vendredi 6 septembre 2013

Crônica da Urda

Enchente no final do inverno
                                   
            (Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

                                   A enchente chegou, nascida da chuva dos dias e das noites. A enchente chegou e foi aumentando e foi subindo e foi tomando conta da cidade. A enchente chegou e você não estava.
                                   Lá no morro ela não ia, não subia, não tomava conta. Mas a enchente tinha o poder de isolar – e você não estava.
                                   Ela começou nos lugares mais baixos; depois entrou nas ruas; depois fechou as ruas. Penetrou pelos subterrâneos onde correm os fios de comunicação e os telefones deixaram de funcionar. Lá no morro ela não ia, mas a chuva caía lá também. Caía sempre, de dia e de noite, e escorria pelos gramados, pelos paralelepípedos, para se juntar, lá embaixo, com a enchente que crescia. Vinha na forma de algodão branco, pelas pontas dos outros morros ao redor, e se desfazia em lençóis d’ água sem cor que caíam sempre, inexoráveis e tristes, entristecendo o amanhecer, o meio dia, a tarde inteira, entristecendo pela noite afora.A chuva desfazia em nada os perfumes da semana anterior: o perfume denso e doce das laranjeiras floridas, o quente e doce das primeiras ameixas maduras sob o sol. Ela simplesmente chegara e mandara embora aquele indefinível prelúdio de primavera.
                                   Lá do morro a gente via a cidade cada vez mais se parecendo com um presépio disposto sobre a superfície de um espelho. Cada vez mais a água nivelava os desníveis do solo e aguçava os da tristeza – pois você não estava.
                                   Os sons da cidade eram distantes e não chegavam lá em cima, mas a gente sabia que ela se tornara em silêncio. Ali mais perto, ali quase na base do morro, por dias e semanas a fanfarra do colégio havia enchido as tardes da marcialidade do som que tornaria grandioso o sete de setembro, mas a chuva e a enchente haviam ignorado o clamor da fanfarra e dos espíritos que se preparavam para a festa e simplesmente calara tudo.
                                   No morro só havia o isolamento e a tristeza da água que caía. A gente podia ligar o rádio, mas todas as emissoras estavam num plantão permanente devido à enchente e só se ouviam boletins sobre os níveis do rio pelo vale afora, ou instruções e apelos à população. A televisão fornecia desenhos animados onde Scooby Doo enfrentava fantasmas incríveis, surgidos de lugares mais incríveis ainda, e que não conseguiam dissipar tristeza nenhuma. Ouvir música se tornava em tortura – cada nota me falava que você não estava.O telefone já não era telefone – tinha passado a ser um objeto tilintante, parecendo querer anunciar com o som contínuo e desordenado da sua campainha que se tornara impotente e que já não tinha poder para ajudar mais ninguém a se comunicar. E, meu Deus, como eu queria poder usar do telefone para dissipar as trevas com a magia da sua voz – mas nem a sua voz era possível ouvir.
                                   Você não estava e não era possível fazer nada. Então eu escrevia para você, datilografava folhas e mais folhas, escrevi em folhas de caderno, de blocos, em qualquer pedaço de papel, com hidrográficas, com lápis, com qualquer tipo de caneta – a estética não tinha importância, o importante era escrever  e saber que estava escrevendo para você, embora não soubesse quando a enchente iria embora e seria possível ir até o correio de novo. Contava para você da tristeza da chuva, que viera se juntar à angústia da sua ausência, contava para você da apatia gelada de olhar o espelho das águas lá embaixo e de saber que você não estava. Falava do frio que entrava de mansinho por baixo da porta e que enregelava as mãos e os pés; falava da trizteza das flores lá fora, que se tinham curvado e estavam se desmanchando pelo excesso de chuva. Dizia-lhe do isolamento do morro, de onde não era possível sair, dos cigarros que tinham acabado sem que fosse possível conseguir outros, da minha alma que se sentia dilacerada e vertia sangue, reclamando por você. Contava-lhe de cada instante, de cada pensamento, de cada gota de chuva, procurava fugir da realidade escrevendo – mas ela continuava presente, me falando o tempo todo da sua ausência.
                                   A enchente, a enchente, a chuva, a chuva, Deus, meu Deus, por que é que alguma coisa não mudava? De que adiantava a grandiosidade de Beethoven se eu não podia ouvir a melodia divina da sua voz? Poderia dormir, fugir do tempo e da distância dormindo, mas no sono não encontrava descanso – apenas conseguia entrar num estado de letargia, onde me sentia dilacerar mais e mais, porque ficava sozinha comigo mesma, porque no sono não havia o refúgio do estar escrevendo, porque no sono havia o seu sorriso, as suas palavras, havia você, e doía mais ainda porque eu sabia que você não estava.
                                   Numa madrugada chegou o terral, trazendo muito frio e dispersando a chuva, que fugiu, sumiu, desapareceu. Mas a enchente não foi embora com as nuvens que migravam, nem se assustou com o brilho do sol. Ela continuava lá, plena e serena, cortando o telefone, as ruas, as estradas. E você não estava, NÃO ESTAVA!
                                   A angústia me intoxicara o corpo, passara a ser física, e a enchente continuava lá embaixo. O frio intenso que o terral trouxera parecia um disparate diante da profundidade do azul do céu, diante da grandiosidade luminosa do sol, e o tempo passava sem que eu soubesse de você.
                                   Meu Deus, quanto tempo já se tinha passado? Seria possível que os dias de isolamento não haviam chegado a perfazer uma semana, quando me pareciam ter durado um ano inteiro? O que estaria acontecendo com você, o que estaria acontecendo com você?
                                   Eu olhava para baixo e não tinha nenhum instante de paz. O meu corpo todo doía de angústia. Olhava para baixo e não via nenhuma diferença na enchente. Mas embora a minha ansiedade não me permitisse ver a descida lenta das águas, as ruas estavam voltando à tona, as casas estavam emergindo, as árvores deixavam de serem arbustos. O rio carcereiro ansiava pela paz do seu leito antigo e amigo.
                                   E antes que as outras comunicações se restabelecessem, o telefone tocou. Você estava de novo, embora houvesse muitas centenas de quilômetros a separar nossos corpos.
                                   Tudo simplesmente foi apagado: a enchente, a tristeza, a angústia, toda a dor.
                                   Você estava de novo. Era o quanto bastava. Sabia que agora a primavera voltaria, sabia que agora os tambores voltariam a preludiar o sete de setembro, tornariam a encher as tardes de som. Era o quanto bastava.
                                   Você estava de novo!

                                   (Escrito e vivido em 1972)

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR                  

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