lundi 9 février 2015

50 VELAS AMARELAS


                                                                       (eleaesse) Luiz Alberto dos Santos

                                            (Condensado do conto A Borboleta Branca)
                                                                                                                                                          



“Esta vila de casas, aqui em Maceió, lembra muito, a vila que a gente morou, em Bangu, lá no Rio de Janeiro. As mesmas cinco casas. Uma maior nos fundos e duas de cada lado do terreno. Até o portão meio enferrujado, é igual... A única diferença é que nestas daqui, em todas tem um banheiro. Acho que havia muito dinheiro naqueles envelopes. Senão minha boa mãe não teria comprado toda a vila. Outubro de 1967.”

“E, é alta e loura, a senhora com enormes óculos de grau, que veio receber a gente na rodoviária simples de Maceió. Muito educada e simples também, a senhora de óculos gentilmente nos acompanhou de ônibus até um lugar chamado Jacarecica. A rua ainda não tinha asfalto, mas a vila era limpa era muito acolhedora. E, segundo a moça de óculos, as residências só estavam vazias porque não era ainda de fato o verão. O verão de Maceió é quente e muito bonito. Depois a moça apontou para casa nos fundos do terreno, que era a maior e tinha dois quartos. Eu até acho que ela morava nesta casa, porque a gente já pegou toda mobilhada. Tinha até geladeira e rádio. E a gentil moça disse que, todo o tempo que minha mãe quisesse ficar na casa, poderia dormir tranqüila, que o aluguel seria pago por umas pessoas que ainda estavam no Rio de Janeiro. Apontou para um mercadinho que ficava do outro lado da rua e falou que a minha mãe pegasse lá o que precisasse. Também era com o pessoal  do Rio. Ah, quanto a escola, a gente ia ter que esperar o restinho do ano passar. Mas que a nossa vaga tava garantida assim que março chegasse. Aí minha mãe quis saber se ela pensava em vender a casa que a gente ia morar. A moça retirou os óculos e afirmou que ela não era a dona, mas ouvira falar que o proprietário pensava sim, em negociar. Só tinha um detalhe: o homem só faria negócio, se fosse a vila toda. Minha boa mãe pensou um pouco. Depois pediu pra moça avisar ao dono. Que ele  viesse logo amanhã bem cedo, pra conversar com ela. Setembro de 1967.”

“Maceió. Alagoas. Não foi coisa de outro mundo, a nossa adaptação a esse novo mundo. Casa, comida e escola, a gente tinha e o pessoal daqui nos trata muito bem. Só ri de vez em quando, do nosso jeito de falar. Mas depois a gente vai estar falando tudo igual a eles. A gentil moça de óculos aparece de vez em quando e pergunta se a gente precisa de alguma coisa. Depois, nunca mais nós a veremos. Quando no rádio dá alguma notícia em que aparecem as palavras: COMUNISTA, TRABALHADOR, TORTURA, GOVERNO, DITADURA, EXÉRCITO, REVOLUÇÃO, PRESOS... Minha mãe larga o que está fazendo, dispara e desliga o aparelho, só faltando quebrar o botão .Fevereiro de 1968.”



Besteira. Babaquice, eu, sentado no vaso sanitário, fumando um cigarrinho e... me cagando, tentando explicar pro intestino, que eu ainda estou me acostumando com peixe, coentro e leite de coco. Ah, e esses pensamentos de merda. Fedem mais que a que cai no vaso. 1.967... Eu ia fazer dez aninhos. Porra, isso foi há tanto tempo!... Já era pra eu tomar vergonha na puta da cara e esquecer, ou pelo menos desviar peste de lembrança ruim!  Ôche, o tempo passou! Tudo passa! Se coisa boa passa... Coisa ruim, também tem que passar! Õche!... E eu já sou um senhor, tio de quatro; padrinho de dois; trabalho, ganho bem... Pra quê tanta merda de lembrança, pensamento que só faz magoar o cérebro e a merda do coração!?...
Ainda vai dar sete da manhã e fui o primeiro a chegar na Revendedora Maceió. Eu vendo carros. Mas merda de Kombi, eu não vendo não.
Lembranças. Episódios que estão lá longe. Lembranças. Deve ser por causa do meu aniversário, que é amanhã, 01de maio de 2.007. Quando a gente chega a certa idade e faz (mais um) aniversário dana a recolher lembranças lá da casa do cacete. Ainda mais, quando se completa 50 velas. Eu costumo (costumava) dar murros terríveis num lado da minha cabeça, sempre que certas recordações cismam com a minha cara. Parei com isso: além de ficar com dor de cabeça o dia todo, as merdas das lembranças continuam ainda por dois, três dias. Apesar de que, nesses últimos quarenta anos, um denso nevoeiro amarelo, pouco a pouco se apossou do meu também amarelo cérebro. É isso. A névoa camufla. Pra ser sincero, acho que eu sempre quis que assim o fosse. Viver dentro dum amarelo nevoeiro. Coisa de covarde, filha-da-puta. Coisa de homem lambão. Meu bom pai ficaria bem puto, por ter um filho assim. Lambão.
Sim, é amanhã, o dia do meu aniversário. Cinqüentão. Reconheço que já sou um senhor. Reconheço também, sem truque e sem traumas, que gostaria muito de ter um pouquinho menos de anos sobre as costas. Uns vinte aninhos a menos estava bom demais. Não, não que eu tenha ou mantenha o mínimo de saudade, gosto ou nostalgia, por qualquer época da minha amarela existência. Como já disse, eu até espanto, dando murros terríveis na cabeça (não faço mais) qualquer lembrança ou espectro idiota que me apareça pela frente, lembrando lá atrás.
 E, por favor: quando eu afirmo que gostaria de ter vinte anos a menos, isso não quer –por favor– absolutamente mostrar, expor fiapos de saudade ou nostalgia. Certos tipos de sentimentos ficaram para sempre retidos nas finas solas dos meus pés. E os pés ficam bem longe da cabeça. Devo porém admitir que, por uma simples questão estética-plástica-física-egoísta-ingênua, ando ultimamente arengando com o Senhor do Tempo. Não quero, não tolero a pegajosa paixão que esse senhor tem pelos cidadãos cinquentões. Paixão miserável, essa!  Não, não vejo qual a necessidade da visita quase que diária desse abominável Senhor do Tempo, que nunca volta sem deixar uma marca ou um carimbo. Sim, são essas marcas, que eu vou morrer contestando. Começa pelos cabelos, cada dia mais sem cor e sendo levados aos montes por qualquer ventinho besta que passa. Os dentes?!... Ah, pobres dentes, pedindo, com dores, urgente substituição. Alguns até chegam a cair em campo. Outros, o dentista-juiz os expulsou. Ah, meus pulmões, tão infláveis em outros tempos, hoje já não agüentam mais que quinze ou vinte cigarrinhos. E eu sempre gostei de duas carteiras-dia. O fígado? Se transformou num grande vacilão e se assusta,  até faz dengo, na quarta ou quinta dose. Boca amarga. No dia seguinte, chá de casca de alho. Uma tristeza. Mas, o pior de tudo, o mais doloroso de tudo, sãos os pentelhos embranquecidos, invadindo sem pena e sem dó, o meu peito e o saco. Sim, os culhões. Dois pendurados ovos, com tristes fiapos embranquecidos. Feio pra caralho. Eu, que ficava na frente dum espelho, só admirando meus dois ovões, cheios de veias roxas... E sem porra de fiapo branco... Uma tristeza. Dá pra deprimir qualquer cristão. Caso, caso eu me sujeitasse a tingir os cabelos, os primeiros a terem suas cores restituídas seriam os pelos do tórax e os dos culhões. Ah, e por falar em culhões, pode ser até impressão minha, mas, de uns tempos pra cá eu tenho sentido um relevante aumento de peso nos ditos cujos. Pelos menos uns quinhentos gramas. Em todos dois. Dizem que é uma doença que dá no saco dos cinqüentões. O nome é chumbose. É, o saco vira chumbo.
Um brincalhão, esse Senhor do Tempo, que, em vez de ficar de sacanagem comigo, deveria, isto sim, era me emprestar um ferro bem quente, para eu passar na testa e principalmente em redor dos olhos. Usar óculos de sol é bom. Mas quando não os quebro, acabo perdendo os danados. Toda semana é um novo no camelô.
E, logo após meu aniversário, é o aniversário da passagem de minha mãe para um mundo supostamente melhor. Falta, muita falta eu sinto da presença quase silenciosa da minha mãezinha. Meus irmãos que perdoem, mas ninguém, ninguém sente mais sua falta, que este senhor aqui. Talvez por ser o filho mais velho, minha mãe, na falta do marido-irmão-companheiro, me tomou como absoluta referência a suas dores e amores familiares. Amores arrancados. Minha mãezinha, talvez desejando, precisando de diferentes tipos de apoio, afeto e consolo... E eu, um ser amarelo, um lambão, não tive, não soube como ajudá-la. Não soube ajeitá-la. Me perdoa, mãe!... A senhora me perdoa?...
  Perdoa, o quanto custei a entender e a me acostumar com suas generosas doses de afeto e impaciência. Tudo ao mesmo tempo. Perdoa, minha mãezinha!...
Oh!... Pra quem não sabe, minha boa mãezinha, ainda nova, ficou viúva. Viúva dum operário. E mãe de cinco filhos. Cinco moleques com idades entre três e nove anos. Eu, era o que tinha nove anos. Mas, minha mãe não queria isso, não. Porém, segundo costume da época, toda boa esposa tinha o dever de ser companheira. Companheira.
Ah, pra quem não sabe, meu bom pai era um recém demitido da Rede Ferroviária que, por capricho de Deus, ou do Outro, foi cair, se enganchar, bem no meio dum MR. Pra quem não sabe, MR que dizer: Movimento Reto. Isso foi no final dos anos 60, bem no meio do tolete de merda eclodido por uma tal de ditadura militar. Foi um rio que passou na pacata vida do meu bom pai e ele foi na enxurrada. Para sempre.
E, foi a dita enxurrada que nos deportou (mãe e filhos) do Rio de Janeiro para Maceió, com passagem só de ida, é claro. Sumir, desparecer, enquanto dava tempo.
Ah, minha boa mãe... Perdoa. Perdoa a todos! Inclusive a enxurrada. Maceió é uma cidade bonita e nos recebeu muito bem. Mas, pra uma deportada mãe, com cinco embaixo da saia... Até se acostumar... Tentar “esquecer”... Não, não é mole não. Alagoas. Pior que, nem o velho Graciliano estava mais... Pelos menos me dar um cigarrinho e pra nos mostrar a cidade, sua terra. Ah, Graciliano odiava covardias.
Porra de recordações. Lembranças. Mãe?... Você tá aí, mãe?...  Mãe, se você tá aí, me ajuda, ajuda a não lembrar tanto!...
Mãe... E, meu carma mesquinho ou minha sina vulgar, permitiram que, num bonito domingo de sol alagoano, logo após o almoço, eu a encontrasse, sentadinha na sua cadeira de balanço, completamente liberta de sua existência física. Ainda quente e com os olhos muito abertos, segurando nas mãos os dois carnês do Baú da Felicidade e na televisão o Silvio perguntava “quem quer dinheirôô?” Puxei a outra cadeira de balanço e ficamos ali, o resto da tarde, de frente para o outro, nos olhando com ternura indescritível. Sim, liguei o ventilador só pra nós dois e vez em quando eu balançava as duas cadeiras. Nós dois, pra lá e pra cá, a hélices girando e nós balançando. Até o tempo parar. Até os pensamentos me consumirem. Porra, nunca dei tanto murro na cabeça. Depois, quando meus irmãos e cunhados, chegaram à tardinha da praia, eu saí da casa, e, aparentemente calmo, fumando um cigarrinho, soltei a notícia infame: “Gente, nossa mãe morreu”.  Enquanto, aos gritos, todos dispararam na direção do quarto de minha mãezinha, eu acendia mais um cigarrinho. Mas eu não estava nervoso, não. Não, não estava.  Apenas amarelo. E, eu mesmo me escolhi para ir à funerária e cuidar de tudo. Tem gente que pede pra gente escolher um caixão bem bonito. Porra, caixão, existe bonito?!... Mas eu fui e escolhi. Filho mais velho, é pra isso.
            Todos os meus irmãos casaram. Tenho poucos sobrinhos. Alertei a esses meus irmãos, de que residíamos na parte nobre de Maceió, portanto não havia necessidade deles terem cinco ou seis filhos, cada um. Sou o irmão mais velho e eles concordaram. Anos mais tarde, andando por um lugar chamado Vergel, próximo ao centro de Maceió, eu mostrei a esses meus irmãos e cunhadas, as condições em que aquele povo vivia e o absurdo número de crianças nas portas dos barracos. Todos sem feijão, arroz e mortadela... e kisuco. E nem uma comunista Dona Laura, pra chegar pelo menos no Natal.
Três dos meus bons irmãos preferiram não morar na vila. Construíram suas casinhas em outros bairros. Na época, minha mãe reclamou muito. Disse que havia comprado uma vila com cinco casas; era pra gente ficar tudo junto. Não teve jeito: dois moram na Serraria, o outro no Farol. Também são bairros bons e não ficam assim tão longe de Jacarecica. Na vila, ficou meu irmão mais novo, que ocupa a casa maior. Nas outras, moram eu e mais três casais sem filhos, que pagam em dia o aluguel.
Todos casaram. Aos domingos, sempre nos reunimos e vamos pra Paripoeira, que, além da praia linda, o mar tem paciência com a molecada.
Sim, todos casaram. Fiquei eu, com o título e a coroa de tio. Às vezes, quando o assunto é matrimônio, e eu não consigo fugir, me esquivar, eles gentilmente me recriminam por não manter uma companhia “certa”, e insistir em abrigar em casa, por curtíssimas temporadas, moças de todos os tipos, cores e vergonhas. Reclamam que meus sobrinhos confundem e trocam o nome da última pela penúltima. “Já passou da hora de você casar!” “Tanta moça boa, nessa cidade!...” Inclusive teve uma dessas moças-boas que, assim que eu a apresentei, a danada caiu nas graças de todos: irmão, cunhada, sobrinho-afilhado... Uma morena meiga e educada, que é gerente na Caixa Econômica. Não durou seis meses. Ela chegava pra me visitar e eu trancado no quarto, com um monte de folhas manuscritas espalhadas por todos os lugares. Ai dela, se tocasse numa daquelas folhas! Um dia ela pediu só pra olhar e eu, ríspido, disse que depois mostrava. E as vezes mal a cumprimentava. Nem um beijo!... Voltava para os papéis e só saía na hora do Jornal Nacional. Qual mulher resiste a um animal assim? O pior é que, no início do namoro, empolgado, eu sou o mais romântico dos homens, talvez o amante que toda mulher deseja. Porém, pouco tempo depois... E, na realidade, são poucas as mulheres que se sujeitam a conviver com um amarelo pintor de Bandeiras. Um amarelo contador de histórias. Sim, um contador de histórias. Muitas já me disseram que são todos uns covardes e não merecem confiança.
Calma, aí. Também tenho cá as minhas compensações. O paciente papel de tio-padrinho-solteirão, exerço com muita atenção e carinho, e as vezes até exagero. Vezes e mais vezes pego o carro do meu irmão e saio de casa em casa, catando a molecada. Praia, pesque-e-pague, shoping... Meu bolso reclama, mas eles adoram. Falem de todo mundo, menos desse tio-padrinho-abestado, que eles se transformam num MR. Sim, me defendem com unhas e dentes. Talvez, até com metralhadoras e bombas. Soube que, durante todo ano, fizeram feroz economia. Nem foram assistir ao Homem Aranha 2 !... Parece que amanhã, depois de apagar as cinqüenta (argh!) velinhas, vou ganhar um computador novinho em folha. Aí, é que eu não caso mesmo.
Calma aí. Também não sou aquele tipo que só dá trabalho à família. Posso até ser um amarelo, mas preguiçoso, não. E, por falar em trabalho, todo mês ganho o prêmio de melhor vendedor na revendedora de automóveis, dos meus irmãos. Pagamos uma pequena multa a fábrica, mas não admitimos nenhum modelo de Kombi em nosso estacionamento. Mesmo que seja de outra cor. A Borboleta Branca foi apenas uma. Única! Única! E voou para sempre.
 Voou. Sim, toda estragada pelos tiros de metralhadora, a Borboleta não resistiu. Um veículo, uma kombi branca, que meu bom pai chamava de “borboleta”. Por estarem sempre juntos e ser companheira de fato, a borboleta kombi levou, também todo furado, o subversivo Dr. Marcelo. Junto ao Dr. Marcelo, foi-se um operário, pai de cinco, que nem sabia que Moskow não era Brasília. E que Brasília tava por fora, longe pra caralho do Brasil. Porra, meu bom pai tava apenas dirigindo a tal Kombi!  Nem de arma, ele gostava! A comunista Dona Laura, quem levou foi a Polícia do Exército, bem na saída da rodoviária de Campos−RJ.  Foi Dona Laura, quem embarcou a viúva e os cinco  moleques, de Campos para Maceió. Quando ela tava saindo da bendita rodoviária de Campos...  Dona Laura? Também foi de metralhadora. Pegou bem no olho. Esquerdo.  Ah, porra de pensamentos.
Epa! Oito horas. Presta atenção, cagão. Hora de limpar a bunda, levantar a calça, o espírito e as portas da frente.  Começar a atender a clientela. Revendedora Maceió. Mais uma vez, vou ter que alertar:
−Senhor, por favor... Já disse que não trabalhamos com Kombi! Não, muito menos, branca!



                                      FIM

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