vendredi 6 décembre 2013

Crônica da Urda

MARA SALLA, MARA – A MAGA

                                                                                                                                                                                            Pela vida afora muitas bruxas encontrei, de diversos tipos, calibres, feitios e intenções, desde a Bruxa Malvada das histórias infantis até as malvadas mais verdadeiras, como Margareth Tatcher, por exemplo, a lamentar a morte de um Assassino da Humanidade como Pinochet – isto sem contar que sou do Estado de Santa Catarina, Brasil, e a capital do meu Estado é uma Ilha onde aportaram, ao longo dos séculos, récuas de bruxas de todos os tipos, desde aquelas que para cá vieram para se salvarem das ignorâncias maldosas da Inquisição, até bandos recentes de bruxas da maior simpatia, daquelas que só fazem o Bem, como Elaine Tavares e a Baiana Denise Queiroz, maravilhosas e queridas bruxas que moram no meu coração!  Tem umas outras bruxas por aí que não gostam muito do Bem, também, mas é melhor nem falar nelas...
                                               Fadas conheci muitas, também. Foram tantas na minha vida que fica difícil lembrar de todas, mas vou tentar colocar aqui uma pequena amostragem, que vai desde a minha professora de quarto ano, Irmã Maria Adalgisa, com suas bondosas asas de Anja[1][1], e a minha prima Sofia, com suas inigualáveis mesas de aniversário cheias de tortas incomparáveis, e a minha prima Synova, admirável Ser Humano de muita cultura e muito sofrimento por quase toda a vida, e a minha orientadora Elizabete Tamanini, Fada-Madrinha sem tirar nem pôr, e por aí vai...
                                               Mas aqui quero falar é das Magas, e ser Maga é uma coisa extremamente difícil, tanto que não tenho viva lembrança de nenhuma outra na minha vida que se comparasse com ela, a Maga Mara Salla! Pelas minhas contas, já faz perto de quatro anos que a gente se conhece, mas foi só ontem à noite que aquilatei, mesmo, as infinitas possibilidades e a profundidade da alma e da sensibilidade de alguém que chega a Maga.
                                               Mara Salla veio de um lugar do Rio Grande do Sul chamado Arvorezinha, e não se entende por quê, por conta de um destes acasos do Destino, acabou ela encantando-se por um texto meu e querendo usá-lo para fazer um filme. Foi um parto longo mas não doloroso, pois estava tudo muito cheio de intenso prazer: desde o primeiro dia em que ela veio à minha casa, para conhecer-me, trazendo-me de presente músicas de Mercedes Soza, até os infinitos mistérios das filmagens na pequenina cidade de São Pedro de Alcântara, faz ano e meio, e até à estréia do filme, ontem, lá em cinema de Florianópolis.
                                               Houve o conhecimento, o tempo, o parto, o saber da capacidade de direção de filme que Mara tinha ... mas foi só ontem, só ontem à noite que eu soube mesmo que ela era uma Maga. Eu ainda não tinha visto o filme (que se chama “Por causa do Papai Noel”), e tudo seria novidade para mim, e para tanto me preparara, Não sabia, no entanto, que Magas existem de verdade e podem viver bem perto da gente!
                                               É necessário ir um pouquinho para traz no tempo, voltar a estas décadas que tenho vivido como escritora, e à convivência que tais décadas me levaram a ter com outros escritores, para poder explicar a minha emoção. Eu já falei tal coisa em muitas palestras e entrevistas, e também já falei a respeito dela com muitos outros escritores, desde meu amigo pessoal Viegas Fernandes da Costa até o Monstro Sagrado Jorge Amado, para saber que é uma coisa comum a muitos escritores: o escritor “vê” coisas que os outros não vêm, “vê” cenas que ainda não se criaram na sua escrita, “vê” personagens que ainda não conhece – e essa gente e cenas todas tomam conta da sua vida, e entram pela sua casa, e passam a fazer parte da sua realidade – mas nunca tinha visto alguém que não é escritor entender isto. Então chega Mara Salla com o filme que fizera a partir de um texto meu, e ela, a Maga, ela sabia! E lá no filme uma menina que um dia eu fui fica espiando, encantada, os personagens que mais tarde passaria para o papel ... e só Magas muito mágicas para entenderem tal coisa.
                                               Mara Salla, minha Maga, como te agradecer? Nem dava, tanto chorei abraçada à minha prima Mayde, quando entendi quanto entendias!


                                                           Blumenau, 19 de Dezembro de 2006.
                       

                                                           Urda Alice Klueger
                                                           Escritora.




[1][1] Por que é que tem que ser “anjo”, se também há “anjas”? 

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