mardi 10 février 2015

BERLIM 7

 Rui Martins

Berlim, filme guatemalteco se impõe

Para começar, como se poderia definir o filme Ixcanul ou Vulcão, de Jayro Bustamante: é um filme latinoamericano ou filme ameríndio dos descendentes do povo maia? A questão é pertinente porque o filme, embora da Guatemala, não é falado em espanhol mas em caqchiquel, do ramo quicheano-mameano das línguas maias. Mas sem problema para a crítica, o filme era legendado em inglês e alemão.

No seu terceiro dia, este 65.Festival Internacional de Cinema de Berlim vai sendo uma sucessão de bons filmes e, o filme guatemalteco ou maia provocou aplausos entusiasmados e se colocou na lista, já um tanto longa, de prováveis premiados. Ao contrário de realizadores que se perdem na etnografia ou antropologia ao fazerem um filme sobre uma região ou comunidade, Jayro Bustamante construiu uma história,  baseado em relatos contados por um povoado guatemalteco situado ao pé de um vulcão.

Não se trata de um filme político, a pobreza da região faz parte do cenário montanhoso e das plantações café, na terra fértil das lavas transformadas do vulcão e nas víboras venenosas ali numerosas. No povoado de tudo desprovido, se perpetuam as tradições do povo maia, na própria religião e crendices misturadas com o catolicismo. Uma delas é o casamento arranjado. Assim, Maria uma jovem mestiça filha de agricultores deverá se casar com o proprietário das terras onde trabalham seus pais.

Porém, Maria, vivida pela habitante local Maria Mercedes Coroy, nos seus 17 anos, quer saber o que existe além da montanha vulcânica. Assim, se aproxima de Pepe, um jovem beberrão e mau agricultor, desejoso de partir, atravessar o México e entrar no país de sonho dos latinos, os Estados Unidos. Para poder partir com Pepe, a jovem fogosa Maria, aceita ceder aos seus desejos, porém é deixada para trás e, logo constata ter ficado grávida, criando a impossibilidade do casamento com o patrao de seus pais, que se sentem obrigados a abandonar o local.

O filme poderia terminar aí, porém, segundo as crenças da mãe e de uma feiticeira local, mulher grávida afugenta cobras, porém ao testar a crendice, Maria é picada e corre o risco de morrer. Levada em urgência numa camionete ao hospital não morre, mas aborta e perde o bebê.

Como não lhe deixam ver o bebê na hora do enterro, ela vai ao cemitério e desenterra o caixão que na verdade não tem nenhum bebê. A criança fora vendida pelos enfermeiros do hospital.

Jayro Bustamante que viveu a infância na região, quis dar autenticidade local e passou meses pesquisando a cultura maia, porém não desejava fazer um documentário. O ritmo e as tomadas são preciosas a tal ponto que há críticos apostando num prêmio ao filme, quem sabe até o Urso de Ouro, seria coisa inédita para os descendentes da cultura maia.


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