mardi 4 novembre 2014

"MORTOS"


EMANUEL MEDEIROS VIEIRA 


Para todos os amigos já "encantados"
"Escrevemos cada vez mais/para um mundo cada vez menos"
(Alberto da Cunha Melo)
Eles me chamam quando a noite vai começar.
Não.
Chamam a qualquer hora.
São os meus mortos.
Querem um papo, um suco, um filé com fritas,
não, não querem ser esquecidos.
Contam comigo: modesto memorialista da tribo.
Deixaram alguma coisa - nada que seja motivo  de briga na Justiça.
Muitos livros (tantos interrompidos), canetas, papéis anotados, o projeto de uma obra pessoal, o sonho de ir a Veneza (mas "era outra" Veneza),uma calça jeans, camisetas, cuecas, camisetas, quase não conheciam os avanços da tecnologia, alguns tinham máquinas de escrever, um recibo de uma lavanderia, álbum de fotografias, cais de remédios, uma bula nunca lida.
Que mais?
Alguns tinham enxaqueca, outros padeciam de insônia, vários tentaram mudar o mundo, sofrearam perseguições, invejas, muitos detestavam ratos.
Tinham convicção de que, num futuro bem próximo, poucas pessoas gostariam de ler, viciadas em engenhocas eletrônicas
Riem, pedem uma birita.
Estão mortos - irremediavelmente mortos.
Cantam, dançam.
Mas já estranhavam este mundo quando estavam aqui.
Uma enfarte, uma leucemia, uma batida de carro, um coração que parou de bater, e velhice mesmo.
São os meus mortos.
Tinham tantos sonhos.
Tantos?

Quando eram jovens.
Depós, só queriam a amizade, a flor, morangos, a alegria repartida.
Não, amigos, não vou  esquecer vocês, enquanto estiver aqui.
Manterei acesa a chama (que chama?), e depois de mim?

Um menino sorri, um cão late - é um novo dia.
Relevem o sentimentalismo: fazem uma falta danada (os meus mortos)!
E estão dentro de mim, sempre, enquanto o dia nasce,  rio por eles,
aparece o sol, e contemplo as últimas estrelas dessa noite que já passou..
(Brasília, novembro de 2014)

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