lundi 15 septembre 2014

Crônica da Urda

PALESTINA – Até quando?

                                   Se olharmos para a história bíblica, ambos os povos, tanto judeus quanto palestinos, descendem de Abraão – todos primos, portanto. Há uma diferença, no entanto: os palestinos nunca saíram das mesmas terras, desde os tempos bíblicos, enquanto que o povo judeu saiu diversas vezes: para o Egito, atrás das glórias de José; para a Babilônia, como escravos, na diáspora provocada pelo Império Romano. No caso da diáspora, o povo judeu espalhou-se por quase todo o mundo conhecido na época e, mais tarde, para os novos mundos descobertos, como foi o caso da América. Como exemplo, basta citar-se o da cidade em que vivo, Blumenau/SC/Brasil, onde, apesar de contraditória propaganda que diz tratar-se de uma Alemanha brasileira, a família mais numerosa da cidade é a de sobrenome Oliveira – família, portanto, de profundas raízes judaicas.
                                   Assim, pelo mundo afora o povo judeu viveu, criou suas famílias, em alguns casos prosperou e em outros não, e a vida seguiu, com muitas famílias sequer tendo mais a lembrança das suas origens judaicas, como imagino que seja o caso dos Oliveira de Blumenau, e tantos outros. Mesmo para os que mantém a religião, as tradições e a cultura judaica, há que lembrarmos que nem todos são sionistas, que há diferença entre ser-se judeu e ser-se judeu sionista, que está errado culpar-se qualquer judeu, indiscriminadamente, pelo impiedoso massacre que se realiza em Gaza. Para quem está preocupado com a questão religiosa da coisa, explico que sionismo não é religião – funciona, hoje, como um partido político que governa Israel.
 A seguir, veremos sobre o nascimento do sionismo.
                                   As coisas não seriam como são hoje caso, no final do século XIX, não tivesse surgido na Europa um movimento político e filosófico chamado sionismo, que pregava o direito de todos os judeus do mundo a voltarem para os cenários bíblicos, isto é, a Palestina. Durante os últimos vinte séculos lá haviam vivido os palestinos, cuidando dos seus rebanhos e das suas plantações, mas a nova ideologia começou a agir e a fazer diversos movimentos para tal retorno, criando diversas pressões em diversos lugares e obtendo algumas vitórias para tal fim, como a obtenção de Declaração Balfourd, por exemplo, dada por Lord Balfourd, na Inglaterra, em 1917, que falava da intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então dominava aquela região.
                                   Após o holocausto judeu perpetrado durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo, com certeza envergonhado diante do massacre de seis milhões de judeus por conta do nazismo, acabou por conceder aos sobreviventes o direito a ter de volta parte das terras bíblicas, e em 1948, em votação na ONU, foi criado o Estado de Israel, que dividia as terras palestinas em dois países. Nenhuma consulta foi feita ao povo palestino, que, do dia para a noite, passou da condição de palestino para a condição de não-judeu, perdendo, portanto, a própria nacionalidade arbitrariamente, e o povo recém chegado, desde os primeiros dias, fez sucessivas guerras para se apoderar de mais e mais terras palestinas para si. A Palestina, que então ficara com 45% do seu território antigo, hoje se resume a quase nada, duas mínimas regiões que são a Faixa de Gaza e a Cisjordânia ocupada, onde se processa, metodicamente, a uma faxina étnica, conforme estamos vendo, horrorizados, nos noticiários de julho/agosto 2014.
                                   Por que o mundo que assiste ao sistemático massacre dos palestinos nada faz? Pode fazer algo? Não sei. Se se olhar o mapa, vai se ver um Estado de Israel fortemente armado às custas dos Estados Unidos, que o municia a fundo perdido, com a finalidade de manter naquele ponto do mundo um bastião de domínio sobre os países limítrofes, ricos em petróleo. Tais verbas são aprovadas no congresso dos Estados Unidos pelo grande número de sionistas que são eleitos naquele país a cada eleição. Para o capitalismo estadunidense e internacional, é muito mais importante aquele seguro ponto de apoio no meio da grande quantidade de petróleo que o cerca do que saber das atrocidades que o sionismo provoca diuturnamente, desde 1948, com a população da Palestina, das quais não escapam crianças, idosos, doentes, sequer animais. Além dos bombardeios periódicos, como o que aconteceu nos últimos dois meses, a cada dia os palestinos são um pouco mais humilhados, cercados em guetos, passam a ter menos direitos, menos comida, menos remédios – sei de pessoa que já esteve lá e que lá tem parentes, que quando recebe a notícia de que um dos seus entes queridos está doente, já o considera morto, por saber da impossibilidade de tratamento que há na Palestina. Para quem não sabe, está quase pronto um grande, imenso muro que cerca toda a Faixa de Gaza...
                                   Para o sionismo internacional, o domínio integral do território de Israel tem tamanha importância que permite todos os massacres, todas as barbaridades, todas as atrocidades. O importante é não fazer com que as fábricas de armas de guerra não parem, para manter o status quo de um mundo a cada dia mais decadente. Assim funciona o capitalismo.

                                   Blumenau, 27 de Agosto de 2014.

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora, historiadora, doutora em Geografia.     

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