mercredi 15 mai 2013

ESCRITURAÇÃO AFETIVA

 (Tentativa de prosa Poética – com citações)

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

 PARA GERÔNIMO WANDERLEY MACHADO E FERNANDO EVANGELISTA VIEIRA
“O futuro não nos traz nem nos dá nada. Nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo.”
(Simone Weil)

Queria oferecer-vos a escrituração da jornada.
Sofrer passa, ter sofrido não passa – Léon Bloy

Perdemos a noção do tempo?
Tudo se evapora.
Nada mais vale a pena?
A hiper-realidade é tão perfeita em sua falsidade (TV e similares) que toda experiência real parece sem graça.
Você sente dores no pescço porque foi enforcado em outra encarnação – dizem alguns.
A asma é um pedido de socorro aos pais – acreditava Freud.
E a vida – onde ficou a vida?
Colecionador de funerais,
 queria me desapegar de tudo.
Os ex-idealistas não conseguem mais se reconhecer no espelho.
Venderam a alma ao diabo, mas o preço é caro.
Escrituração da jornada?
Que nada!
Meditações (apenas) de um velho moralista.
O tempo passou por cima de nós.
“Pare de reclamar”, exorta um promotor interno.
Não, não é queixa.
O sol, mais um dia, pássaros cantando no domingo – e alvorece.
(Escuto “Você se Lembra”, na voz de Geraldo Azevedo.)
Morangos, um menino e seu boné, um trapiche, cheiro de maresia, um roda-gigante, uma ilha que só existe – mítica – no teu coração.

Sou apenas efêmero – sempre.
Em certa hora, não estaremos mais aqui e a velhice chegou.
Ria!
(A biografia de um artista não explica, nem justifica sua obra, mas elas se comunicam, como diria Merleau-Ponty.)
Sim, ria!
(Salvador, abril de 2013)

A CABEÇA EM IONESCO


"Ah, cabeça! ah cabeça!" É falando que me apercebo de que as palavras dizem coisas. As coisas dizem palavras? Por que é que as pessoas nascem com cabeça? Então, as perguntas não estão mortas..." (trecho do monólogo final de VIAGEM À CASA DOS MORTOS), peça inédita de Ionesco, com trechos publicados no Brasil.

 Não sendo embora um filósofo, no sentido, digamos técnico do termo, mas teatrólogo, nem por isso deixa Ionesco, como grande homem de teatro, uma arte em que forçosamente a filosofia como concretitude, na argumentação e vivência da peça se mostra. Ele filosofa: "Todo homem, porque homem,  filosofa. haveria uma diferença entre a filosofia e exercer a si próprio e o filosofar no teatro e em outras ciências? Pois que sim.
Filosofia é a exposição, são as definições, é a parte expositiva daquilo que se chama de doutrina ou princípio; filosofar é exercer um direito e mesmo o dever de pensar, de conjecturar, de refletir. Não vale pensar sem consciência, ou pensar que se pensa, é preciso mesmo pensar. Não vai pensar se não se está certo no ato de pensar. Quem não filosofa, quem não pensa sobre o penar e o pensamento, pode saber teorias filosóficas: Não filosofa, e portanto não pensa.

Cabeça, aqui, não é a parte externa, física, no topo do corpo: é o pensamento, é a mente, é o ser interior, que, muitos chamam alma ou espírito e outros chamam, simplesmente, cabeça, Tenho cabeça e penso...
Deixemos.

Cabeça, aqui apenas exterioriza, é um necessário MEIO para que se faça o pensamento e se faça o pensar. Pensamento no Homem, exterioriza o que há dentro na substância ou essência (podemos, aqui, confundir esses termos e, até certo ponto, propositadamente) mostrando que o homem é CABEÇA. Uma filosofia legítima, vê que o homem é essência-substância-pensamento e existência pensante ou o pensamento no concreto existencial real..

Como Hegel: "Todo real é racional e todo reacional é real". Queria dizer filosofar
 é estar no real que se exterioriza, como viu Ionesco, na CABEÇA pensante.

Essência-existência estão sempre na base de todas as filosofias e de todo pensar. A CABEÇA, pois, em Ionesco, o pequeno trecho, é símbolo: Trata-se do que há dentro, informante e não mero órgão físico exterior.

Ao falar o homem, com e pela palavra, nomina e dá sentido às coisas. Só falando, privilégio do animal mais aperfeiçoado da natureza, o homem percebe que as palavras dizem (significam) coisas. Ah, então, há um sentido realista entre o falar-manifestação exterioizante - e as palavras? O homem fala palavra. A s coisas dizem palavras? Também as palavras estão imbricadas e implicadas nelas.

A s pessoas assim, nascem com CABEÇA, para pensar, falar, dizer, ver e saber as coisas. A s perguntas nunca estão mortas: Salvo se a CABEÇA( a mente interiorizante do homem) estiver sem a capacidade de perguntar por qualquer motivo, essencial ou existencial, ou sempre essencial-existencial... Ionesco sabe pensar: filosofar e, daí,
que a frase teatral "Ah, cabeça, ah, cabeça!" Pode ser completada no pensamento do grande pensador espanhol José Bergamin: "Um paradoxo é um paraquedas do pensamento.Faço paradoxos para não me quebrar os ossos". E Ionesco fez, como dramaturgo, um paradoxo lógico e lógico para o filosofar humano...
Ah, cabeça! Ah cabeça!

Germano Machado

 Salvador - Bahia, Brasil 08 de maio de 2013

Crônica da Urda


VEREDA TROPICAL



                                   É um grande terreno baldio bem no centro de Blumenau, coisa espantosa nestes tempos de especulação imobiliária. Eu passo muito ali, mas só comecei a prestar atenção num dia do último verão, no auge do calor, tempo em que parecia que todas as plantas do mundo, grávidas de sementes, preparavam-se para a reprodução.
                                   Naquele dia em que olhei primeiro, o terreno todo estava coberto por generoso capinzal de folhas finas, coisa assim de quase um metro de altura, explodindo de tanto verde, sendo que cada pé de capim tinha um longo fiapo carregado de espigas pejadas de sementes maduras.  Tudo era fino, leve e bonito, naquele capinzal; parecia-se com um quadro holandês do século XVII. E lá, pousado nos finos fiapos que sustentavam as espigas, um imenso bando de passarinhos se deliciava comendo as sementes maduras. Era uma barbaridade de passarinhos, penso que centenas e centenas, pequenos e finos passarinhos que deveriam ser muito leves, pois conseguiam pousar sem problemas naqueles fiapos de capim. Eu fiquei a olhá-los, e de repente eles devem ter se assustado com alguma coisa, pois saíram numa revoada, fizeram uma curva no ar – e, sossegados, voltaram ao seu banquete, os pequeninos pés pousados naqueles finos fiapos de capim cheios de espigas maduras. Olhei-os por bastante tempo, e por diversas vezes se assustaram e revoaram – mas sempre voltavam àquela seara generosa feita de sementes de capim. No outro dia eles estavam lá de novo, e no outro também.
                                   Um dia, os passarinhos sumiram – as sementes tinham-se acabado. Mas eu tinha ficado encantada com aquele capinzal que parecia até translúcido de tão verde, bem assim no meio da cidade, e não deixei mais de prestar atenção nele. E o verão acabou, e veio o outono, e o capim continuava lá, já um pouco menos viçoso, agora que passara sua época de reprodução. Imagino que os passarinhos não tenham comido todas as sementes, que muitas delas tenham caído ali no chão, prontas para hibernarem por alguns meses e nascerem na próxima primavera.
                                   E o outono foi fazendo seu trabalho de destruição. A cada dia o capinzal perdia um pouco do seu viço; a cada dia o seu verde ia ficando mais próximo do marrom. Dia a dia, acompanhei o que acontecia naquele terreno baldio.
                                   Um dia, o capim começou a cair, a morrer. E agora já não há mais capim, mas apenas uma palha escura e morta, agora que o inverno chegou mesmo. E então voltou aos nossos olhos o que houvera o tempo todo ali naquele terreno baldio: pedaços de plástico, de vidro, coisas de borracha, sobras de concreto – o lixo que as cidades produzem. Na minha mente, inclusive, ressurgiu o que houvera ali antes: um bar mal-afamado, chamado Vereda Tropical, que criava um certo escândalo na cidade, pois seus freqüentadores amanheciam o dia bebendo e às vezes punham-se a brigar já em plena luz do sol, quando esta é uma cidade que leva muito a sério a coisa da ordem e do trabalho, e se escandaliza  quando há quem não vá para as fábricas antes das cinco horas da manhã, e acha que desempregado é alguém cheio de preguiça. Tanto escândalo causou aquele bar que a sociedade constituída não descansou enquanto não lhe passou um trator por cima.  
                                   E então, a natureza, benéfica, foi lá e criou aquele emocionante capinzal cheio de passarinhos, para mostrar às pessoas que aquela esquina podia ser LINDA! Pena que o inverno chegou, e eu descobri que debaixo daquele capinzal há o que sobrou do tempo das raivas e dos preconceitos, que nas raízes das coisas belas às vezes pode haver as sobras das coisas ruins. Pode funcionar como uma lição para as nossas vidas. Sempre poderemos criar capinzais cheios de passarinhos nos nossos corações.

                                               Blumenau, 17 de Julho de 2003.


                                               Urda Alice Klueger 



ROSA SUBLIME


Gildo  P.  de  Oliveira


A rosa mais bela
que o experiente “ botânico”
 colhe é a  rosa do coração
etérico humano; toda cravejada,
de pedras preciosas  lindíssimas,
sublimes; ornadas no peito humano
pela essência do sangue redentor
do Cristo Jesus, em co-participação
harmoniosa com o discípulo fervoroso,
 a serviço da causa humana
carente!

Ó rosa imaculada, divina,
 majestosa,amiga,
carregando as dores de toda a  Humanidade;
feliz sejas tu em teu propósito magnânimo
de servir os irmãos que sofrem,
 sem medir esforços,
pelos séculos e milênios futuros !

ODUVALDO VIVO - POEMA


                     
 A ODUVALDO BATISTA (no dia de seu aniversario, 11 de maio)

Por Roselis Batistar

Estás vivo nesse aniversário
De anunciadas medidas
Contra os velórios  dos pobres...
Tu, meu pai, que vens de fora
E que te introduzes no paraíso fiscal
Sem outro vintém que   essa força
que de teus escritos sobrevem...
(Levei teu nome a Genebra
Num paradoxo de outros bens).
Força  a forcejar por outras  terras ,
Maiúscula como caixa-forte sem cerra
Resistente como só o  Humano pode ser...
Com ela  inundaste  jornais
Cometeste acusações
contra  os injustos barões
contra os ventres fartos de sangue...

Vives hoje como cetro
E levas a bandeira dos sofridos...
Estás vivo, líder  querido,
Pois vendido não te viram!
Parabéns ao guia,  ao mestre
Vou gritando ao mundo agreste
Que sem ti não há nem luz!
És centelha  iniciada
Uma brasa de  esperança!

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