mardi 22 avril 2014

Crônica da Urda


                                   MEU CACHORRO ATAHUALPA (3)


                                                           (Para Alice Klueger Bezerra)

                                    Atahualpa está completando seis meses nesta semana, e até parece festa de aniversário o que aconteceu hoje. É bem verdade que na semana passada ele conheceu um cavalo – estávamos a uns cinqüenta metros do cavalo quando o vi, e então chamei a atenção do meu cachorrinho, até que ele se deu conta daquele bichão lá adiante. Como saudável cachorro que é, Atahualpa transformou-se numa linha retesada entre focinho e rabo, apontando para aquele ser que, no mínimo, na sua imaginação de cachorro, deveria ser parente de Deus, e pôs-se a latir em altos brados. Foi tudo o que aconteceu – cumprida sua obrigação de cachorro, ele não avançou um passo sequer em direção àquele monstro, decerto aterrorizado por descobrir que havia uma coisa assim no mundo. Tive que pegá-lo no colo e levá-lo até o cavalo, que estava bem seguro por detrás de uma cerca. No meu colo, Atahualpa perde o medo de tudo, até do cachorrão que o mordeu, uma vez, quando era pequenino – e então, no meu colo, ele suportou numa boa ser levado até diante do focinho do cavalo, que o cheirou e fungou sobre ele – a bem da verdade, há que se dizer que Atahualpa estava com o impressionante rabão entre as pernas.
                                   Então, na tarde de hoje, como se fosse uma festa de aniversário, saímos a passear pelas estradinhas deste lugar chamado Nova Rússia, a vermos ribeirões, riachinhos e nascentes, e o pequeno cemitério onde ele se deliciou a correr e latir entre os pouco túmulos, e depois voltamos à estradinha, e – meu, o que terá passado pela cabeça do meu cachorro quando viu aquilo? Numa curva da estrada, também devidamente seguro por detrás de uma cerca de arame, havia nada mais nada menos que um baita touro malhado de branco e alaranjado! Com um olho, Atahualpa espiava para mim, e com o outro, espiava para aquela monstruosidade, enquanto latia como se o fizesse para salvar a vida. Ele já passara pela experiência do cavalo na semana passada – espiava, agora, para ver a minha reação diante daquela novidade inimaginada. Quando me viu fazer sinal de que não havia perigo, que aquele era um bicho bom, Atahualpa quase ficou rouco de tanto latir no imenso touro, que o olhava com o maior desprezo, como se olhasse para uma formiga!
                                   Se havia um touro, é porque deveria haver vacas, e elas apareceram logo na curva seguinte, um pasto com umas quinze vacas as mais mestiças possíveis, o que deve ter criado a maior confusão na cabeça do meu cachorrinho.  Será que aquilo era tudo a mesma coisa? Aqueles animais chifrudos e os outros quase sem chifres, era tudo bicho decente, em quem se poderia latir? E por que será que umas eram avermelhadas, outras malhadas, outras barrosas, e assim por diante? De novo ele me espiou com um olho até eu lhe fazer saber que se tratava de bons animais, e de novo ele se esgoelou em latir, enquanto continuávamos pela estradinha, até que, uma ou duas curvas adiante, apareceu coisa muitíssimo mais estranha.
                                   Com tantas nascentes naquela área, é normal que diversas casas tenham lagos no jardim, mas de bichos de lagos Atahualpa só sabia de peixes, sapos e rãs. Que era aquilo ali, então, dois bichos baixinhos, de formato estranho, que o espiavam na maior desconfiança? Eu sabia que se tratava de grandes marrecos, e talvez aqueles marrecos já tivessem tido experiências más com outros cães, não sei – o fato é que estavam bastante desconfiados... e o meu cachorrinho, então, nem se fala! Rabo e focinho retesados, ele se aprontava para não sei que defesa, sem a menor coragem de chegar perto, latindo angustiosamente. De novo tive que pegá-lo no colo para ele perder o medo, e levá-lo até à cerca daquela casa. Os marrecos não gostaram nada nada daquela aproximação – orgulhosamente, entraram no lago e saíram nadando até bem longe, com o maior olhar de desprezo que conseguiram, deixando meu filhote atônito e abobado de tanta fascinação por aqueles seres que não mergulhavam como as rãs.
                                   Atahualpa está fazendo seis meses. Acho que é mais ou menos assim que são as festas de aniversário dos cachorros!


                                                           Blumenau, 03 de abril de 2008.




                                                           Urda Alice Klueger      

"Eu me dei conta de que cada vez que um dos meus cachorros parte, ele leva um pedaço do meu coração com ele. Cada vez que um cachorro novo entra na minha vida, ele me abençoa com um pedaço de seu coração. Se eu viver uma vida bem longa, com sorte, todas as partes do meu coração serão de cachorro, então eu me tornarei tão generoso e cheio de amor como eles."  (Autor desconhecido) 

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