lundi 10 février 2014

Berlim - Lars von Trier provoca Cannes

Por Rui Martins

O cineasta Lars von Trier se negou a participar da conferência de imprensa com a crítica cinematográfica e, na sessão de fotos com a equipe do filme Ninfomaníaca, mostrou uma camiseta com a inscrição Persona non grata, sob a Palma de Cannes, provando não ter feito as pazes com os franceses.
O ator Shia LaBeouf (Jerome no filme) não esquentou a cadeira porque se se sentiu ofendido com uma pergunta sobre sua participação sexual com Stacy Martin e soltou, ao se levantar, uma frase do ex-futebolista Eric Cantona - "quando as gaivotas seguem o barco é porque pensam que vão lhes jogar sardinhas."
Existe uma genialidade em Lars von Trier. A versão longa de Ninfomaníaca, com o O do título em forma de vagina começa como um filme de Bela Tarr, mas depois de Seligman recolher Joe, ferida, do patio do prédio, é von Trier quem imprime sua marca.
Tentando explicar o filme Stellan Skarsgard sintetiza nas personagens de Seligman e Joe a personalidade difícil de Lars von Trier - "um assexuado e a outra fortemente sexual". Mas é fora de dúvida ser alguém torturado por angústias e conflitos íntimos, visíveis nos seus personagens, em luta com eles próprios. Fator não negativo, mas demonstrativo de sua inteligência, anticonformismo e rebeldia.
Seria exagero se qualificar Ninfomaníaca de filme pornográfico - as cenas de sexo não excitam ao orgasmo e a coleção de pênis exibidos não é erótica mas cômica. Numa provável referência ao escândalo em Cannes, onde brincou e se queimou com referências ao nazismo, há um diálogo revelador -
-Como você se chama ? pergunta Joe, ao senhor idoso que a salvara e se dispunha a ouvir sua narrativa, que ele prometia ser longa. E ele responde e interpreta - "Me chamo Seligman (Joe ri porque Seligman quer dizer "homem feliz"), é um nome judeu. Mas não sou religioso. Pode-se ser antisionista sem ser antisemita".
A ausência na conferência de presse de Charlotte Gainsbourg foi a grande chance para Stacy Martin, que desponta e brilha como atriz, no papel de Joe jovem ninfomana, falar com os jornalistas e reforçar sua imagem nascente. Ela contou como se deixou guiar nas filmagens por von Trier. UmaThurman contou como adorou fazer aquela explosão de mulher traída e revoltada, que traz seus três filhos na casa de Joe e passa um sabão nela e no marido.

 

Crônica da Urda: guiomar daros peixe

CARMEM


(Para Carmen, minha querida, que partiu antes do tempo, creio que em 2010)


                                               Há que contar as coisas um pouco mais para trás.
                                               Andava eu pelo Ginásio, e meu pai resolvera ir morar na praia, onde abriu um restaurante, e os tempos, então, eram bem diferentes de agora. A moderna Armação do Itapocoroy de agora não existia; as coisas funcionavam mais próximas do século XIX, naquela época, lá, e quando a mudança ficou acertada, só havia uma alternativa: eu ficar em Blumenau, para poder continuar estudando.
                                               Fiquei morando no Colégio São José, onde já estudara o primário, das queridas freiras da Providência de Gap, que no Brasil provinham de Minas Gerais, mas que tinham ascendência francesa e que muito ensinaram a toda uma geração do meu bairro.
                                               Foi lá que conheci muitas amigas e participei de incontáveis aventuras. Que aventuras se praticavam num colégio de freiras na década de 60? Ah! Eram muitas, com certeza, e as mais emocionantes eram as de roubar comida. Nós, as adolescentes que lá vivíamos, vínhamos de famílias do Vale do Itajaí, acostumadas a cinco lautas refeições por dia, a Früstück todas as manhãs, carregados de grossas fatias de pão-de-casa com queijinho e nata, ou grossa manteiga e lingüiça, ou mesmo pirão com sonho de noiva (sonho de noiva é ovo frito com lingüiça), tínhamos um baque cultural quando chegávamos ao Colégio das queridas freiras: elas vinham de Minas Gerais e traziam outros hábitos alimentares, e no lugar do Früstück, por exemplo, recebíamos uma banana petiça madura, que absolutamente não nos satisfazia. E eu sempre abominara a banana petiça, e só comia banana verdolenga! E havia feijão todos os dias, outra coisa abominável para quem se criara comendo aipim todos os dias – o colégio era uma beleza, e a gente era feliz lá, mas quando se passava para o capítulo comida, a coisa ficava ruim.
                                               E então eu e minhas amigas passamos a viver a grande aventura de roubar comida! Na verdade, depois que os pais da gente souberam como a comida de lá era diferente, passaram a mandar sacolas e mais sacolas de coisas às quais estávamos acostumadas para suprir nossas necessidades, mas roubar comida era bom demais!
                                               Saímos dos nossos quartos tarde da noite, quando as freiras já estavam dormindo, e sabíamos cada pedacinho de tábua do corredor brilhante de encerado que rangia, e, pé ante pé, tapando as bocas para não rir alto, íamos até à cozinha do colégio ver o que havia para roubar. Lembro de coisas realmente engraçadas, como a vez em que roubamos uma compridíssima tira de salsichas, tão comprida que não conseguíamos segurá-la em duas – a parte do meio acabava arrastando no chão. Poderíamos ter cortado a tira no meio, claro, mas aí ficaria bem menos engraçado. E quando descobrimos uma caixa inteira de maçãs, naquele tempo que maçã era coisa rara, vinda da Argentina.
                                               Depois a vida seguiu, e cada uma de nós tomou seu rumo. Mais ou menos sabia onde estavam minhas amigas – algumas sempre ficaram em Blumenau , e temos grande amizade até hoje – mas uma delas como que sumiu no mundo, nunca mais tinha tido notícias dela. E agora, por causa de uma publicação em jornal, ela me achou. Telefonou-me ontem, e foi maravilhoso: entre outras coisas, relembramos como roubávamos comida no colégio. Ela se chama Carmem e mora em Biguaçu, hoje, e é uma mulher feliz! Receber a Carmem de volta foi lindo demais! Foi como receber uma flor de alegria em plena guerra!

           

                                                                       Blumenau, 19 de Março de 2003.




                                                                       Urda Alice Klueger

Um poema para você

Quero gritar!
                                                                          Irene Coimbra
Hoje não quero praia,
não quero mar,
não quero montanhas,
nem campinas verdejantes.
Quero apenas o deserto!
O deserto mais deserto,
pra que ninguém perturbe meu grito,
endereçado ao Infinito!

Hei de gritar tão alto
que Deus há de me ouvir
e meu pedido deferir!


*****

TEMPO E LIBERDADE

          Por Gilberto Nogueira de Oliveira

Nazaré, Bahia 06-07-1968

Andei por todo o mundo
Em busca de algo que nunca vi,
Algo que nunca tive
Mas, que desejava.
Nada encontrei, exceto abismos.
Nem sei bem o que procurava.
Talvez o infinito,
Talvez a verdade,
Talvez eu mesmo,
Talvez a liberdade,
Talvez o amor.

A liberdade é como o tempo.
Quanto mais a queremos, menos a temos.
É também como os peixes,
Quando estão presos na rede
E quanto mais tentam sair, mais se embaraçam.
Não sei o que queria. Eu queria a liberdade
Mas, não tinha tempo para procurá-la.
Se a liberdade é como o tempo,
Não existe tempo nem liberdade.
Qual a liberdade do tempo? E o tempo da liberdade?
Para que haja liberdade é preciso libertar o tempo.
Para que haja tempo é preciso libertar o homem.
É preciso dar tempo ao homem
Para protestar pró-liberdade.
Para protestar contra a falta de tempo
E ter tempo para protestar

Contra a falta de liberdade.

Berlim – Filme de Clooney não convence

Por Rui Martins

Razão tinha a 20th Century Fox de negar, durante três anos, a produção do filme Caçadores de Obras Primas (Monument Men), estreado neste Festival de Cinema de Berlim, tendo como ator e realizador George Clooney.
A história pouco conhecida de um pequeno grupo de especialistas em artes, empenhados em salvar quadros e esculturas durante a Segunda Guerra Mundial, contada num livro de Robert Edsel, não consegue se impor na sua adaptação livre ao cinema.
Não se trata de um filme de espionagem, não é um thriller com suspense, e se confunde com um relatório de acervos de museus. A própria Cate Blanchette, vivendo a personagem da secretária do museu Jeu de Pomme, que lembra a resistente Rose Valland, não tem nada a ver com a atriz de Woody Allen, provável Oscar.
Embora Clooney tenha citado Os Canhões de Navarone e A Grande Evasão, como filmes inspiradores, trata-se de mais um filme de guerra, fora de época, frio e sem emoção, nem quando Matt Damon pisa em cima de uma mina antipessoal, sem se falar em alguns gracejos fora do contexto. Na entrevista coletiva, George Clooney diz ter feito um filme não cínico e nem irônico, e talvez esteja aí a falha, criou um filme sem emoção, que se salva pela presença do garotão bonito da Nestlé, mesmo quando maduro, como disse uma jornalista fã, por certo apaixonada, durante a coletiva.
A estréia do filme foi suspensa por mais de meia-hora, pois um dos espectadores na projeção reservada para a crítica, teve de ser socorrido de urgência por ter sofrido, ao que circulou, um enfarte.
Com o atraso, os jornalistas que não foram à projeção lotaram a sala reservada para a entrevista coletiva com Clooney, não deixando lugar para os que viram o filme, impedidos de subir as escadas que levam ao auditório de imprensa. Não houve tumulto mas um clima de desagrado e de insatisfação.
Dentro da sala, George Clooney, que tem obtido simpatia junto à esquerda por ter se declarado contra a guerra no Iraque, por ter adotado posição crítica contra o ex-presidente Bush e mesmo por já ter feito filmes politicamente anti-establishment, talvez tenha cometido seu primeiro engano.
Perguntado sobre o clima de revolta na Ucrania, se declarou favorável à oposição, seguindo a posição da Casa Branca, e desconhecendo que o movimento ucraniano vem sendo tomado por grupos violentos de extrema-direita, saudou os irmãos Klitschko e disse apoiar a ex-primeira ministra Julia Tymochenko, considerada por ele como prisioneira política.
Em lugar de questões relacionadas com o filme, surgiram perguntas políticas, respondidas por Clooney, como ao falar do Sudão e do Egito - « o processo de autodeterminação no Sudão é muito importante e permitiu a criação do país mais jovem do mundo. Vivemos um momento difícil no mundo com o que se passa no Egito, onde o povo derrubou um ditador mas depois se dividiu » Mesmo assim, Clooney se disse otimista, apelando para a comunidade internacional se manter vigilante.
O filme está na atualidade, pois é recente a descoberta de mais de 1500 telas roubadas durante a Segunda Guerra, na casa de um octogenário alemão, Cornelius Gurlit. « Não é um golpe de marketing, disse Clooney na entrevista. Pela primeira vez na história, os vencedores da guerra não saquearam mas devolveram as obras de arte roubadas pelo vencido ».
Essa resposta deu ensejo a uma jornalista grega perguntar se o ator e realizador aceitaria ajudar a se recuperar obras de arte que estão no Museu Britânico, mas embora Clooney concorde que devam ser devolvidas, mas que ajudar nisso não está ao seu alcance.
Para o Brasil, ficou a resposta de que Clooney não irá à Copa do Mundo.


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