samedi 8 février 2014

Berlim – remake sem a força do original

Rui Martins

O remake de Dois Homens Contra uma Cidade, de Rachid Buchareb, com o título de Two Men in the Town não tem a mesma força do original de José Giovanni estrelado, em 1973, por gente graúda como Jean Gabin, Alain Delon e mesmo uma ainda não muito conhecido Gérard Depardieu.

Buchareb, francês de origem argelina, transplantou a trama para os EUA na fronteira com o México. Se José Giovanni, ex-penitenciário, quis denunciar as falhas no sistema policial francês com a reinserção praticamente impossível, do tipo bandido será sempre bandido, Buchareb introduziu um elemento, inexistente no filme original, para reforçar o desejo da mudança de vida e de reintegração na sociedade como bom cidadão, a religião, no caso a crença muçulmana.

Assim, o ex-presidiário Garnett (Forest Whitaker), condenado por ter assassinado um policial, foi prisioneiro modelo durante sua pena de 18 anos por ser um fiel praticante muçulmano, com suas abluções e rezas voltadas para a Meca. Essa diferença, mais o fato de ser negro e de ter matado um policial seriam obstáculos para iniciar vida normal.

Mesmo porque o xerife local se prometera vingança e o antigo comparsa esperava seu retorno ao mundo da ilegalidade. De nada adiantava o apoio de uma oficial da polícia, isolada na pequena cidade desértica do Novo México, próxima do muro construído para impedir a entrada de mexicanos. A pressão exercida sobre William Garnett é demasiada, mais forte que as palavras do Corão e o filme termina com a decisão de Garnett não fazer sua ablução, necessária para a prece.

Buchareb quis mostrar existir nos EUA um sistema policial inadequado para a reinserção de um reabilitado. Mas sem transformar essa contestação em palavras, pois existem poucos diálogos, o desespero de Garnett só se exterioriza nos momentos de explosão.
O argumento do bom presidiário por ter se convertido ao islã seria desnecessário e daria mais força ao personagem. Fica a impressão de proselitismo, dificultado por acentuar apenas a ala moderada dessa religião.


Exposição


Berlim – Mãe ausente e menino revelação

Rui Martins

Mãe solteira muito jovem, amorosa, carinhosa, mas ausente, precisando tanto de atenção quanto seus dois filhos, sem pai conhecido. Assim começa o filme Jack, do alemão Edward Berger, no qual se conta a história do menino de dez anos, que assume toda a responsabilidade sobre o irmão menor, enquanto a mãe trabalha ou sai ou se diverte no quarto de porta fechada com algum namorado.

Oportunidade para a descoberta de um excelente ator infantil, Ivo Pietzcker, dono de uma segurança e uma naturalidade que supreendeu e impressionou a centena de jornalistas presentes na entrevista coletiva com o diretor e atores do filme.

Filme praticamente impossível de entender para os brasileiros, para quem crianças sem boa tutela vão parar no Febem para se tornar bandidos. Na Alemanha, ao que conta o filme, o serviço social rapidamente se encarrega da educação das crianças deixadas ao abandono, em lares dotados de todo conforto e com assistentes sociais.

Será que o comportamento de mães de classe média, ausentes, sem serem drogadas e nem viciadas, é provocado pela vida moderna ? Talvez não, a socióloga francesa Elizabeth Badinter (esposa do antigo ministro francês Robert Badinter responsável pelo fim da pena de morte na França) escreveu um livro controvertido, mo qual afirma ser um fator cultural o amor maternal e as responsabilidades decorrentes. Algo que se aprende e se desenvolve e não natural e instintivo.

Assim, o filme Jack vai na contracorrente dos lugares comuns de que toda mãe é dedicada, mostrando a maturidade precoce de uma criança extremamente responsável embora carente de amor. E pega em flagrante delito de omissão os adultos ligados à genitora,
que pouco se importavam com os dois irmãos perdidos de noite, dormindo ao relento e passando mesmo fome.

Edward Berger, o realizador, conta ter se inspirado por esse tema quando seu filho, depois de uma partida de futebol de fim-de-semana, lhe apresentou um colega de jogo, com sua mochila, de volta ao seu lar de crianças, diferente daquela imagem de um lugar de crianças tristes e revoltadas.

« No meu filme, mostro uma mãe muito jovem igualmente procurando alguém para lhe dar carinho e afeto e quando encontra esquece dos filhos ».

Ivo, o estreante revelação, contou ter participado do casting, graças à informação de uma amiga de sua mãe na escola, sobre a procura de um menino para o filme. Não parecia estar muito interessado, pois primeiro foi jogar futebol com os amigos e só depois seu pai levou-o ao estúdio, onde Edward Berger não estava muito entusiasmado em fazer o teste, pois Ivo tinha chegado atrasado e haveria logo depois uma final do campeonato alemão de futebol.


Mostrando uma incrível maturidade e praticamente monopolizando a entrevista coletiva, Ivo disse ser normal que faça novos filmes para atores de sua idade, mas não considera o seu futuro como ator.

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