samedi 30 novembre 2013

Crônica da Urda

Roubaram-lhe o mar!


                                   Daí, deve fazer uma ou duas décadas, algumas famílias que devem ser de classe média alta se encantaram com um bonito outeiro da Ilha de Santa Catarina, bem às vistas da Ponte Hercílio Luz, e lá construíram suas confortáveis casas, para poderem passar o resto das suas vidas a olhar para aquele cenário infinitamente encantador, coisa assim que a gente só vê mais bonito no Caribe. Houve um probleminha, na ocasião: aquelas famílias se esqueceram de comprar os terrenos da frente, aqueles que faziam a descida do outeiro, e adivinhem o que aconteceu: construtores de grandes prédios acabaram descobrindo aqueles terreninhos ainda não vendidos, e o que fizeram? Compraram-nos, e construíram neles toda uma altíssima barreira de edifícios onde também moram pessoas de classe média alta.
                                   Às vezes a gente demora um bocado para dar-se conta da amargura que está do outro lado da rua. Temos na nossa cabeça que, a princípio, as amarguras vivem em favelas, e não em casas bonitas como aquelas, e quando pessoas conhecidas foram morar num daqueles edifícios altos, com aquela maravilhosa vista da ponte Hercílio Luz, nem me passou pela cabeça que algum tempo depois eu ia ver bem de perto o que era a amargura de se perder ... o mar!
                                   Foi no último final de semana. Fui visitar amigos, e estacionei o carro entre os portões de duas garagens daquelas casas bonitas. Lembro de ter olhado bem para ver que as duas garagens ficavam livres. Só que quando desço para pegar o carro, lá está uma multa por eu estar estacionada diante de uma garagem. E a multa não era nada, meus senhores: o pior era uma senhora que estava totalmente transtornada, a me agredir verbalmente, a me dizer coisas desconexas (como eu ter trancado a garagem dela, quando era visível o carro que ela botara na garagem!),  por se incomodar 24 horas do dia com aquele problema (eu estava ali bem menos tempo, o que queria dizer que não era comigo), e eu fiquei a olhá-la e a desculpar-me, mas seu estado de angústia e revolta era tão grande, que passei a temer por ela: e se tivesse uma síncope, o que eu faria? Ligaria para  o 193? Ela teria um plano de saúde com ambulância particular? Fiquei a tentar acalmá-la, a dizer “Desculpe, minha senhora, veja, já fui punida, olhe aqui a minha multa”, e ela a dizer que fora ela quem chamara a polícia para me multar, e eu dizendo “Desculpe” e com medo da síncope, e nada da senhora se acalmar, e a dizer que iria embora dali para o mato, que nunca mais queria ver gente por perto, estas coisas que a gente diz quando não está em si. Só me restou sair dali. Minha sorte era que eu estava num dia de imensa calma. Mas recordava-me de algumas ocasiões da minha vida em que estivera assim nervosa também, e sabia que quando a gente fica assim é bem brabo.
                                   Mais tarde passei por ali de novo e revi a senhora. Pedi-lhe desculpas mais uma vez (o que é uma multa quando alguém está a ponto de ter uma síncope?), e como ela se acalmara um pouco, falei-lhe de coisas de saúde, de como ela estava se auto-prejudicando. Conversamos – penso que mais uma meia hora e a gente acabaria tomando um chazinho juntas  e contado uma para a outra nossas recíprocas aventuras e desventuras. Eu sabia que a raiva dela, o descontrole dela eram grandes demais para terem a ver comigo – o que a fazia tão agressiva? Havia algo mais, algo que eu ainda não estava entendendo. E então veio a luzinha, e eu disse: “Pôxa, quando vocês fizeram esta casa, não pensaram que poderiam subir estes prédios aqui na frente, não? Perderam a vista!” Eu tocara na ferida. Era aquilo, sim. Aqueles prédios tinham vindo para lhe tirar a Ponte Hercílio Luz, o canal, o mar lá adiante. Como é que alguém poderia abdicar de tal vista sem ficar altamente traumatizada? E então eu entendi a senhora. Roubaram-lhe o mar. Ficar sem o mar é uma dor muito profunda para um ilhéu. Era uma dor que distribuía multas para quem avançasse um palmo na sua entrada de garagem, como eu recebi, e que botava em jogo a saúde daquela senhora sujeita à síncope. Também, roubaram-lhe o mar! Como se pode viver sem o mar?

                                   Blumenau, 02 de Julho de 2003.


                                   Urda Alice Klueger
                                    Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.



"Eu me dei conta de que cada vez que um dos meus cachorros parte, ele leva um pedaço do meu coração com ele. Cada vez que um cachorro novo entra na minha vida, ele me abençoa com um pedaço de seu coração. Se eu viver uma vida bem longa, com sorte, todas as partes do meu coração serão de cachorro, então eu me tornarei tão generoso e cheio de amor como eles."  (Autor desconhecido) 

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