samedi 31 août 2013

ENDEREÇO

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA
PARA OS BLOGUEIROS DA ILHA

 Perdi (perdemos) o endereço de Deus.
Perdi (perdemos)?
Estará no bolso da calça, na segunda gaveta, no trapiche da Praia de Fora,
no   Parque da Redenção, na Praça Castro Alves, na esquina  da São João com
a   Ipiranga?
Perdi o endereço de Deus.
Estará escondido na clandestinidade, dormindo em quartos com cheiro de mofo – Neocid
para  as pulgas –, ou nos interrogatórios no DOPS?
Nas fugas apressadas?
Perdemos o endereço de Deus,
E  temos todos os aparelhos  eletrônicos,
da  China, do Paraguai, do Estados Unidos.
E sempre quereremos mais, mais,
cerveja  gelada anunciada pela loira gostosa, o carrão com a estrela da TV,
o  último produto – ansiedade perpétua, e continuaremos ansiando:
 e quando  chegar a noite, desmoronaremos.

Mamãe no fogão de lenha – tainha frita.
Papai – terno preto, chapéu, relógio de algibeira – vai ao mercado.
Turíbulos, matracas, incenso, a catedral escura: é tempo da Paixão.
(Das paixões).
Alfredo David sorri e toca na barba, Pepe gargalha e também ri,
Faço um acampamento com o Marcelo, Letícia organiza um encontro de família
Giocondinha  e Luiz fazem um brinde,
Patrícia oferece um café,
José escreve um artigo – óculos fundo de garrafa.
Cassinha – com aqueles olhos azuis – abre os braços e me beija
 quer  todos na  mesa  para o lauto almoço,
Tio Luizinho abraça mamãe.
E lembro o poeta: ”Nós, que vamos morrer,exigimos um milagre”.
Vulneráveis, tão mortais, e o mar nos espera.
O tempo de Deus não é o nosso, diz Miriam,
Cida faz um rosbife, Adélia borda, Terezinha prepara um piquenique,
Dorinha  convida para  o churrasco domingueiro,
Lourdes me dá um dinheirinho para a o cinema de domingo,
Ondina reza, Gracinha vai para o convento
(quero abraçar todos os meus irmãos homens),
ah, tantos domingos
Cine São José, Cine Rox, Cine  Ritz,
empadinha  com guaraná-caçula
na  Gruta de Fátima.

Perdemos o endereço de  Deus.
Peregrino para achá-lo:
estaria escondido em Brusque?
Vou atrás: pensões, viagens, portos, trens,
Paris, Berlim, Belém.
 Estaria Ele escondido na Igreja São Francisco,
em  Salvador?
No meio daquele Barroco, não consigo não chorar.
Ando, vejo o mar, o Pelourinho,
lembro de todos os pés que ali pisaram,
escravos gemendo,
Getúlio dá um tiro no coração, Jânio renuncia,
Jango enxuga o rosto,
Golpe Militar– foram 21 anos de minha vida.
Um arco- íris, uma gaivota, o “Miramar”,
Colégio Catarinense, um poema, Segunda Época em Matemática,
Padre Werner me confessa e me pacifica.
Onde encontrarei o  endereço?
Deus, Deus, Deus!
Estará no paletó que deixei na lavanderia?
 E espero – como se estivesse no SUS de todos os aflitos,
num  INSS  onde os peritos sempre  indeferem  os pedidos.
E escasseia o tempo,
Breve encontraremos algo – sim, encontraremos algo.
Deus, Deus, Deus:
sorrio,  pois  posso Contemplá-lo na Clarice –  engatinhando pela casa,
no  Lucas– sorrindo no berço,
é maio   na Ilha,  outubro em Brasília – e começam as chuvas,
em Salvador  contemplo  a estátua do poeta Castro Alves,
e  –  sempre  – o mar.
Célia sorri para mim – amor.
A luz que emana dessa manhã, seguirá comigo – para sempre.

“Há um caminho por onde passo/e outro que passa por mim//Um anda por meus passos/e não tem fim.//O outro é onde meus passos/perderam-se de mim.” 

A VIDA DE QUEM MORRE E A MORTE DE QUEM VIVE

Nazaré, 28-04-1974

Por Gilberto Nogueira de Oliveira


O moleque corria
Pela estrada abaixo.
Ia chatear as mulheres,
Que iam apanhar água
Numa fonte distante,
Para matar a sua sede.

O moleque muito atrevido,
Levantava-lhes a saia
E nada via,
Exceto pernas.

Perna ele tinha,
Via a qualquer hora.
O moleque queria
Era ver outra coisa.
Não sabia o que,
Não sabia explicar,
Não entendia dessas coisas.

Certa vez o moleque,
Andando pelos matos
Viu o que desejava.
Viu uma mulher nua.
Escondeu-se entre os arbustos
E se pôs a observar.
Sentia medo
Mas, era atraído por ela.
Talvez achasse esquisito
Mas, digno de olhar.
Quando sem esperar,
A mulher o descobriu 
E a ele chamou.
E o moleque foi lá,
E a mulher o abraçou,
E o moleque viveu,
E o marido chegou,
E o revolver puxou,
E o moleque morreu.

Morreu sim!
E que morte!
Morreu conhecendo a vida,
Que foi uma glória
Para um moleque como ele,
Que viveu conhecendo a morte,
Que morreu conhecendo a vida.

 

Crônica da Urda

As Armações de Baleia
                                  


Fico pensando nas muitas Armações que existem pelo litoral brasileiro. Eu só conheço três: a de Itapocoroy, a do Pântano do Sul e a de Garopaba (lá em Garopaba já não se usa a palavra Armação, mas tanto quanto sei, houve uma naquela enseada). Normalmente, são lugares muito bonitos e aconchegantes, e eu imagino a maioria de vocês a perguntarem: “Por que é que se chamam Armação? O que quer dizer Armação?”.
                                   Vamos ver isto. Lá pelo século XVIII e XIX, a iluminação da Europa (e de outros lugares) era movida a óleo de baleia. O óleo de baleia vai perder a sua importância com a descoberta da querosene, o que, por sorte, salvou as baleias que ainda teimavam em viver num mar coalhado de seus caçadores. E o lugar onde se “fritava” a baleia (claro que depois de picá-la toda em pedacinhos), eram grandes construções industriais que se chamavam Armações.
                                   Não pense você que alguma dessas Armações trouxe algum progresso ao Brasil – todo o dinheiro produzido por causa delas ia diretinho para os cofres de Portugal, não ficava nem uma moedinha aqui para a terra de Santa Cruz. O que ficou foram ossos, muitíssimos ossos de baleias que ainda restam nos jardins das casas das antigas Armações, e a lembrança levantada recentemente por uma pesquisadora da UNIVALI, Alejandra Luna, que descobriu que até a década de 1950 ainda se caçavam baleias na praia de Barra Velha/SC, e foi lá e pesquisou com os velhinhos, e nos trouxe uma realidade que me deixou pasma ao ler sua pesquisa, publicada numa das revistas daquela universidade. Segundo contam os moradores de Barra Velha, a morte de uma baleia pesteava totalmente uma praia por semanas e meses: o óleo da mesma se entranhava na areia, e tinha que haver muita e muita maré cheia e ressaca de mar para revolver e limpar a areia, sem contar que a quantidade de carne de um bicho enorme daqueles não tinha como ser comida por pessoas e cachorros das pequenas populações de então, e acabava apodrecendo, e deixando no ar o cheiro mais pestilencial que se possa imaginar. Então, uma Armação não era uma coisa tão idílica como eu havia pensado até então – outro relato que li me contou dos grandes tachos onde o toucinho da baleia era fervido, das emanações da fumaça acre, mal-cheirosa  e quentíssima, dentro da qual trabalhavam os escravos que ali passavam suas vidas.
                                   Pois é, os escravos. De tudo o que tenho lido a respeito deles na vida, com certeza a pior sina que tinham eram a de ser trabalhadores das Armações. Para dar conta dos pesados serviços de lá, eles eram escolhidos entre os mais jovens, os mais fortes, os mais capazes. Então, iam para uma das Armações, e como que lhes era sugada toda a sua seiva vital: trabalhavam até já não ter mais nenhuma força, nenhuma vitalidade, e então eram abandonados como que à deriva, nas imediações das Armações, sem comida, sem nenhum tratamento, e ficavam à espera da morte. Se algum mortal resolvesse lhes fazer a caridade de alguma comida, de algum abrigo, eles poderiam considerar-se com sorte – a grande empresa Capitalista que era a Armação, porém, agia exatamente como age o Capitalismo hoje: não estava nem aí! E havia outro agravante para a péssima qualidade de vida desses escravos: eles iam para a Armação enquanto jovens e cheios de saúde, e por toda a sua vida não tinham, nem uma vezinha, a possibilidade de algum contacto com alguma mulher. Há que pensarmos que um ou outro acabasse se agradando de algum outro bonito e saudável rapaz, e então preenchesse no coração a sua cota de emoção e carinho – mas a grande maioria, como em qualquer sociedade, deveria passar a vida ansiando por ter uma mulher para si. É difícil a gente imaginar vida mais ruim, não é? E eles não tinham a menor escolha.
                                   Então, hoje, freqüentamos as Armações e achamos tudo lindo, por lá. Os fantasmas dos nossos irmãos escravos, a estas alturas, já voaram para muito longe, para plagas melhores, e nós nunca nem pensamos que eles existiram. E comemos camarão com caipirinha sem o menor peso na consciência., naqueles mesmo lugares onde no passado houve o horror!


                                               Blumenau, 14 de maio de 2004.       


                                                Urda Alice Klueger

                                                Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

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