mercredi 8 janvier 2014

DESTINO

Seu Marcondes acordou, como era de costume, com o baque surdo do jornal de domingo contra a sua janela. A vizinhança costumava dizer que o pedreiro que fez a casa gostava da mulher do seu Marcondes e que o fulano colocou aquela janela grande, voltada para a rua, com o único objetivo de facilitar seu acesso aos encantos da Dona Matilde. Maldade do povo esse boato porque, na verdade, a mulher não possuía encanto algum. Seu Marcondes, viúvo há algum tempo, nunca ligou para nada disso: nem para os boatos, nem para a dona Matilde.
A jornalzada na janela livrou o Marcondes de um pesadelo terrível, coisa que não lhe acontecia há mais de 20 anos. Viu gente estranha durante toda a noite num sonho ruim. Uns completos desconhecidos desfilando diante dele, todos muito sérios, muito altos, cinzentos, usando roupas velhas e amassadas. Parecia um cortejo fúnebre.
Seu Marcondes se lembrava de estar sentado numa cadeirinha de vime que ele nunca teve, no meio de um descampado, olhando esse povo esquisito que parecia surgir do nada, como fantasmas, e que vinham se aproximando dele bem lentamente, deslizando pelo chão. Uma corrente de ar frio seguia os espectros. A princípio pareciam não notar sua presença, mas lá pelo final do pesadelo, aproximaram-se mais e arriscaram umas olhadelas, até que um deles chegou para o seu Marcondes e falou com uma voz baixa, cavernosa. Voz do Christopher Lee em filme de vampiro dos anos 40.
“Você morre neste Domingo, dia 2 de setembro, às 10 da noite.” – Ficou olhando para Seu Marcondes, constrangido. – “Desculpe a franqueza.”
“Tudo bem.” – Disse seu Marcondes com um sorriso tenso, meio sem saber o que responder depois de ouvir uma barbaridade daquelas.
Acordou com as manchetes da manhã de Domingo sendo atiradas contra sua casa. Sentado na cama ele coçou a cabeça, ainda com a sensação angustiante de estar encarando aquela pessoa do sonho. Bocejou e olhou para o chão. Nunca fora um homem supersticioso, apesar de ter uns pezinhos de arruda e de guiné plantados no jardim, perto do portão. Também pendurou atrás da porta um chaveirinho com letras chinesas comprado na loja de 1,99. Nem desconfiava o significado delas, mas a nora achava bom deixá-las ali. E a nora freqüentava centro espírita.
Como todo bom brasileiro, Marcondes tinha muito respeito por tudo aquilo que dizia ser besteira.
Finalmente ergueu-se de um jeito preguiçoso, foi arrastando os chinelos pelo corredor até o banheiro e continuou pensando no aviso. Ele já chamava o sonho de aviso.
Olhou para o relógio e viu que eram oito e meia da manhã. Tomou banho, barbeou-se, comeu só um pedaço de pão com manteiga e deixou para tomar o café no bar, como sempre fazia. Nem quis ler o jornal. Colocou a boina e olhou de novo para o relógio, meio ressabiado e confuso, em dúvida se a hora fatal seria ainda de manhã (faltavam agora só mais quinze minutos para as dez). Não, não, o cretino disse dez da noite, ele se lembrava direitinho, sim. Não que isso fosse importante, afinal, era só um sonho.
O problema era que, por mais que o seu Marcondes tentasse negar, estava preocupado e jogava uns olhares desconfiados por toda parte, como se estivesse prestes a topar com a Morte, assim como ela aparecia nos filmes, com capuz e foice, acenando para ele. Acabou passando pela banca de jornais e pela mercearia sem dar a sua paradinha habitual. Baixou os olhos para a calçada e continuou andando e resmungando sozinho.
Percebeu que já estava chegando ao bar e diminuiu o passo, entrou e se acomodou no balcão. O dono do bar trouxe o café do jeito que ele gostava e comentou sobre o jogo de futebol e sobre a falta de dinheiro. Seu Marcondes não estava se agüentando. Ele queria era falar sobre o pesadelo, mas não encontrava jeito de encaixar o assunto na pauta. Finalmente o dono do bar falou que queria sonhar com uns números bons para jogar no bicho e aí seu Marcondes emendou:
“Pois é, sonhar com número prá jogar, nem com reza brava! Em vez disso a gente sonha com coisa ruim...” – Seu Marcondes deu uma olhadinha para o dono do bar para ver sua reação.
O dono do bar respondeu com um “É” arrastado e o Marcondes ficou meio irritado porque o outro não entendeu que era para perguntar o que ele tinha sonhado. Resolveu contar mesmo assim, porque o Zé do Bar era lerdo.
“Sonhei com a hora da minha morte, você acredita?”
“Ah, essa não! Que horas vai ser?” – perguntou o Zé, achando que era brincadeira.
“Um sujeito esquisito apareceu no meu sonho dizendo que vai ser hoje, às dez da noite.”
“Ué, mas por que às dez? É prá não perder o futebol?” – Seu Marcondes estava ficando cada vez mais irritado com o dono do bar.
“Estou falando sério, Zé! Acordei até meio espantado, com má impressão. E olha que eu não sou disso...”
“Não esquenta, não! A gente sonha cada besteira! Um dia eu sonhei que tinha virado o Pavarotti e cantava ópera, aqui mesmo no bar! Olha que coisa...”.
“Uma coisa é sonhar que vai virar cantor, outra coisa é sonhar que vai morrer, Zé!”
“Mas eu não virei cantor! Você também não vai morrer!” – O Zé não estava querendo polêmica, ainda mais porque o time dele havia ganhado o jogo e se o mundo terminasse hoje, ele nem reclamaria.
Seu Marcondes pagou o café e não quis mais conversa, metendo-se pela rua afora, chegando à praça da matriz. Sentou no seu banco preferido e ficou olhando para o vazio, suspirando. E se fosse verdade? E se ele fosse morrer hoje? A idéia era terrível, embora já soubesse desde o nascimento que um dia partiria deste mundo, sem direito a revisão de prazo. E, segundo consta, sem aviso prévio.
Por que é que justo agora ele teve que ser avisado? Seria possível impedir ou retardar o fim? Se o idiota do sonho tivesse avisado também do que é que ele ia morrer...
Seu Marcondes coçou o queixo, lembrando que tinha feito seus exames há um mês e estava tudo em paz com seu coração, com a pressão, com o colesterol. Diabetes ele não tinha. Não fumava e, além de tudo isso, bebia pouco.
Vai ver que o problema era justamente a falta de vício! Ou será que era um câncer ainda não detectado, daqueles traiçoeiros? Morreria de atropelamento? Será? Justo ele, que só atravessava a rua depois de olhar para os dois lados, mesmo nas ruas de mão única.
Marcondes começou a sentir certa curiosidade mórbida, querendo saber de que jeito a morte o levaria, se ele sempre tivera uma saúde de ferro. Mas a especulação foi sendo substituída pela ansiedade e por uma certa tristeza, um sentimento de nostalgia pela vida que ele nem deixara ainda e da qual já sentia saudades.
Como seriam as coisas sem o café do bar do Zé e as conversas na quadra de bocha? Como seria não ver mais o sol nas manhãs de domingo na praça? O que aconteceria daí prá frente, se é que existia vida depois da morte?
Seu Marcondes nunca fora muito religioso, no entanto, agora sentia uma necessidade de ter a certeza de que havia esperança. Ou ter a certeza de que não havia nada e que a porcaria de morte era mesmo o fim. Acabou-se! Ele só queria ter uma idéia clara a respeito do que encontraria depois que sua hora chegasse, para não ficar desapontado ou espantado demais.
Isso fez a sua angústia crescer e ele se perguntou uma vez mais se o sonho poderia realmente se tornar realidade.
O mais provável é que amanhã ele acordasse para mais um dia comum, como fazia toda manhã. Talvez o Zé do Bar tivesse razão.
A voz do sujeito do pesadelo voltava a ecoar em sua mente e teve uma vontade louca de fazer algo grandioso, como uma obra de arte. Algo que ele pudesse deixar em vida para ser lembrado pelos seus amigos e parentes, pela população em geral. Não conseguiu pensar em nada que pudesse ser feito em tão pouco tempo, infelizmente. Continuou sentado na praça.
E o netinho? Não daria tempo de vê-lo. Mesmo que pegasse um ônibus neste instante, só daria para chegar à cidade onde o filho morava no dia seguinte. E se ligasse para ele, pedindo para que viesse vê-lo por causa do tal pesadelo, era capaz de passar seus momentos finais num hospital psiquiátrico ou asilo.
Era bom não preocupar ninguém. Assim era até melhor, porque saberiam do passamento dele depois. Daí diriam: “ele nunca quis dar trabalho...”, cheios de saudade e remorso.
Seria bom procurar algum inimigo para perdoá-lo? Pensando bem, não tinha inimigos que valesse a pena perdoar. Que pena.
Não dava mais tempo de fazer aquilo que deixara de realizar na juventude. Não sentia vontade ou condições de para sair por aí escalando montanhas, viajando pelo Brasil a pé ou qualquer outra loucura desse tipo.
Saber quanto tempo lhe restava para viver não dava a Marcondes qualquer tipo de vantagem, porque o aviso chegou muito em cima da hora. Então ele aproveitou o tempo na praça mesmo, tomando sol. O último banho de sol da sua existência.
Mas tinha uma coisa que ele podia fazer: há muito tempo que ele não comia moqueca de peixe. Sua falecida esposa sabia como ninguém fazer uma moqueca e sua excelência na cozinha tinha sido uma das razões que o levara a casar-se com ela. Aliás, a única razão.
Estava decidido: abriria mão da sua rotina para ir a um restaurante, para comer uma moqueca no almoço. Seu último almoço.
Exatamente às onze e meia da manhã, já com água na boca, seu Marcondes chegou em casa e trocou de roupa, vestindo seu melhor terno. Enquanto se olhava no espelho pensou se, mais tarde, poderia separar alguns papéis, arrumar algumas coisas, para ficar tudo organizado para quem o encontrasse após seu falecimento.
Saiu de casa sentindo-se bem, com a consciência de que estava fazendo a coisa certa. Andou por toda a cidade atrás de um restaurante que tivesse a tal moqueca no cardápio.
Depois de duas horas de busca ele finalmente encontrou um lugar que anunciava um cardápio de peixes e frutos do mar. Só não faziam moqueca. Cansado, seu Marcondes falou com o gerente, para ver se não havia jeito de fazerem uma moquecazinha apenas, porque ele estava louco de vontade! Tinha dinheiro para pagar, sim, não era problema. Finalmente partiu para a chantagem emocional e revelou que estava à beira da morte. O gerente não se comoveu, mas resolveu abrir uma exceção, já que estava com poucos clientes no estabelecimento, e pediu ao cozinheiro que preparasse a moqueca, que só ficou pronta uns quarenta minutos depois. Seu Marcondes, cheio de vontade, olhou para o belo prato, sentiu o perfume da comida, suspirou e já ia colocando a primeira colherada na boca quando algo horrível lhe passou pela mente: talvez a moqueca fosse o seu fim! Como ele gozava de ótima saúde e não havia muitos riscos de acidentes na casa em que morava, a única coisa que poderia matá-lo era, por exemplo, comida estragada.
Embora a carne do peixe parecesse apetitosa e a farofa molhadinha, o gerente abriu uma exceção para ele e talvez o cozinheiro não tivesse preparado o prato com boa vontade. Podia ser que ele tivesse misturado, na pressa ou com raiva, algum ingrediente com data de validade vencida. Ou o peixe poderia estar contaminado com algum produto químico que estava na água do mar e que agiria aos poucos, até matá-lo. Às dez horas da noite, em ponto.
Marcondes cutucou o peixe com a colher, olhou ressabiado para o arroz, deu uma mexidinha no molho usando o cabo da faca.
De repente perdeu toda a vontade de comer, mas não se sentia mal. Sentia-se mais vivo do que nunca, com uma esperança de ter enganado a morte, de ter descoberto seus planos macabros para acabar com ele! Ah! Danada! Te peguei! Comigo não, violão!
Seu Marcondes chamou o garçom e pagou a conta. O gerente achou estranho ele nem ter tocado na comida depois de ter feito tanto escândalo por causa da bendita moqueca. O cozinheiro ficou sabendo do caso e apareceu na janela que os garçons usam para retirar os pratos, só para dar uma encarada no cliente chato.
Seu Marcondes saiu do restaurante sentindo-se renovado, com uma vida inteira pela frente, salvo do almoço fatal. Suspirou aliviado, caminhou leve, sentou-se de novo na praça e olhou para o lindo céu azul e para as nuvens, porque a vida era maravilhosa!
O seu almoço de domingo foi um pão com queijo de Minas e uma saladinha, numa lanchonete respeitável. É do conhecimento geral que queijo de Minas nunca fez mal a ninguém e um pãozinho francês não tem calibre para matar cristão. Uma saladinha de palmito com tomate também não.
Seu Marcondes voltou para casa logo depois do lanche e passou o domingo, como era de costume, sentado diante da TV, vendo seus programas, cochilando uma vez ou outra.
Anoiteceu e o medo voltou ao coração do homem, que ficou acordado até um pouco mais do que o seu horário habitual, preocupado se o pesadelo se concretizaria ou não.
Mas era improvável agora, já que ele desarmara a bomba da moqueca, o quitute mortal.
Seu Marcondes olhou para o relógio que marcava nove e meia da noite. Engoliu em seco e foi andando devagar até o banheiro, para evitar escorregar, cair e morrer de traumatismo craniano.
Quando se deitou na cama olhou para o despertador: quinze para as dez da noite. Respirou fundo.
“Era a moqueca, só podia ser a moqueca...” – pensava ele. Rezou uma ave-maria, por via das dúvidas.
Faltando cinco minutos para as dez, sentiu a ansiedade crescer. Faltava-lhe o ar porque o medo era grande, o medo do desconhecido. E se aparecesse alguém para matá-lo? Aquela porcaria de janela voltada para a rua! Resolveu ficar muito quieto, como se a total imobilidade pudesse protegê-lo do olhar do Anjo da Morte.
Ouviu o ponteiro do relógio se mover. Já eram dez horas? Não sentia nada. O que devia fazer? Manter-se acordado? Largar-se, soltar-se e esperar para ver o que acontecia?
Seus olhos continuaram abertos por mais alguns minutos e depois se fecharam, vencidos pelo pavor. Podia ouvir as batidas do seu coração e isso só aumentava a desconfiança de que elas poderiam parar a qualquer momento.
Quando seu Marcondes abriu os olhos novamente já era de manhã e ele continuava imóvel, como quando se deitara ontem, dolorido por causa da tensão que o acompanhara durante o sono e cheio de maus presságios. Os ruídos lá de fora indicavam que ele continuava vivo ou que, pelo menos, conseguia ainda ouvir o barulho do mundo dos vivos. Depois, constatou que ainda respirava e tranqüilizou-se.
Seu Marcondes sentou-se na cama e suspirou. Coçou a cabeça, ainda desconfiado, e levantou-se lentamente, abrindo a janela em seguida. Sentia-se quase mal por não ter morrido, como se houvesse perdido a grande chance de sua vida. Afinal de contas, recebera até um aviso e, bem ou mal, estava preparado para o que deveria ter ocorrido ontem, na hora marcada.
Dificilmente, pensava ele, teria outro sonho como aquele. E daí? Daí que agora ele não era mais diferente de qualquer outro ser humano. A morte o pegaria desprevenido, a qualquer momento, exatamente como fazia com todo mundo.
Marcondes era mais um em meio à multidão dos condenados que ignoram quando serão levados para o Além. Talvez a história fosse outra se ele tivesse comido a moqueca. Ele almoçou uma no dia seguinte, com avidez, como se quisesse consertar um erro, porém, não adiantou. Ele continuou vivo. Deduziu que somente aquela moqueca específica do domingo é que teria dado cabo da sua existência. Estaria na paz de Deus, livre da preocupação de morrer!
A vida do Marcondes tornou-se um fardo para ele. Achava que estava vivendo além do que fora determinado, como um castigo, mais ou menos parecido com o de Adão e Eva. Os dois foram expulsos do Paraíso por comerem o que não deviam; seu Marcondes fora barrado no Céu justamente por ter recusado o prato oferecido e, por causa desse escorregão, era capaz de terminar no Inferno, comendo o pão que o diabo amassou.
Passaram-se cinco anos e Marcondes voltou a sonhar com o mesmo cortejo de estranhos e, novamente, o sujeito vestido de cinza aproximou-se dele. Ah, mas desta vez o talzinho levaria a dele:
“Olha aqui, seu cascateiro, eu não morri naquela data que você anunciou! O que você tem a dizer sobre isso?”
“Errei o ano.”
Seu Marcondes morreu de intoxicação alimentar, às dez horas da noite de um domingo, dia 2 de setembro, depois de ter passado um dia particularmente feliz na inauguração do restaurante do Zé do Bar, que ganhou na loteria e que foi aprender canto lírico no Conservatório de Tatuí. Seu Marcondes até notou que a moqueca que lhe serviram estava com um gosto meio estranho, mas não teve coragem de falar para o Zé, que assoviava satisfeito um trecho de “Falstaff”, de Verdi.



Ana Polessi

ANA POLESSI

Membro da Associação dos Escritores, Poetas, Pintores e Trovadores de Itatiba; é também artista plástica. Publicou trabalhos em jornais, venceu concursos de literatura e atualmente trabalha em seu segundo livro.

E-mail: lessiana@yahoo.com.br  

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