mardi 13 janvier 2015

Um fim de ano na praia


Em um dia longínquo de estudante em país estrangeiro, por acaso deparei-me com um verso do poeta Walt Whitman, dizendo simplesmente, “estar com aqueles a quem amo é suficiente para mim”. Parei naquela leitura refletindo sobre a verdade nela contida. Tempos depois, lendo o grande escritor francês do século 17, La Bruyère, dei de novo com a mesma frase. Aliás, La Bruyère deixou um monte de verdades escritas em seu livro, “Les Caractères”. Desde então, “to be with those I love is enough” ou “être avec ceux que j’aime est suffisant” passou a ser um de meus motes prediletos.
Em termos práticos, o problema é, justamente, conseguir estar com as pessoas que amamos, principalmente quando as temos em profusão. Então, precisamos organizar o nosso tempo, cuidadosamente, de modo que possamos sempre usufruir da companhia delas. Outro problema, mais grave ainda, é descobrir quem de fato são nossas pessoas amadas, às quais queremos dedicar um pouco de nosso tempo. Muitas vezes, pelas razões mais estranhas, acontece de alocarmos tempo a quem não merece.
Uma vez, aconteceu-me de ser convidada por pessoas que amo infinitamente, para celebrar com elas as festas de fim de ano. Aceitei sem pestanejar, pois além da companhia agradável, havia a magia do local – uma linda praia no litoral sul deste imenso país que é o nosso. E lá fui eu de malas e bagagem para a praia comemorar com pessoas que me eram caras a natividade do filho de Deus e a virada do ano velho para o novo.
Ao chegar, vi logo que minhas pessoas queridas não eram só minhas, coisa muito natural. E que eu teria de confraternizar com pessoas que eu apenas conhecia. Elas estavam lá e, como eu, eram queridas dos anfitriões. Pensei, filosoficamente, na relatividade da vida, das coisas, e decidi que o melhor seria enturmar-me e aproveitar aqueles momentos únicos dos últimos dias de um ano que se estava esvaindo. Além do mais, o tempo estava lindo e as pessoas pareciam interessantes. Assim o fiz!
Diante da imensidão do Oceano Atlântico e olhando a linha do horizonte confundir-se com o mar, refleti sobre a pequenez física do ser humano. E aquelas famosas perguntas que ouvimos do professor de filosofia no primeiro dia de aula, “Quem somos nós? De onde vimos? Para onde vamos?” vieram à baila. E a matutar sobre elas, horas foram passadas na sacada do apartamento de frente para o mar.
Foi, então, que uma velhinha, integrante do grupamento até então heterogêneo, se aproximou e começou a conversar. Mais consigo mesmo ou com interlocutor imaginário do que com alguém mais. Com aquele jeito de pessoa de idade avançada, acostumada ao descaso dos mais jovens, ela fazia perguntas e as respondia hesitante, como que esperando que outra pessoa entrasse na conversa. Mas, nada! Não que não houvesse outras pessoas ao redor. Havia muitas, porém todas ocupadas com seus próprios destinos. Então, comecei a entrar na dela, e, de repente, a conversa se tornou tão interessante que sem nos darmos conta o grupo aumentou tanto que não havia mais assentos suficientes, sendo o chão uma opção plausível. Eram adultos, jovens, crianças, todos a ouvirem da boca da anciã, entre outros assuntos, como era lindo e aprazível aquele lugar anos e anos atrás.
Evidentemente, os mal entendidos aconteceram, com falhas de comunicação provocadas pelos ouvidos já desgastados da anciã. Inúmeras vezes ela confundiu as perguntas que se faziam causando situações hilariantes. Mas nada disso desestimulou os seus relatos. Nem os ouvintes atentos às boas histórias se entediaram.
Foi um prazer perceber que mesmo os jovens passaram a se interessar pela fala da velhinha. Muitas vezes essas conversas eram solilóquios talvez pouco evidentes ao ouvinte menos avisado. Mas, o importante é que aquela criatura tão vivida teve a oportunidade de exteriorizar suas idéias, de se fazer ouvir, não permanecendo no casulo a que a idade geralmente condena as pessoas.
A conclusão dessa temporada na praia em mais uma virada de ano foi surpreendentemente simples e coerente com o espírito de solidariedade humana que a própria época pregava. Parece que todos compreenderam que o ser humano seja jovem ou velho é ávido de atenção, e que não custa muito lhe dar o que pede. O grupo antes heterogêneo ao final da temporada se tornou coeso. Pessoas que antes eram apenas conhecidas passaram a ter um elo forte de amizade e de carinho. Senti que o verso de Walt Whitman e o pensamento de La Bruyère foram enriquecidos. 
Marluce Portugaels
Professora



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