lundi 13 mai 2013

NUM SÁBADO DE MANHÃ, NA PRIMEIRA CAPITAL DO BRASIL

(Outra Prosa Poética)
(OUVINDO “AVE MARIA DE SCHUBERT”, NA VOZ DE JOAN BAEZ

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

PARA PAULO LEHMKUHL VIEIRA
(PARA ROSÂNGELA, RAQUEL E MIRINHA)

EM MEMÓRIA DO MARCELO E DO PEPE
(..) “Viver não dói. O que dói, ferindo fundo, é a distância infinita entre a vida que se pensa e o pensamento vivido”  
               (Emílio Moura (1902-1971)


Vamos nos distraindo da morte – vivendo.
(Não reparem: são meditações vagabundas – uma prosa poética num sábado da vida.)
Não pertencemos a qualquer lugar
mas estamos sempre colados à nossa paróquia.
Eu sei: a vida é um assunto local.
E eu queria (e não consigo) falar sobre o “não-pertencimento”, outro tipo de exílio – soberano.
Não, não discursarei sobre a violência, a droga, e as patifarias diversas.
Cansamo-nos disso tudo.
Onde ficaram àqueles sonhos (perdoem o lugar-comum) da juventude?
Em algum baú, em algum sótão afetivo?
Infância é destino.
Chegou depressa o tempo – esvaído, descendo a ladeira.
Deus finge que me esquece
depois reaparece.
Infância é Desterro,
Infância é sol, mar, mãe, trapiche, um boé, bola de gude, pitanga, cheiro de tangerina, tainha frita.
O mundo continua essa porcaria.
Não –   não  a vida.
“O humor não é um estado de espírito, mas uma visão da vida”
(Ludwig Josef Johann Wittgenstein)
Queria falar sobre tantas coisas.
“Da primeira vez em
que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir
que eu tinha.
Depois, a cada vez que
me matavam
Foram levando qualquer cosa minha.” (...)
(Mário Quintana)
Num sábado de manhã, na primeira capital do País, pensando na geografia que importa: no território dos afetos...
(Salvador, abril de 2013)

MATRIMÔNIO MAIOR


Se  o matrimônio é externo
Não  é o oficiante que conta,
Nem mesmo as riquezas
Reunidas dos cônjuges para tal fim.
Caim quer impor suas leis;
Abel, suas dádivas.
Não há consenso.

É  preciso que ambos,
Espontaneamente,
Deem-se as mãos
Num ato  sacramentar livre,
 E  que o grande oficiante seja
O  Cristo.
O homem passa do
Matrimônio externo
Para a celebração divina
E  interior, imortal, eterna!

A Lenda do Templo
Fica pra traz;
Mas é o legado que Hiram
Transfere a Lázaro, o homem rico.


A ressurreição  de  Lázaro
Pelo Cristo  é  a lição  maior
Para a união de Caim e Abel,
De modo livre.
Missão do ser humano
Individualmente.



A   ressurreição de  Lázaro,
Lázaro-João,
 anuncia  ao mundo
João Evangelista 
O discípulo que o Cristo
Muito amava.
 


Quem  segue com grande compaixão,
Amor, humildade  e  vontade  de servir
O próximo, encontra no exemplo de
Lázaro -João o farol-guia
 Para sua evolução atualmente na Terra.




Lázaro-João um ser ímpar
Pela união de dois:
Lázaro e João Batista.


Caim quer impor suas leis;
Abel, suas dádivas.
Cuidemo-nos!


Gildo  P.  de  Oliveira
Rio Verde, Goiás, 27.04.13

Crônica da Urda


Na imensidão dos campos 2
(Quarenta anos depois)

Para Eduardo Venera dos Santos Filho

                                   Nessa imensidão verde azulada, longínquos quadrados do amarelo mais puro que se possa imaginar.  Empolgo-me, vibro, penso que é trigo, que finalmente vou ver a cabeleira dourada de um trigal, amor, aquilo lá é mesmo o trigo que os escritores europeus descrevem? Não, não é, são apenas campos de soja, o que também não deixa de ser magnífico, já que soja também é algo encantado, algo misterioso, surgido tão recentemente e que ainda não deu entrada no nosso vale. É uma planta estranha, que se planta para exportar aos japoneses e estadunidenses e que eu não sabia direito para o que servia.
                                   Os quilômetros correm depressa, depressa, meu amor, quero ver um campo de soja de perto. Será que há algum na beira da estrada? Parece um milagre, uma nota dissonante na harmonia do dia, o acharmos esses quadrados de terra cultivada dentro da imensidão dos campos onde tudo o que existe nasceu sozinho e cresceu por conta própria. Onde está o homem que semeou a soja? Não podemos vê-lo, nem à sua morada, nem à fumaça que sobe da sua morada. O campo é infinito e o esconde em algum lugar que desconhecemos, mas sabemos que ele existe, e que já marcou sua presença na terra quando semeou a soja. A soja fala dele, e vai levar a realidade da sua existência até muito longe, até além do mar, até pessoas desconhecidas que irão se alimentar dela. Talvez algum pintor passe pela mesma estrada que nós e transfira para a tela a maravilha do dourado da soja, e então o homem desconhecido vai se tornar perene em alguma parte do futuro.
                                   Não descobrimos o homem, mas estamos chegando à sua obra. Eu exulto diante do desconhecido; você exulta por poder me lavar ao desconhecido; exultamos porque temos tanta vida e um campo de soja tão dourado quanto o sol que brilha lá em cima. A plantação de soja corre à nossa esquerda e parece interminável – os pezinhos são pequenos como os de feijão e, sem nenhuma ilusão de ótica, posso ver que rescendem a ouro e a sol, que são completamente dourados. Falamos, conversamos sobre a utilidade da soja, sobre a repulsa que temos em usá-la como alimento, sobre os pratos que os japoneses preparam com ela e dos quais você ouviu falar.
                                   O campo de soja fica para trás. Três Barras é uma interrogação a cada curva do caminho, já andamos mais de uma hora sem descobrirmos onde se esconde a nossa meta. Afinal, no meio do campo deserto, surge algo inesperado – uma indústria razoavelmente grande, toda jovem e ruborizada como uma mocinha de quatorze anos. Ela parece ter surgido do nada, ter germinado de uma semente estranha, caída do céu numa noite azul de lua cheia (...). Não há cidade, nem vila, nem nada (...).

                                   (Vivido e escrito em 1973)

                                   Urda Alice Klueger    
                                   Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

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