vendredi 14 mars 2014

Crônica da Urda

REVIVENDO 3

(Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

Foi um único dia, melhor, madrugada, em que, com mais pessoas, saímos para pular Carnaval num lugar chamado, creio “Clube Dr. Blumenau”.  Pelas minhas lembranças era 12 de fevereiro de 1972, e eu tinha 19 anos. Na verdade, o Carnaval não importava muito, e sequer entramos naquele salão. Ficamos no carro verdinho claro, ouvindo músicas como “Marie Jolie” e conversamos as mais diferentes coisas, enquanto lá dentro do clube lotado as pessoas dançavam e cantavam a música que fala de Arlequim e Colombina. Ao invés de Carnaval, naquela noite, o que nos aconteceu foi, pela vez primeira, ver espocar os mais maravilhosos fogos de artifício do mundo ouvindo o ruído de uma cachoeira.
E então a vida seguiu e tanto aconteceu, mas tanto, que eu quase já não lembrava algumas coisas de quando tinha 19 anos, mas andava inquieta, querendo redescobrir onde fora esse Clube Dr. Blumenau, que hoje já não existe mais. Então, neste feriado de Carnaval, encontrei uma pessoa muito velha daquele bairro, e pesquisei com ela, já que os mais jovens não têm lembrança de que um dia existiu um clube assim. E com toda a facilidade a pessoa essa pessoa mais velha me explicou:
- O Clube Dr. Blumenau? Era ali onde hoje é a escola!
Céus, bem onde hoje é a escola, uma escola cheia de vigilância, onde feroz guarda não deixa entrar nem um mosquito não autorizado, quanto mais uma mulher com um cachorro! Naquele lugar se cantou e se dançou no passado, e ali se podia ouvir “Marie Jolie” dentro de um carro parado, e a rua movimentada era uma estradinha sem calçamento, e grandiosos sentimentos avassaladores cabiam ali e coloriam a madrugada em cores que nunca se desvaneceram... então era ali, ali mesmo, no lugar da escola!
Dirigi o carro até ali, fiz a volta, parei do outro lado da rua, aspirei profundamente, tentando sentir se ali ainda estava uma molécula que fosse daquele ar lá do passado – e há, sim, os sinais estão ali, como aquela árvore que ficou no meio da rua enquanto o bairro crescia no seu entorno, e uma casarão rosa e outro amarelo ainda são daquele tempo – só o coração para trazer tais lembranças naquele espaço agora todo ocupado, que tem creche, igreja, e todo o tipo de construções modernas, inclusive um edifício alto e um banco. Inadvertidamente, por ali passei mil vezes sem descobrir que fora naquele lugar.
Então hoje, atenta àquele espaço que só vira uma única vez e no escuro da madrugada, pude sentir como vinham, em ondas, os sons do salão, que diziam de “Quanto riso, oh! Quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão! Arlequim está chorando pelo amor da Colombina”, e como estava de novo dentro daquele carro verdinho claro onde o universo inteiro cabia e ficava encantado com “Marie Jolie”, encantamento tão grande que já não cabia mais dentro de mim, de nós, a ponto de termos fugido dali para vermos o espocar colorido dos fogos de artifício que ainda nunca víramos!
Clube Dr. Blumenau, carnaval de 1972, começo de vida, de vidas, onde ficou tudo? As pessoas já nem lembram, mas dentro de mim as lembranças são tão fortes que aquela árvore no meio da rua e os dois casarões antigos tudo puderam trazer de volta como se o tempo não tivesse passado. E quase ninguém nem sabe mais que ali, um dia, se dançou e se pode ser tão feliz que nunca acabaria!
Assim é o amor.

Blumenau, 03 de março de 2014.

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR.

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