mercredi 27 août 2014

A ACL e sua missão

 
SALOMÃO RIBAS JR. *

Presidente da Academia Catarinense de Letras aponta alguns caminhos para o futuro da instituição


As mudanças reclamam reflexões. É o que se passa com a troca de dirigentes da Academia Catarinense de Letras. Comecemos por recapitular a sua estrutura e objetivos. A ACL é uma sociedade civil de fins culturais. Como outras academias que seguem o figurino francês, caso da ABL, é composta de quarenta membros. Ocupam cadeiras numeradas. Cada uma delas tem um patrono escolhido na década de 1920 quando a entidade foi criada. Esses ocupantes devem ter certa importância cultural e escrito pelo menos um livro. A ocupação da cadeira é vitalícia e irrenunciável. As vagas só ocorrem com a morte. Os novos ocupantes são eleitos pelos remanescentes. Os dirigentes são eleitos por dois anos e não são remunerados. É o caso da nova diretoria presidida pelo autor deste e integrada pelos escritores Pinheiro Neto (vice), Lelia Nunes (secretária) e Amilcar Neves (tesoureiro). O Conselho Fiscal é composto pelos escritores Celestino Sachet, Moacir Pereira e Padre Besen.

Como entidade reconhecida de utilidade pública desde 1929 ocupa um espaço público não estatal e tem por objetivos: a defesa da língua portuguesa, a defesa da literatura brasileira, particularmente a catarinense, a identidade e os valores culturais do povo catarinense. Para cumprir essa missão, conta com o apoio financeiro do poder público – sempre escasso – e desenvolve várias atividades durante o ano acadêmico de 15 de fevereiro a 15 de dezembro.

No momento de renovação é oportuno registrar o trabalho feito pela diretoria que encerrou seu mandato sob a presidência do Acadêmico Péricles Prade, notável escritor e poeta. Como ocorre há décadas muito desse trabalho terá prosseguimento neste segundo semestre e no ano acadêmico de 2015. A ACL, uma das entidades culturais mais antigas de Santa Catarina – a outra é o Instituto Histórico e Geográfico –, mantém uma programação clássica cumprida quase integralmente a cada ano. Trata-se da edição de sua revista, dos concursos literários, da edição da coleção da ACL e dos prêmios anuais a obras de autores catarinenses ou do prêmio Othon Gama D'Eça para o conjunto da obra.

Na cerimônia de posse da nova diretoria, no último dia 7, esses compromissos foram reafirmados. Ao mesmo tempo anunciou-se a intensificação de esforços para a valorização da literatura catarinense. Isso se dará pela otimização dos compromissos estatutários da ACL e de outras medidas. Entre essas, o estímulo às bibliotecas municipais e escolares. No primeiro caso a meta é: nenhum município sem biblioteca com autores catarinenses. No caso das escolas: nenhuma escolha sem biblioteca. Há um imenso trabalho nesse campo.

A ACL divulgara que a literatura catarinense tem história, tem passado, tem presente e futuro. Existiu e existe. São muitos os escritores de grande qualidade literária que escreveram e outros que estão escrevendo. O que se quer é reavivar o interesse dos públicos de todas as idades para sua leitura. Isso exige divulgação sistemática e criação de possibilidades de acesso ao livro. Nessa linha, está em gestação um evento estadual ou um conjunto de eventos regionais para rediscutir a literatura produzida remotamente e a contemporânea. Pensa-se aproximar a ACL dos professores de português, dos escritores veteranos e jovens, estando ou não na academia. Para o êxito dessa futura programação é vital o apoio da imprensa.

Além desses eventos, é necessária uma reformulação da biblioteca da ACL, agora com espaço razoável na Casa de José Boiteux, para ser referência da literatura nacional e, sobretudo, estadual. As ideias são muitas e serão alinhadas em Plano Estratégico – com metas de curto, médio e longo prazo – para os próximos anos. O que está sendo construído com a participação de todos os acadêmicos. O espaço da Casa de José Boiteux que é público, ainda que gerido pela ACL e IHGSC, deve abrir-se mais efetivamente para a fruição da comunidade catarinense.

Pode-se dizer, para concluir, que há questões internas da ACL – estatutos, organização, estrutura – a serem tratadas com atenção. E há questões externas, igualmente importantes, que envolvem com prioridade o fortalecimento da cooperação com outras instituições culturais e educacionais. Tanto no âmbito público quanto privado. Nesse campo, por exemplo, vai se buscar parcerias na premiação como faz a Academia Brasileira de Letras. Além do modelo é salutar seguir as boas práticas do órgão máximo das letras no Brasil.


* presidente da Academia Catarinense de Letras (ACL)

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