samedi 11 octobre 2014

Crônica da Urda

ÁRVORE DE AMORAS
                       
                                   (Para Luiz Ramil)

                                   Lembro de quando estavas aqui, em agosto, e a árvore de amoras ensaiava a Primavera, neste ano em que o inverno foi tão brando! A cada manhã parávamos sob ela e víamos as pequenas amoras verdes crescendo, e eu comentava contigo da abundância que haveria em breve, da refeição de amoras que eu faria ali, a cada manhã, coisa encantada, que me ligava à Natureza, ao Passado e ao Presente de fartura, tanta comida, hoje, neste país, que as crianças já não sabem mais comer fruta no pé!
                                   Então tu te foste antes que a primeira amora amadurecesse, e eu continuei ali, espreitando aquela árvore que em poucos dias cobriu-se de amoras pretas, doces e suculentas, e nas manhãs de andanças com meu cachorro eu já não comia mais em casa, tamanha era a fartura que havia sob aquela árvore, fartura daquela fruta que me deixava a boca, o rosto e as mãos cheias do roxo do seu sumo, fartura das lembranças de ter estado ali contigo. Eram tantas as amoras que eu podia comer até a saciedade, e elas se despreendiam dos ramos da árvore ao primeiro toque e me enchiam as mãos, e a cada uma que eu botava na boca eu me lembrava de ti, e aquela rua que me trazia diversas magias agora ficara mais encantada ainda, e cada manhã era uma manhã de festa porque havia as amoras e a tua lembrança de ali, sob a árvore – mais de uma vez eu te escrevi sobre aquelas amoras maduras, mas penso que não sabes, até agora, como aquele amadurecimento está, agora, ligado à tua lembrança.
                                   Houve dias que como que me sentia intoxicada de tanta vitamina C, tamanha a abundância sob aquela árvore, e é tão mágica e magnífica, aquela árvore, que tanto eu, quanto as crianças da escola, quanto outros passantes, todos paravam ali para colherem suas frutinhas negras, e lá vinham mulheres com panelas para a colheita com a qual fariam doces, ou homens com potes de plástico para colher amoras para as suas crianças, e todos nos fartávamos e colhíamos  o que estava à mão, na parte mais baixa da árvore, pois lá em cima, quem dominavam eram as aves.
                                   Todo o tipo de aves e avezinhas fazia sua barulheira primaveril nos altos da árvore, sem nenhum medo, pois agora as crianças também já não sabem mais perseguir passarinhos, e houve uma manhã, mesmo, que havia tal bando de aracuãs se alimentando lá no andar de cima, que quando faziam uma revoada, era quase que com se houvesse um escurecimento do dia. As aracuãs estavam tão felizes e repletas de amora que, imagino, naquele dia aproveitaram para perpetuar sua espécie. E eu comi, e depois fui andando, e depois voltei – tu conheces o meu itinerário – e sempre as aracuãs continuavam ali a festejar a vida, e como eu sentia que não estivesses ali para compartilhar aquela exuberância toda!
                                   A festa daquela árvore continuou por uns quarenta dias – nunca fizera as contas de quanto tempo uma árvore de amoras permanece frutificando, mas neste ano eu lembrava de ti e de quanto tempo fazia que te foras, e sabia do tempo. E continuava, a cada amora, a me lembrar de ti.
                                       Hoje foi a primeira manhã em que já não havia amoras, e vim para casa com fome. Há que esperar muito tempo para que aquela árvore volte a frutificar, o que não quer dizer que ela não continue a frutificar lembranças, pois me mantive sob ela, olhando seus ramos sem amoras, mas pejados de recordações.
                                   Quanto tempo irá passar, agora, até que possamos estar de novo sob uma árvore assim, armazenando novamente as lembranças que ficarão para a vida? Senti muito, muito, a tua falta.

                                   Bumenau, 04 de Outubro de 2014.

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.


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