-país rodeada de praias.
            Em Havana foram inúmeras as emoções. Conhecer a imensa e centenária Catedral repleta de antigas e monumentais obras de arte. Conhecer os mais variados sons das mais variadas melodias em cada canto, em cada esquina, em cada praça, em cada parque.
            E num passeio matinal por Habana Vieja, repentinamente, me deparo com outra antiga Igreja, a Igreja de São Francisco. Na praça que a rodeia vejo a estátua de um monge, de um frei. Aproximo-me. E leio a inscrição nela gravada: Frai Junipero Serra. Nascido na Ilha de Majorca, Espanha. Morto em San Diego, Califórnia, Estados Unidos.
            Então ele era real. Frei Junipero Serra era real. Não apenas um personagem das ficções do escritor J. Mallorqui inserido nas aventuras de “O Coiote”.
            “O Coiote”, uma série que deveria ser interminável. Uma série em livros de bolso que contava as histórias de um defensor que procuramos em todos os dias para nos defender de todas as injustiças.

            E eu lá o imaginava, montado em seu corcel negro, com sua vestimenta negra, com a negra máscara cobrindo-lhe os olhos e com o também negro chapéu de abas largas, em galope acelerado nas ardentes areias ou em meio às palmeiras da beira d’água indo atender a mais um pedido de Frei Junípero, enquanto as ondas do mar e os verdejantes ramos continuavam sussurrando suas juras de amor.

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