lundi 16 juin 2014

Crônica da Urda

REVIVENDO  4

                                   (Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

                                    Fui ver, também aquele nº  351 daquela avenida onde trabalhávamos, onde nos conhecemos. Está lá, ainda, aquele mesmo prédio de três pisos onde tanta coisa aconteceu, as mesmas janelas por onde nos víamos, eu a olhá-lo lá de cima, fumando um Hollywood, tão lindo dentro da sua camisa laranja, você a espiar para cima para me ver espiando dentre as persianas – é bem verdade que maquiaram o prédio, tentaram dar-lhe uma cara de Fritz, coisas bobas tão comuns na nossa cidade, e aquela arquitetura original da década de 1960 ficou escondida, mas ainda está ali o jardinzinho, os poucos degraus, nuances e eflúvios do tempo mais mágico da vida, e foi como se o seu fusca verde água ainda estivesse estacionado ali ao lado da calçada, ou, quiçá, na ruazinha da frente, me esperando à saída do serviço para juntos caminharmos pela natureza úmida e verde deste vale que nos gerou – tinha nas mãos a sensação das suas mãos seguras e firmes a me guiarem por dentro da felicidade, como nunca deixaram de guiar...
                                   E meus olhos perpassaram ao redor, olharam como é lá hoje, e onde havia a antiga feira livre com suas barraquinhas de madeira manchada por fungos, dentre as quais eu atravessava para chegar ao serviço, naquele tempo em que ali viviam ratazanas enormes que fugiam de susto ao som dos passos da gente, hoje existem grandes prédios que penso que estão cheios de aparelhos de telecomunicações. Nada mais é igual por ali, e nem mesmo existe mais o restaurante da Dona Ruth na esquina, o Maringá onde também morava o meu amigo Horst Haskel, onde havia vidros de Rollmops sobre o balcão e onde jovens rapazes que ainda estavam a descobrir a vida e que conheciam a tecnologia de ponta daquele tempo, se reuniam nos finais de tarde para beber, em pequeninos copos, um licor de aguardente com casca de abacaxi que era a especialidade da Dona Ruth. Eram todos tão jovens, tão bonitos, tão amigos – onde estarão todos agora? Sei de um que joga interminavelmente um enfadonho jogo no facebook, e cuja imagem jamais teria reconhecido se não estivesse lá o nome completo. Sei daquele, a gastar os que poderiam ser profícuos dias de uma aposentadoria naquele jogo interminável, como um personagem de Kafka – onde estarão os demais?
                                   E sei de você, que ficou lá atrás, como se tivesse dado um passo inesperado para dentro de um abismo de espaço e tempo, mas que nunca deixou de estar aqui e estar presente, mesmo que o tempo se alongue em décadas e décadas, pois através de mim você sempre está aqui e vive, pois se fiquei para trás foi para que você continuasse sendo e vivendo e hoje pudesse ser mais que alguém como um personagem de Kafka.
                                   Então, carro parado diante daquele nr. 351, saí e atravessei a rua, e andei por ali e aspirei os aromas de um dia, e de novo era como se eu tivesse um vestido estampadinho de vermelho e branco e uma bolsa vermelha que a minha mãe havia feito, e senti o descompasso no coração ao vê-lo de novo ali, com o Hollywood na mão, a camisa laranja e continuo achando que aquele que meu deu de novo é o sorriso mais lindo do mundo, como achava então.
                                   Só o amor permite estas revivências.

                                   Blumenau, 15 de Junho de 2014.

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR.


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