jeudi 4 décembre 2014

Quero ser Papai Noel

 

        Conto de Luiz Carlos Amorim –          Http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br

Bruno sempre fora fascinado pela imagem de Papai Noel, desde muito pequeno. O carisma e o mistério em torno daquela personagem que o fazia esperar ansioso o Natal, quando criança, não o abandonara jamais, mesmo depois de adulto.
O final de ano era a época mais feliz para ele, pois tentava incutir nos filhos e sobrinhos e depois nos netos o amor pelo Velhinho de barbas brancas e roupa vermelha, que vinha em todos os Natais para
trazer algum presente, por mais humilde que fosse. Um Velhinho bom que anunciava o nascimento de um Menino que poderia salvar o mundo, se deixássemos, ele dizia.
Até a meia idade, era muito magro. Era louco por uma possibilidade de se vestir de Papai Noel, representar o Velhinho nos Natais que eram sempre felizes se ele, Bruno, estivesse por perto.
– Não vou ser um Papai Noel convincente, magro como sou, vou ficar uma figura sofrível com barba postiça e muito enchimento – lamentava, triste.
Então, quando os cabelos começaram a rarear e a ficarem brancos, decidiu deixar a barba crescer. Já não tinha mais aquele corpo delgado, a idade lhe trouxera uma barriguinha e achava que finalmente ficaria um Papai Noel de acordo.
Naquele ano, quando já passava dos sessenta natais, ele realizaria seu sonho: seria o Papai Noel da família.
– Estamos ainda no inverno, até dezembro minha barba já terá
crescido o suficiente.
– Mas a barba de Papai Noel tem que ser bem comprida – dizia sua
esposa – será que ela crescerá o bastante?
– Minha barba cresce rápido – respondeu ele – bem mais rápido
do que o cabelo.
Quando novembro chegou, a barba de Bruno não estava tão comprida como ele queria que estivesse, mas estava dando a ele um ar de Papai Noel: quase toda branca, muito serrada, era o orgulho dele.
Paralela a sua felicidade por estar se preparando para encarnar o Velhinho do Natal, umas dores foram aparecendo e foram se acentuando, mas o médico dizia que não era nada, coisa corriqueira,
era apenas a idade avançando: artrites, artroses, essas coisas.
Mas, quando em meados de novembro, ele começou a emagrecer muito rápido, ficou preocupado:
– Como vou ser um bom Papai Noel, se ficar assim, magro como palito? – reclamava, mais do que das dores.
Infelizmente a preocupação dele em não se tornar mais um Papai Noel magrelo e sem graça era o de menos. Os médicos descobriram que Bruno tinha câncer e – pior – já estava em estado adiantado.
Os parentes e os amigos vinham vê-lo e ao mesmo tempo em que ficava feliz por rever pessoas queridas que há algum tempo não encontrava, ficava triste porque poderia ser a última. Até “seu” Adão, grande amigo que ficara cego em decorrência de um acidente, viera
visitá-lo.
Definhava e o sofrimento aumentava com os tratamentos que lhe eram ministrados, como quimioterapia e radioterapia. Dezembro o pegou já confinado à cama e não poderia, de forma alguma, ser Papai Noel naquele Natal.
Foi o Natal mais triste da vida de Bruno. A vida lhe escapando por entre os dedos, justamente quando iria ter o mais lindo Natal que poderia existir.
Dois dias depois do Natal, os médicos avisaram à família que Bruno poderia ir-se a qualquer momento. Ele estava muito abatido, desfigurado, até. Sabia que sua hora estava chegando.
Chamou seu filho mais velho e falando com dificuldade, fez seu último pedido:
– Júlio, lembra de Adão, que esteve aqui antes do Natal, me visitando?
– Sim, lembro, pai. O seu amigo que ficou cego.
– Pois é. Quero doar minhas córneas para ele. É meu presente
de Natal, ainda que atrasado.
E assim foi. Antes que dezembro terminasse, Bruno foi-se. Mas conseguiu ser o Papai Noel de Adão, mesmo que não estivesse redondo para vestir a roupa vermelha, que combinaria perfeitamente
com a sua barba branca, então já bem comprida...

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