lundi 23 juin 2014

Crônica da Urda

SOBRE VIRA-LATAS


(Escrito em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso))

O cachorrinho da filha da minha amiga Ângela morreu, e a menina está sofrendo um monte. Ângela estava me contando a história dos cachorrinhos da filha: já tivera bem uma meia dúzia de finos filhotes de raça, e todos morreram de coisas bobas, como gastrite ou reação a vacinas. O drama começou anos atrás, quando Ângela morava lá longe, em Rondônia, e sua filha ganhou o primeiro filhote de raça. Depois do sofrimento de perder uns três bichinhos de estimação, uma pessoa lá de Rondônia disse para Ângela:
– Por que vocês não arranjam um vira-lata?
Arranjaram, e foram felizes com ele. Perguntei a Ângela:
– E de que morreu o vira-lata?
– O vira-lata não morreu. Ficou lá em Rondônia, quando nos mudamos. Está lá, lépido e feliz.
Aconselhei Ângela a arranjar outro vira-lata, que não vai morrer de coisas bobas e que será companheiro da sua filha até morrer de velho. E, ao lembrar dessa resistente raça de cachorros que se cria em qualquer canto, que parece brotar sozinha do chão, acabei refletindo um monte.
Assim como os vira-latas, o nosso povo brasileiro é fortissimamente resistente às adversidades. Geneticamente, as duas raças têm origens semelhantes: resultam do cruzamento de todas as possíveis raças existentes neste mundo. Se olharmos para os cachorros vira-latas, veremos que eles tomam todas as formas, todos os feitios, apesar de continuarem tendo as características básicas de quatro patas, um focinho, dois olhos e um rabo. Nosso povo brasileiro também tem todas as formas, feitios e cores – viajando-se pelo mundo, jamais se sabe quando se encontra um brasileiro – um brasileiro pode ter qualquer cara, qualquer cor,  qualquer tamanho.
Andréia, a moça que me vendeu as passagens para a mais recente viagem que fiz, estava me contando o valor dos passaportes brasileiros roubados: passaporte brasileiro tem altíssimo valor entre os ladrões, entre os que querem viajar incógnitos. Num passaporte brasileiro pode-se colocar qualquer fotografia combinando com qualquer nome. Numa fronteira, jamais se saberá se o nome de ‘João da Silva’ ou ‘Ingo Pfuetzenreiter’ deverá ter uma cara de preto, branco, japonês ou qualquer outra. Somos internacionalmente conhecidos como um povo vira-latas, e temos a resistência desses bichinhos que se formaram a partir de todas as heranças genéticas possíveis. Vejamos.
Qual outro povo, como o nosso, agüentaria o tranco de passar por todos os Planos Econômicos que passamos nos últimos vinte anos, e sair deles sem problema, curtindo a alegria do Carnaval e da vida como se nunca tivesse sofrido uma adversidade? Qual outro povo, como o nosso, conseguiria fazer piada de tudo, das boas e más coisas, e ser alegre mesmo nas piores horas? Somos um povo intrinsecamente para cima, um povo que conta piadas em velórios e ri porque está sem dinheiro; temos uma alegria única no mundo, e sobrevivemos às piores crises com um jogo de cintura invejável. Há que se ser um povo vira-latas para sobrevivermos a todas as adversidades que este País nos fornece – tento imaginar o brasileiro como um povo de pedigree, morrendo de reações a vacinas e outras coisas bobas – já teríamos sido extintos fazia tempo. Graças a Deus temos a resistência dos vira-latas, temos aquilo que os antigos diziam ser “couro duro”, estamos sempre prontos a enfrentar mais alguma loucura dos nossos governos  e sobreviver, e rir e fazer piadas sobre a ultima crise.
Graças a Deus, esta nossa raça brasileira é muito e muito vira-latas. Este caldeirão de etnias que se formou no Brasil foi a melhor coisa que aconteceu ao nosso País; resultou nessa gente linda, inteligente, resistente, criativa que nós temos; tornou-nos um povo único sob o sol. Eu tenho o maior orgulho de ser uma brasileira vira-latas (tenho seis etnias misturadas). Vejo uma porção de gente, ao meu redor, tentando conseguir passaportes alemães e italianos, usando as prerrogativas de serem descendentes de tais povos, e fico abismada: para que querer um passaporte estrangeiro, se temos a ventura de sermos brasileiros? Jamais iria atrás de um passaporte desses; orgulho-me do meu passaporte brasileiro, passaporte de vira-latas, graças a Deus!
É maravilhoso pertencer-se a um povo como nosso!



Blumenau, 11 de fevereiro de 1997.
Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR

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