jeudi 7 mars 2013

Crônica da Urda



O HOMEM DE CIUDAD BOLÍVAR
(Para o homem da rodoviária de Ciudad Bolívar e para Hugo Chávez Frías)
                                       Mais ou menos dez da noite, e eu chegara à Ciudad Bolívar, interior da Venezuela, cansada, com fome e muitíssimo curiosa para saber o que pensavam as gentes de uma cidade de 100.000 habitantes, depois de uma semana ouvindo as gentes de Caracas, cidade grande.
                                   Sentei-me à mesa de plástico de um vendedor de sanduíches e pedi algo para comer. Os venezuelanos são muito simpáticos, e logo eu estava em animada conversa com aquele vendedor de sanduíches.
                                   - Primeiro, eu nunca tinha votado – explicou-me ele. Há que se lembrar que na Venezuela o voto não é obrigatório. Meu novo amigo apontou-me uma praça próxima:
- Agora, não perco uma eleição. Agora todos votam. Está vendo aquela praça ali? Há tanta gente que vota que aquela praça fica tomada por uma fila que vai de lá até aqui, ó! – continuou, mostrando o tamanho considerável da fila que revia na sua imaginação, e que enfrentava a cada vez que havia eleições e referendos.                         
Era verdadeiramente impressionante o tamanho da fila que meu novo amigo me contava, como era impressionante no seu olhar, no seu rosto e na sua postura, o orgulho de se saber e se sentir cidadão, após a miserabilidade de uma vida que eu diria de escravidão, já que nos mais de sessenta anos anteriores só eram cidadãos e quase que só votavam os milionários donos do petróleo – pelo menos eram eles quem davam todas as cartas e aplicavam todo o dinheiro gerado pelo subsolo venezuelano nas suas fortunas de Miami e tinham abandonado seu povo à própria sorte, como eu já pudera ver sobejamente na Caracas rodeada de cerros onde até pouco campeava a mais absoluta miséria e abandono.
- E o Comandante? – fiz uma pergunta que poderia ser tudo ou nada.
O rosto do homem se abriu num largo sorriso de prazer, como também se abriam os rostos das gentes de Caracas.
- Ah! Nós amamos o Comandante! Não havia nenhuma esperança nas nossas vidas antes do Comandante. Agora passamos a ser gente livre, agora podemos decidir nosso futuro! – e o meu amigo passou a contar das diferenças na sua vida, de como voltara a estudar, de como agora ele e sua família tinham acesso a médico a qualquer momento, de como os remédios eram gratuitos, de como a comida era subsidiada pelo dinheiro do petróleo que agora não vazava mais todo para Miami , de como até pudera abrir seu pequeno negócio de sanduíches.
- Antes a gente não podia nada, além de ser pobre e sofrer. Se não fosse o Comandante, o que seria de nós?
Isto foi em janeiro de 2006, e como hoje é 06 de março de 2013, lá já se foram sete anos. Eu sei que aquele homem de Ciudad Bolívar deve estar chorando, e queria estar lá para dar um abraço nele, porque também estou chorando aqui. Chávez se foi ontem, mas nunca mais deixará de estar conosco. Luminosa estrela no meu céu, eu lhe digo:
- Até a vitória sempre, Comandante! – e de novo choro, pois o mundo já não é igual desde ontem, quando te foste tão prematuramente. O que me consola são todas as sementes que plantaste, tantas que a gente ainda nem sabe avaliar como germinarão por todos os lados.  Há que chorar, no entanto, porque o coração dói.

            Urda Alice Klueger
            Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR
            Blumenau, 06.03.2013

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A Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades, periódico associado ao Grupo de Pesquisa do CNPQ Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade - UFABC, publicada desde 2007, privilegia pesquisas que referem à contemporaneidade do ponto de vista artístico e humanístico. É qualificada pela Capes nas áreas interdisciplinar, história e filosofia e  indexada pelo Sumarios.org

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