mardi 1 juillet 2014

ORA BOLAS!



AGUINALDO LOYO BECHELLI

O consagrado estilista 7 Estrelas, decano dos alfaiates, D’CARLOS, saudoso, bolou o DIA MUNDIAL DA BOLA, mas acho que só falou pra mim.  Bom de Jogadas sob medida, queria que a bola do nosso planeta parecesse menos fria e a vida mais suportável. Era “cabecinha”, como são chamados os pensadores criativos na publicidade.  Sabia que ser simples não é o começo e sim o fim da sabedoria. Embolava nas delícias do óbvio, que todos vêem, mas poucos enxergam.  E com essa manha, entrava de bola e tudo, a exemplo como reinventava a comunicação, graças a seus cortes no pano e alinhavos espirituosos.

Ué! Tem “dia” de tanta coisa! Tem até dia que de noite é foda! Então, por que não o DIA MUNDIAL DA BOLA? É esfera gloriosa. Chaplin imortalizou-a quando Carlitos fez “embaixadas” com o globo terrestre. Simples artefato de couro, brinquedinho para uns e fortuna para outros. É não confundir “A bola da vez” com “A vez da bola”.

A minha ironia, ainda que piedosa, poderia falar do jabaculê que é “levar bola” – gorjeta, tradição nacional, gazua que corrompe. Também não quero lembrar de certas tribos que jogavam futebol com crâneo humano. Nem da bola de carne envenenada para matar cães. O viciado em “bolinhas” é um desgraçado. E que tipo de condenado merece arrastar a pesada bola de ferro? Aquela bola, a de canhão, já morreu.  A bolota de barro endurecida é projétil de bodoque. Quem lembra do chucho, jogo de borrocas com bolas de gude?

Assim como o Sol detesta ser chamado de “astro-rei”, O Globo  Terrestre odeia “abóboda celeste”.

Melhor falar da bala guloseima, redondinha. Baila melhor na língua.  Ah, eh! Ia esquecendo o tradicional Restaurante do Bolinha virou sinônimo de feijoada.

Prefiro a mais encantada de todas as bolas – a de sabão: soprada por um canudinho, nasce como um calidoscópio e se esvai, deixando exemplo de quanto a vida é bonita e efêmera.

Quem diz ter aquilo roxo, precisa saber como valorizar as duas bolas. E quem tem três? Não quero ver. Tá louco!

Na minha crônica RISCO SURREALISTA  - COISAS, TRECOS E VIDA, ao admitir que “Objetos Têm Vida”, entre outros exercícios, chutei: A bola não se quer murcha. / Chiclê de bola detesta boca de adulto. / A bola de gás sonha em viver no céu, para sempre.

A bola de meia marcou a minha infância e o dedão. E graças as bolinhas de gude, ganhei sorriso da menina que me deu bola.

O mais antigo Bloco de Carnaval do Rio de Janeiro (1918) é o Bola Preta. De presença marcante. Deslumbrante. E por falar em Bloco, com 18 anos (1949), tive o privilégio de desfilar no magnífico, saudoso, Bloco Bola Alvinegra, do Santos F.C. Popular e clássico, muitíssimo bem ensaiado, imponente, comovente.  Cantávamos a belíssima marcha-rancho “O Bola nasceu do Santos / Numa noite de alegria”, de autoria do inspirado violonista Mazinho.

Quanta bolação! Tem a bola da vez. Craques comem a bola. O ricaço, prosa, está com a bola cheia. Eu já estive pela bola sete. Aquele que deu tremenda gafe, pisou na bola. O amalucado sofre da bola. O presidente trocou as bolas. A dívida rolada é bola de neve. Bater uma bolinha é cafonice. A testemunha de acusação, veemente, pôs a bola no chão. A passista rebola. Falar em fazer um bem-bolado é lugar-comum, horrível, falta de imaginação. O cara que não ata nem desata é um bola-presa. Diz-se que o corno recebeu uma bola nas costas. A bola de rugby, oblonga, é a prima esquisita. A bola quadrada tem história. Quem nunca comeu o tradicional queijo-bola? Vistes o tatu-bola? E o bolão da mega-sena vai nos salvar com uma boa bolada. A vidente usa bola de cristal. E bola na trave, na gíria, significa que quase aconteceu o que tentamos fazer com esforço. Tem bola de ginástica (pilates). Bolar é inventar. O malabarista se exibe com bolas para pegar uns trocados. Pisar na bola é não fazer o combinado. De tão redondo, o gordo parece uma bola. E bola-gato sinônimo de sexo oral.

Chiquinho, perna-de-pau, não fosse o dono da bola, não jogaria. No Natal, ganhou uma número cinco, passou a capitão do time.

A inesqueçivel Revista CARETA, obrigatória nos salões de barbeiro, marcou época com o bolachudo Bolão. Quem lembra do inocente trio: Reco-reco, Bolão e Azeitona?

O genial pensador, antológico humorista Barão de Itararé, perguntou aos estudantes o nome de um afluente do Rio Amazonas e qual a maior cidade do mundo. Ninguém soube responder. Prosseguiu: “Qual o animal que “defecaga” redondinho e o que “desova” em pelotas grandes? “ Todos sabiam: a cabra e o elefante. No que mestre Barão concluiu: “De geografia vocês nada sabem, só entendem de merda”.

Sei que o achado do mestre D’Carlos visava a importância da bola que serve para inúmeros jogos, move multidões no mundo todo e envolve milhões em dinheiro. Futebol, patrimônio cultural nacional, lidera. Tem alma própria. Dá aos pés destreza, faz inveja às mãos. Assim, no DIA MUNDIAL DA BOLA, shows de gênios, genialidades e histórias inusitadas, tristes e engraçadas. Representará o quanto de apaixonante, alternando ódio e amor, mesclando situações reais e imaginárias, a resgatar lances magistrais, garimpando o imenso campo de memórias pelos meandros do futebol, basquete, vôlei, beisebol, boliche, golfe, squash, tênis, pingue-pongue, hóquei, polo, handebol, bocha, sinuca, arremesso de peso e sabe-se lá! Já pensou quando for exibido o campeão de bilboquê? Mágicos sumirão com a bolinha de papel.  Malabaristas abusarão, deixando a platéia perplexa ao fazer malabares com doze bolas. Um garotinho de apenas cinco anos dará espetáculos, fazendo lê-lê, até esconder a bola em embaixadas. Vovó vai chorar. Os amigos pagarão ao pai uma rodada de cerveja no boteco da esquina. Mas só a mãe lembrará que o filhinho merece uma bola de sorvete. E se calhar, num oportuno trocadilho, o vinho italiano “Bola” poderá patrocinar o evento.

Mas de todos os esportes o mais significativo mesmo é o futebol. Muito mais que o profissional ou o amador, é a bola que une o mundo em peladas, em qualquer lugar. Moleques, bombeiros, lixeiros, professores, executivos, motoristas, coveiros, todos adoram chutar uma bola. Vi um senhor bem-vestido, de gravata e tudo, sapatos engraxados, atravessar a rua e dar um bico numa laranja. É a verdadeira linguagem universal. Nem a instituição futebol é mais significativa. No campinho, na areia, na lama, no asfalto. Vários idiomas tornam-se secundários. São os pés que conversam com a bola. Misturam-se raças, credos, classes sociais, faixas etárias. E todos se entendem até no desentendimento. Nego Lando, na hora de tirar par ou ímpar no jogo dos estivadores de Santos contra os do Rio, esclareceu ao juiz: “Nóis é locais”. Éh! A bola de futebol tem história. “Há mil anos, na Europa, os camponeses jogavam com uma bola rudimentar, cuja composição variava segundo a região: simples bola de feno, esfera de vime ou ainda bexiga de porco inflada, eventualmente revestida de couro”.

No Grande Dia, se me chamarem para dar depoimento sobre pelotas, vou lembrar do paciente com problema de próstata. Respondeu ao médico que quis saber como estava o seu jato de xixi que eles chamam de micção: “Jovem, eu rachava uma bola de gelo ao meio com um jato. Hoje, não empurro nem aquelas bolinhas de naftalina no mictório”.

O mundo é um grão-de-bico sem bico. Em março de 2011, Misaki Murakami, 16 anos, teve sua casa engolida pelo tsunami que abalou o Japão. Seus parentes morreram. Pertences foram sugados. Ele sobreviveu.  Um ano depois, no litoral do Alasca, o casal americano David e Yumi Baxter, encontraram uma bola que pertenceu ao Misaki. Nela a frase: “Força, Misaki Murakami”. Fotos da bola foram publicadas em todo mundo. O adolescente Misaki a reconheceu e a resgatou, porque o enorme planeta Terra não passa de uma ervilha.

Agora, na revisão deste texto, acabo de saber que o nome oficial da bola para a Copa de 2014 é “brazuca”. É ruim, agravado por “z”. Não sei se é melhor que “gorduchinha”, apelido desastroso, também sugerido. “Brasuca”, com “s”, seria o brasileiro “mixuruca”, pejorativo pelo sufixo “uca”. Mas se é pra debochar, melhor chamar de “abelha”, pelos extremos. Voa. Zumbi certa ou incerta. A rede é uma colmeia.  No gol de letra é mel. Na ferroada do zagueiro, pica.

“Ora Bolas” é locução interjectiva de vários significados, entendidos conforme a inflexão no dizer. Aqui, o título é de “ora pois!”, de espanto, afirmação para o que estou escrevendo.

E se é para ficar perplexo, em relevância, há que destacar a “Casa Bola”, projetada, construída e aperfeiçoada a partir de 1974, pelo louco-lúcido, genial arquiteto paulistano Eduardo Longo. Está situada próximo à av. Faria Lima, voltada para rua Amauri. É um privilégio conhecer a casa e o visionário criador.

“O maior espetáculo para o homem ainda é o homem”. E a bola é espetacular. Basta admirar as grandes bolas: o Sol, a Lua e o Planeta Terra, melhor visto de fora, em face de tanta degradação interna.

Capramim, o mais importante é a letra da minha marcha-rancho, premiada:  ESFERA DA VIDA, gravada pela OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. (Música de Alcides Gonçalves).

Enfim, de todas as bolas, a mais impressionante e misteriosa é o meteoro, bola de fogo que risca o céu. Bólido, deixa rastro luminoso. Para onde?

<.>





ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...