mardi 26 novembre 2013

Crônica da Urda

PONTO DE VISTA DE UM ESPANHOL

                                            
         Eu considero Salvador, na Bahia, um dos melhores lugares do mundo. Salvador tudo tem: Arte, História, belezas naturais, mistério e magia, e tudo isso aliado a um dos povos mais doce, gentil e alegre do mundo. Costumo dizer que Salvador é a pátria da gentileza e da alegria, e penso em um dia ir morar lá de vez. Nunca que me esqueço do que aconteceu comigo quando, uma vez, fui passar um mês em Paris/França. Imaginava que aquele seria o mês mais maravilhoso da minha vida, mas não me adaptei tão bem assim. Depois de uns quatro ou cinco dias naquela cidade lindíssima, que é Paris, eu só conseguia pensar:
         - O que é que estou fazendo aqui? Por que é que não fui para a Bahia?
O jeito de ser do parisiense e a gentileza do baiano são polos totalmente opostos: não viveria em Paris, mas sonho viver em Salvador. Gosto tanto de Salvador que, basta ver uma foto ou uma imagem de lá, na televisão, para minha garganta se fechar de emoção, e eu, literalmente, chorar de saudade daquele lugar maravilhoso, que considero o meu lugar no mundo.
         Assim, não foi nada difícil fazer amizade com um certo espanhol que conheci, ano passado, na Colômbia.
         Estávamos, eu e minha amiga Lúcia, na grande reserva ecológica de Tayrona, no Caribe Colombiano, numa maravilhosa praia de águas transparentes, onde havia poços para se tomar banho. Entramos num daqueles poços de águas absurdamente translúcidas, e lá já estava se banhando o espanhol de que falei acima. Ele teria perto de quarenta anos, e era bonito como só os espanhóis soem ser (eu acho que em nenhum lugar do mundo há homens mais bonitos que na Espanha!). Começamos a conversar, e quando nos soube brasileiras, disse-nos que já tinha estado no Brasil. Quis saber aonde.
- Em Salvador! - respondeu-me, e aí tudo ficou mais fácil. Disse-lhe que achava Salvador o melhor lugar do mundo, e ele embarcou, entusiasmado, na minha afirmativa: também ele achara que Salvador era o melhor lugar do mundo. Esse espanhol bonito era um psicólogo e já tinha viajado meio mundo. Ouvir um europeu culto e cheio de viagens reconhecer que Salvador é o melhor lugar do mundo me encheu de prazer, e o papo rolou fácil depois disso. Querendo nos agradar, o espanhol  falou que na sua casa, nas Ilhas Canárias, tinha música brasileira: um disco do Trio Esperança. Cantei um pedacinho do "Filme Triste" para ele ver se era essa a música que tinha, e ele ficou pasmo quando soube que o Trio Esperança era coisa lá dos anos sessenta - pensava que fosse um disco atual.
Conversa vai, conversa vem, perguntei-lhe qual a imagem mais forte que ele tinha guardado de Salvador. Ele falou do Centro Histórico, das delícias da Ilha de Itaparica, da sua observação sobre o culto ao corpo que o baiano tem (todos correndo na praia, e fazendo ginástica, e jogando vôlei o tempo todo! - coisa bem ao nosso gosto brasileiro), e, afinal, chegou à imagem mais forte.
         Ele costumava passar os dias passeando, e, de tardinha, voltava ao seu hotel, que era na Barra, um dos inúmeros lugares paradisíacos de Salvador. Tomava um banho, então, e dirigia-se a um barzinho, onde o dono já era seu amigo. Conhecendo os baianos como conheço, fico imaginando a cena: o espanhol bonitão sendo recebido com todos os sorrisos que qualquer baiano tem, ainda mais um dono de bar. Ele conversava um pouco com o dono do bar, e ficava olhando para o mar, e o dono do bar lhe servia uma cerveja numa coisa assim, oh! que conservava a cerveja absolutamente gelada até o fim.
         Nesse ponto, Lúcia e eu nos entreolhamos e dissemos ao mesmo tempo:
         - Isopor!
         Caímos na risada, é claro. Nossa cultura brasileira não admite cerveja sem ser gelada, e não há botequim, neste país, que não tenha seus isopores. Ver um espanhol bonito como aquele, e ainda por cima culto e cheio de experiência, a nos falar das maravilhas do isopor, esse utensílio que qualquer bebedor de cerveja tem em casa, deixou-nos absolutamente espantadas.
         - Deviam levar essa idéia para a Espanha! - surpreendeu-nos mais ainda ele. Nosso amigo delirava com a lembrança, fechava os olhos para pensar melhor naqueles isopores de Salvador, lugar que ele considerava o melhor do mundo.
         É estranho para nós, não é mesmo? Salvador tem imagens muito mais fortes que a de isopores e cervejas geladas, com certeza. Mas respeitemos o ponto de vista do nosso amigo d'além mar.

Blumenau, 16 de Março de 1997.                               Urda Alice Klueger

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