lundi 21 juillet 2014

Lançamento do livro de Plinio Camillo

Lançamento: Coração Peludo


O escritor Plínio Camillo lança o seu mais novo livro, a coletânea de contos “Coração Peludo”.
Dia: quarta-feira, 23 de julho de 2014.
Horário: 19 às 21h30
Local: Casa das Rosas - Avenida. Paulista, 37 - Bela Vista - São Paulo
Custo: R$ 35,00 (trinta e cinco reais; no evento, pagamento somente com dinheiro ou cheque)

Edição Original: 2014
ISBN: 978-85-66179-59-0
Editora Kazuá – www.editorakazua.com.br
Palavras certeiras
Nesta obra, Plínio Camillo descreve situações marcantes em formas curtas. Seu protagonista (cujo nome não nos é revelado) compartilha com o leitor momentos diversos e decisivos da sua experiência de vida, tão surpreendente quanto a linguagem do escritor. Em poucas, mas certeiras palavras, Camillo dá o tom das circunstâncias, descreve personagens e conclui as passagens que seu narrador escolhe para relatar.
A escrita do autor é povoada de citações que definem diferentes épocas. São bordões de publicidade, desenhos animados e trechos de música que ficaram na memória popular e dos quais Camillo se apropria concedendo personalidade ao texto. Sua narrativa se inscreve numa estética de escrita naturalista, com recursos para contextualizar as vivências de seu personagem crível justamente por ser humanamente contraditório. Como bem descreve seu prefaciador, o escritor e jornalista Gláuber Soares: “Numa época em que boa parte da literatura brasileira se encontra asséptica, indevidamente pasteurizada, Plínio Camillo rasga o peito do seu personagem principal, fio condutor entre todos os contos”. E complementa: “Sem pudor e, sobretudo, sem desperdiçar palavras com descrições enfadonhas ou explicações desnecessárias, o autor, no vigor do seu estilo, parece ter encontrado um antídoto contra a chatice”.


Vai começar o Festival de Locarno

LOCARNO - MARCANTE A PRESENÇA BRASILEIRA


Com três filmes em competições internacionais e dois membros no júri, é marcante a presença da cinematografia brasileira no 67. Festival Internacional de Cinema de Locarno, do 6 ao 16 de agosto, na Suíça.
Ventos de Agosto, do pernambucano Gabriel Mascaro, 31 anos, estreará em Locarno e está entre os 17 filmes da competição internacional, cujo prêmio maior é o Leopardo de Ouro. Esse é o quarto filme do cineasta, cuja carreira começou com o documentário Um Lugar ao Sol, seguindo-se os longa-metragens Avenida Brasília Formosa e Doméstica.
Síntese do filme - Shirley deixou a cidade grande para viver em uma pequena e pacata vila litorânea cuidando de sua avó. Ela trabalha numa plantação de coco dirigindo trator. Mesmo isolada, cultiva o gosto pelo punk rock e o sonho de ser tatuadora. Ela está de caso com Jeison, um rapaz que também trabalha na fazenda de cocos e nas horas vagas faz pesca subaquática de lagosta e polvo. Um estranho pesquisador chega na Vila para registrar o som dos ventos alísios que emanam da Zona de Convergência Intertropical. O mês de agosto marca a chegada das tempestades e das altas marés. Os ventos crescentes marcarão os próximos dias da pequena vila colocando Shirley e Jeison numa jornada sobre perda e memória, a vida e a morte, o vento e o mar.
Los Enemigos del Dolor é uma coprodução uruguaia-brasileira-alemã, dirigida pelo cineasta uruguaio Arauco Hernandes. Está na competição Cineastas do Presente e estréia em Locarno.
O Bom Comportamento, curta-metragem de Eva Randolph, está na competição internacional da mostra paralela Leopardos de Amanhã. Premiada no Brasil por seu curta-metragem Menino Peixe, Eva Randolph já esteve em Locarno, em 2008, quando ganhou o prêmio Pardino de Oro (Leopardinho de Ouro) premiação máxima pelo curta Dez Elefantes.
Na mostra Sinais de Vida, para autores emergentes, está o longa-metragem Com os Punhos Cerrados, de Pedro Diógenes, Ricardo e Luiz Pretti, é a história de uma rádio clandestina que prega a revolução contra a sociedade capitalista. Foi todo filmado em Fortaleza, Beberibe e Morro Branco, no Ceará, e muitas cenas lembram a perseguição dos militares aos resistentes à ditadura brasileira. Com os Punhos Cerrados é o quarto longa.metragem do trio Pedro Diógenes, Ricardo e Luiz Pretti, e com esse gesto quer demonstrar uma história também de solidariedade política.
Convidado mas sem participar de competição, estará o filme Poder dos Afetos, de Helena Ignez, com Ney Matogrosso. Na mostra História do Cinema, será exibido o clássico filme de Rogério Sganzerla, Copacabana Mon Amour, feito em 1970.
Todos os filmes brasileiros selecionados para o Festival Internacional de Cinema de Locarno contam com o apoio da Ancine, Agência Nacional de Cinema.
A participação brasileira no Festival de Locarno inclui ainda dos membros de júris: a atriz Alice Braga (Cidade de Deus e Cidade Baixa) fará parte do júri da competição internacional; e o cineasta Helvécio Marins Jr. participará do júri dos Cineastas do Amanhã. Ambos levarão a Locarno os filmes Latitudes, de Felipe Braga, e Girimunho, dirigido por Helvécio com Clarissa Campolina para serem exibidos em sessões especiais.

Paralelamente, o Cinema do Brasil com Ancine em colaboração com órgãos suíços de cultura levarão, dentro do programa Industry Days, exibirão sete filmes brasileiros em pós-produção, entre os quais um será premiado por um júri de produtores e distribuidores.

NÃO É UM POEMA


NÃO, NÃO É UM  POEMA
(...) “Você pode me fuzilar com palavras/E me retalhar com o seu olhar/Pode me matar com o seu ódio/Ainda assim, como o ar, vou me levantar”.
Maya  Angelou ( (1928-2014)
EMANUEL MEDEIROS VIEIRA
Vivemos sobre camadas soterradas pela urgência. 
Ansiedade:    nossa vida virou mercadoria.
Não, nada digo de novo.
Tudo é descartável – e estamos submetidos ao lixo eletrônico.
(Não, não é só porcaria.)
A virtualidade seria (também) um álibi para compensar o “ilhamento”, a falta de contato real?
O que valem os outros?
(Amizade, toque, longe da obsessão de aparecer, de ser celebridade.)
Tudo vale só um instante.
Tudo se dissolve.
Redes sociais, dogmatismo, carência de debates adultos,  e  a demonização do outro – se discorda das nossas ideias.
Prevalece a intolerância.
É o hiperindividualismo veloz.
Quem realmente lê, longe das engenhocas eletrônicas.
Tenho me repetido? Sim. É para ser escutado.
Vai parecer pieguice (paciência): parece triunfante o desinteresse completo pelo outro.
Se alguém falar em compaixão, poderá ser ridicularizado.
Repito: compaixão: não piedade.
Tudo parece ser hierarquizado pelo pior.
É claro, estamos sentados num mercado consumidor.
Que não consome, não é nada.
É preciso de rebanhos cada vez maiores.  É subliminar.
Nada de dissidência.
Não é preciso mais de choque elétrico, tortura e exílio.
O exílio é aqui mesmo.
Pessimismo?
Quem sabe: é possível fazer algo.
Mas é preciso pensar, longe dos fundamentalismos.
Alguém se lembrará de nós?
Isso também não importa: não estaremos mais aqui.
Mesmo se alguém lembrar, isso não nos atingirá mais.
Filosofia de botequim? Também.
Mas é preciso que cada dia seja abençoado.
Resistir? Sim.  É um lugar-comum. É. E continuar – pássaros, mar, amigos, um café quente, um gosto de partilha, este domingo com pássaros cantando, e céu azul.

(Brasília, junho de 2014)

Crônica da Urda

O GUETO DE GAZA




                                   Eu me lembro com intensa nitidez dos profundos olhos aveludados e escuros daqueles homens, daquelas moças. Passei a conhecê-los nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre – costumava chegar quase na hora do começo da passeata de abertura, e quando meus amigos me perguntavam:
                                   - Vamos todos juntos?
                                   Eu não titubeava:
                                   - A gente se encontra depois. Vou junto com quem tiver mais necessidade de apoio. Vou ver se encontro o pessoal do Iraque, ou da Palestina...
                                   Sempre encontrava o da Palestina. Eram homens de profundos olhos inteligentes e sofridos; eram moças com olhos iguais, algumas vestidas como certas figuras bíblicas femininas que pintores do Renascimento pintaram, e sempre com tamanha fé na Justiça! Vinham em poucas pessoas lá do seu mundo distante e garroteado, poderiam sumir no meio de multidões de 100.000 pessoas com as suas humildes “hattas”[1][1], mas eram eles os mais visíveis, porque as pessoas que se abalavam até os Fóruns Sociais Mundiais bem sabiam da realidade torturante daqueles irmãos. Na primeira vez que desfilei com eles decerto pareci-lhes estranha – não falávamos uma palavra sequer um da língua do outro, mas já lá no final, chegando ao anfiteatro do Pôr-do-Sol (quanta saudade!), alguém serviu de intérprete e contou para um dos palestinos que eu perdera um emprego por defender a Palestina. O homem de profundos olhos de veludo deu uma risada contagiante, e respondeu algo que também me foi traduzido: ele também perdera o emprego por ser palestino! Nosso simpático contato sem palavras começou ali.
                                   Em outras ocasiões em que nos encontramos eles já me recebiam calorosamente com seus olhos que tudo expressavam, e que tinham uma ternura aveludada que poderia adoçar o mundo.
                                   Depois que os Fóruns Sociais Mundiais saíram de Porto Alegre e foram para outros países, passamos a ter uma palavra de contato: quando nos encontrávamos, sempre primeiro na passeata de abertura, apontávamos uns para os outros e dizíamos: “Porto Alegre!”, palavra chave que, aliada aos olhos profundos e misteriosos deles, significava todo um caloroso discurso. E nos abraçávamos como irmãos que somos (ou eram? Estarão vivos?), e na passeata de Caracas/Venezuela, um dos homens mais velhos tirou da sua mochila uma belíssima bandeira da Palestina em seda verde, vermelha branca e preta, e me deu. Sorrimos um para o outro e dissemos a palavra mágica:
                                   - Porto Alegre! - e eu guardo com imenso carinho aquela bandeira de seda assim como a recebi, talvez ainda trazendo entretecido nos seus fios finos esporos ou pólen de plantas ou de outras formas de vida daquela distante Palestina onde provavelmente não poderei ir no decorrer da minha vida, pois envelheço, e o gueto que é a Faixa de Gaza está cada vez mais inacessível, e a mágoa da minha desesperança me faz pensar muito na solução final[2][2] dada ao Gueto de Varsóvia...[3][3]
                                   Vejo as notícias e as fotos na Internet, e sei de tantas coisas, faz tanto tempo! Sei como os meus irmãos da Palestina tem que suportar o cheiro nauseabundo do lixo em decomposição, pois o Estado de Israel não deixa sequer que de lá se retire o lixo... e sei das crianças palestinas que são feridas por obuses lançados por tanques enquanto brincam, e que morrem de hemorragia nos portões do seu gueto porque insensíveis membros do exército israelense dizem que só dali a tantas horas tal portão poderá ser aberto, para a criança chegar a um hospital... e sei de detalhes que me deixam com vergonha por ser chamada de humana, pois um exército a serviço de também ditos humanos sionistas faz coisas que quase não são críveis, como derrubar um edifício inteirinho para matar um único homem a quem perseguem, e que sabem que está escondido no poço do elevador... ou esse mesmo exército lançar um míssel sobre uma inocente festa de casamento, ou sobre uma formatura de guardas de trânsito... 
                                   Mil páginas seriam poucas para enumerar todos os horrores que sei, que tenho lido, tenho sabido, tenho aprendido sobre o que o governo de Israel faz com o Gueto de Gaza sob os olhos de todo o mundo, como se ninguém se importasse. O espaço, aqui, não permite entrar nas causas históricas dos acontecimentos, mas é bom aprender a respeito, para se entender que Israel não tem razão, que os horrores que vêm desde a década de 1940 são dos mais abjetos da humanidade. O que me horroriza ainda mais, neste momento, são as fotos que não param de chegar de Gaza, de crianças carregadas nos braços dos pais, sem os pés e parte das pernas, com tendões e nervos que sobraram retorcidos como se fossem molas de metal, ou das fileiras de meninos e meninas nos seus trajes de frio, mortinhos, prontos para o funeral, e das caras sem consolo dos pais que ali estão, ou daquele menininho morto e ensangüentado, que o pai carrega no colo embrulhado na bandeira, bandeira igual àquela que tenho, menininho que nunca terá nos olhos aquela força forte como aço e suave como veludo e que nunca entenderá a palavra “Porto Alegre” – de novo digo que mil páginas seriam poucas para contar sobre cada foto, cada fato, cada texto e cada análise que tenho lido – um último fio que me une à esperança é a existência daquela gente de Israel que se nega ao crime, daqueles soldados israelenses que preferem a prisão do que ir assassinar seus irmãos já quase mortos de fome, frio e sede no gueto vizinho – pois Gaza hoje tem 1.500.000 habitantes trancafiados sem recursos numa área de 350 quilômetros quadrados, o que é mais ou menos a metade do tamanho desta minha pequena cidade de Blumenau...
                                   Não há como dizer “enfim”, para um texto como este. A dor e a mágoa por se saber que tais injustiças continuam acontecendo diante do mundo é uma coisa que poderia me matar de angústia, e então tenho que reagir escrevendo, que é o meu jeito de ser – mas o que escrever, se todos os grandes escritores, todos os grandes pensadores deste mundo já escreveram tudo o que eu gostaria de escrever, pois não é só a mim que a indignação arrasa – e por todos os lados as populações estão saindo às ruas para protestar contra este massacre inumano? Então achei que poderia escrever sobre os meus palestinos, aqueles que sabem a palavra “Porto Alegre”, e que tem aqueles olhos profundamente cheios de significado, força e doçura. Então penso se estarão vivos, se aquelas lindas moças não serão hoje cadáveres só com meia cabeça, ou se os netinhos daqueles homens não estejam, talvez, com ferimentos como se fossem couve-flores  de sangue nas suas barriguinhas de meninos mortos, ou se meus próprios amigos já não terão vidrados e frios os seus olhos que eram cheios de doçura e de força...
                                   Ah! Palestina, ah! Palestina, como me dóis cá dentro do meu peito que parece estraçalhado... Ah! Palestina, ah! Palestina, que me resta fazer além de chorar angustiadamente, como estou a fazê-lo agora?


Blumenau, 06 de Janeiro de 2009.
(Escrito em 2009, mas de grande atualidade neste momento, julho de 2014.)


Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR



[1][1] Hatta: Lenço palestino, quadriculado de preto e branco, ou de vermelho e branco, que se tornou um símbolo de resistência. Era usado por Yasser Arafat.
[2][2] Solução final: expressão usada pelo nazismo que significava, a grosso modo, “matar todos”.
[3][3] Gueto de Varsóvia: onde 380.000 judeus foram implacavelmente mortos pelos nazistas até a última pessoa. Procurar se informar melhor a respeito. Hoje é o Estado de Israel que repete a história, matando sem piedade os palestinos da Faixa de Gaza.

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