vendredi 4 octobre 2013

Crônica da Urda

ARARANGUÁ


                                               Foi o professor César Sprícigo quem fez o contato:
                                               - Podes?
                                               Agenda na mão, respondi:
                                               - Posso, mas só lá pelo final do ano.
                                               Fui na Primavera, em domingo de chuvinha leve, saindo do norte do Estado até lá quase no extremo-Sul, cinco horas ao volante numa estrada cercada de verdes. Araranguá era a ponta do meu caminho, e pareceu só um instante até chegar lá. Tinha combinado encontro no pátio da Igreja, e chamei o César num telefone público.
                                               - Estou aí num instante!
Aproveitei o instante para olhar a praça, e que praça, toda cheia de vida e de sonhos coloridos! Bem no meio, significando o coração da cidade, a Biblioteca Pública! Qual cidade, igual àquela, para ter uma Biblioteca Pública no lugar do coração? Deveria ser uma cidade muito especial mesmo, e bastava olhar em redor para ver, detrás de cada árvore da praça, um casal de namorados namorando! Bem difícil achar-se uma cidade assim, onde se podia namorar sem constrangimentos na praça principal, cercando o coração com as grandes emoções do amor!
Num instantinho o César e sua família chegaram, gente simpática, o César colega historiador, e historiador, quando se encontra, não acaba nunca de falar. Levaram-me para o hotel, para a gente se encontrar um pouco mais tarde, na casa dele. Vinham me buscar, mas soube que era ali pertinho.
- Vou à pé!
Grande idéia, aquela! Se não tivesse ido à pé, não teria visto o céu de Araranguá, e como era de perfeita madrepérola o céu de Araranguá! Fazia um pouco de frio, e eu podia sentir no cheiro do vento que ele vinha de um mar que devia ser próximo, enquanto observava as casinhas bem construídas, bem pintadas, e os terrenos baldios  com jeito de terem sido antigos sítios, com um pouco de grama, um pouco de árvores, tão lindo! Na casa do César, uma porção de professoras para conhecer, que a família, a mulher e os dois meninos lindos eu já conhecia. Faltava conhecer a dissertação de mestrado dele, que me matava de curiosidade – não é todo o dia que um historiador de Santa Catarina faz uma aprofundada pesquisa sobre a escravidão no nosso Estado!
Jantamos todos juntos em simpático restaurante, e era tempo de dormir, pois a manhã na escola começaria cedo. E já antes das sete e meia da manhã, de mãos dadas com o Padre Diretor do Colégio Murialdo, pedíamos as bênçãos para aquele dia que, sem dúvida, seria cansativo ... e maravilhoso! E foi, tão cansativo quanto maravilhoso! Turma por turma eu os conheci, a esses meninos e meninas de Araranguá, interessadíssimos em saber, em aprender, e tive contato com todas as séries, desde os grandões do terceirão, até os pequeninos da pré-escola. Ao meio dia, almocei na casa de uma professora, feijoada deliciosa, daquelas que dá um sono!     
Por que tinha ido lá? Porque o Colégio fazia 50 anos, e estava a comemorar. Bom colégio aquele, além das crianças e do Padre simpático, o que mais me encantou foi a maravilhosa casa na árvore que já vi na vida! Pena que não deu tempo de subir lá! Bem que queria ter ido, com a gurizada da pré-escola, mas o dia se esvaiu como um sopro. Num instante, o crepúsculo se aproximava e era hora de ir.
Lucrei um monte: trouxe no coração cada criança daquele colégio, a casa na árvore, o Padre Diretor, os professores simpáticos, o céu de madrepérola e o vento com cheiro de mar, e ainda por cima, uma cópia da dissertação de mestrado do César Sprícigo e muitas notícias históricas sobre escravidão! Isto sem contar a praça com biblioteca no coração e os corações pulsantes ao redor da biblioteca! Qualquer dia volto lá!

                       Urda Alice Klueger
                       Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR
                       Blumenau, 27de Dezembro de 2005.

                                               

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