jeudi 24 octobre 2013

Crônica da Urda.

O Paraíso Perdido

Cabral e suas caravelas chegaram lá em 1500; de lá Caminha escreveu a primeira carta; algumas expedições estiveram lá naquele século, e depois não aconteceu mais nada.
Situado no litoral Sul da Bahia, Porto Seguro vegetou durante 472 anos praticamente no esquecimento, mantendo na magia dos seus arraiais algo assim como a soma de uma Idade Renascentista/Medieval somada à força da América tupiniquim e com laivos da África, tão abandonada por todos de fora que apenas um navio passava lá por mês, levando poucas notícias e poucos recursos. Assim, não chegou lá o progresso, nem com as coisas boas nem com as más, e sua população pode viver, durante quase cinco séculos, numa inocência de coração e de idéias como em nenhum outro lugar se vivia.
Aí, em 1972, o presidente Médici construiu a estrada, de asfalto, moderna, bem no auge do movimento hippie brasileiro, e foram aqueles cândidos seguidores da filosofia de Francisco de Assis os primeiros a descobrirem o paraíso. Foi o casamento perfeito: uma cultura de 1500, de repente se encontrava com a cultura ultramoderna da paz e do amor – o resultado foi o aperfeiçoamento do paraíso!
Porto Seguro já era um lugar fantástico – tornou-se um lugar encantado! Quem veio vindo, depois, não queria acreditar: aquilo não existia! É difícil transformar em palavras a magia em que Porto Seguro se tornou: aquilo lá não parecia fazer parte do mundo. Havia uma atmosfera, na cidade e nos arraiais, de uma liberdade tão grande, mas tão grande, que ninguém tinha coragem de avançar um milímetro que fosse na liberdade alheia. A cidade adotou o lema: “Liberdade sem limites”, e nunca soube de outro lugar onde os limites fossem tão vastos e tão respeitados. Dizia-se que se ficasse mais de quatro dias em Porto Seguro, corria-se o risco de não se ir mais embora, e era verdade: criou-se a classe dos anativados, pessoas que foram para as férias e nunca mais voltaram. Só pessoas com boas cabeças, iam ou ficavam lá: não era raro encontrar-se um professor de Física Nuclear da Suíça a vender sanduíche natural na praia, ou uma jornalista de São Paulo a trabalhar de garçonete nas noites, para garantir o seu lugar ao Sol no paraíso. Ouvia-se todas as línguas em Porto Seguro, e as pessoas que iam ou estavam lá sabiam exatamente o valor do patrimônio que possuíam, o patrimônio da liberdade, da alegria, da magia. E quem ia uma vez ia sempre, apesar das dificuldades para lá se chegar, e lembro dos tempos em que aguardava as férias sonhando com os arraiais da Ajuda e de Trancoso, com as noites na Lambada e na Passarela do Álcool, com o Sol das praias de Mucugê e de Trancoso, com o banho de argila na Lagoa Azul. Ainda nesses tempos de encantamento, ganhei um concurso literário lá, com a seguinte frase: “Porto Seguro é um lugar onde a gente se levanta mais cedo para ter mais tempo de fazer nada”. Acho que a frase diz tudo. Poderia ficar interminavelmente falando de como era bom, de como as pessoas eram gentis, de como a natureza era maravilhosa, de como as amizades nasciam espontaneamente, de como se curtia a noite e os dias, agora que chegou o tempo da saudade. Pois os encanto e a magia de Porto Seguro se acabaram.
Construíram lá, faz alguns anos, um aeroporto imenso, que colocou a terra de descobrimento nos prospectos de todos os agentes de viagem do país. E o turismo começou pra valer, com todos os malefícios que o turismo trás.
Pelos dias inteiros, o ano inteiro, agora, descem aviões e mais aviões e mais aviões cheios de gente em Porto Seguro, gente que nada sabe sobre aquele lugar mágico a não ser o que seu agente de viagem disse, gente que não sabe que ali existia a magia mais pura, a mais doce forma de vida. As pessoas chegam lá como se estivessem indo para qualquer lugar comum, como Camboriú, ou Guarujá, ou Copacabana, cheios de malas e roupas chiques, cheios de idéias pré-concebidas, com toda a sua bagagem de preconceitos, e nade vêem do paraíso. E depois de uma semana voltam felizes por terem estado em Porto Seguro, sem fazerem idéia do que perderam, sem saberem que poderiam ter ido para Camboriú ou Copacabana, que daria na mesma.
Perdeu-se a magia, perdeu-se o encanto. Para os velhos freqüentadores de Porto Seguro, dá vontade de chorar. Eu creio que não volto mais lá. Afinal, Camboriú pode ser um qualquer lugar, mas Porto Seguro era único. E acabou.

       Blumenau, 19 de Novembro de 1995

Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

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