jeudi 31 juillet 2014

Belô Poético deixa saudades e lições



O Belô Poético deixa saudades e lições de que é possível empreender cultura e literatura com cooperação, mais calor humano que capital, mais positividades que poderes, no âmbito dos indivíduos e sociedade civil.
Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão, escreveu:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis

Durante um decênio, o Belô Poético contou com esses três tipos: houve aqueles que ajudaram num episódio e foram bons, houve aqueles que integraram comissão organizadora ao longo do ano, e esses foram melhores. Houve ainda aqueles que desde 2005, quando do 1º Belô, ajudam na organização, e esses foram muito bons. E há pessoas como Rogério Salgado e Virgilene Araújo, que lutam a vida inteira, esses são imprescindíveis. 
Muitos de nós, somos “carona”, usufruindo do esforço alheio, mas me consola saber que engajamento não se obriga e que todos somos seres em evolução moral. Em breve relato, o poeta Rogério Salgado nos contou sobre caso exemplar, que explicita bem a responsabilidade de cada um. Certa vez, foi organizado um sarau com o objetivo de arrecadar donativos, apareceu um ou dois poetas; mas quando se organizava um sarau convencional, com pompa e aplausos, abundavam.
O Belô passa uma lição que serve para todos os grupos literários, qual seja, de que por mais que haja uma injustificada competição, neste precário campo das letras, ela nunca será melhor que a cooperação, o congraçamento literário, afetivo, humano, que é besteira brigar por migalhas, que estamos no mesmo barco, e que é melhor matar saudades que favorecer disputas e desgastes, sem também forçar amizade.
Outra lição é que, de fato, há ciclos na vida, assim como há ciclos naturais, de forma que um fim nunca é um fim em si mesmo, mas o começo de algo novo. É isso o que quis transmitir o palestrante Paulo Pina, na abertura do 10º Belô Poético, em oratória impecável de linha humanista-cristã, que muito me agradou. Ao longo da vida, trocamos de pele, renovar é um movimento irresistível, a fim de manter a saúde.
            O Belô serve de exemplo de que é possível empreender efemérides, publicações, solidariedade, através do cooperativismo artístico, onde todos saem sentindo-se engrandecidos e realizados. Dado o exemplo, agora, cada um de nós pode caminhar com as próprias pernas, sendo a autonomia do indivíduo outra lição do Belô. Ensinar a pescar e engravidar possibilidades, como diz o poeta Diovani Mendonça, homenageado na abertura do evento, assim como Severino Iabá, multiativista.  
Como se não bastasse, outra lição do Belô é da importância do intercâmbio cultural com movimentos, grupos e pessoas de outras cidades, fora do nosso espectro geográfico-mental. É uma forma de desengessar o olhar, arejar a cabeça, conhecer novas culturas, experiências, possibilidades, sendo o último dia de todos os dez episódios do evento, dedicado a um passeio fora de Belo Horizonte, com saber e sabor.
O aspecto humano também é importante ser ressaltado: o Belô Poético, geralmente chamado de “evento”, sempre foi mais do que isso, isto é, ele nunca foi efêmero propriamente, mas sempre uma continuidade de uma irmandade poética, um constante reencontro de poetas esperado todos os anos, algo que durava dentro de cada um. Também não era mais um evento fast-food (acabou, passou), estandardizado, espetacular, mas poroso às contingências e sensibilidades, mais humano. Os participantes, ao final, senão transformados, saíam sensibilizados, solidarizados, irmanados. Já os organizadores, cansados, mas cansaço bom, de quem travou o bom combate, que merece nosso apreço e compreensão. 
A melhor forma de ser fiéis ao espírito emanado do Belô Poético, talvez seja aprendermos a caminhar com as próprias pernas como indivíduos e sociedade civil; cooperados, que isolados nada realizamos; arrefecer egotismos e cultivar virtudes; sair do comodismo atrofiador, obrar o bem. Tempo foge, vida passa, ‘vai a idade’, o Belô nos deixa sim saudades, mas também exemplo aos nossos empreendimentos e desdobramentos presentes e futuros.

Vinícius Fernandes Cardoso,
Poeta, 28/07/2014

Foto/imagem: performance “No Brasil tudo acaba em...” com Rogério Salgado e Virgilene Araújo

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