samedi 24 août 2013

SEU JOÃO DE AMORIM

 (Para o Orion Farias de Amorim, que ainda deve estar em algum lugar)
                                   Penso se alguém ainda lembra dele neste mundo de meu Deus, além dos filhos, caso vivam – mas como ele está forte dentro de mim por estes dias! Passaram-se quase sessenta anos, desde então – talvez eu tivesse três anos, talvez dois, arriscaria dizer, talvez, a entrada dos quatro. Sei que ele era pai da minha madrinha de Crisma, uma moca muito bonita e jovem chamada Ana Olívia Farias de Amorim, e sua mulher era a Dona Honória Farias de Amorim, d’onde eu deduzo que o nome completo dele era seu João de Amorim. Os outros filhos eram a Alair, da qual lembro muito de uma fascinante foto de quando ela trabalhava na Cill, a loja de discos que havia em Blumenau, e o Orion, que era chamado de Ório, e que muitos anos mais tarde soube que trabalhava na imprensa oficial do Estado de Santa Catarina. Era um homem de bom gosto: ao filho homem dera o nome de uma estrela – as meninas eram Ana Olívia e Alair – quem sabe ainda encontro o Ório na facebook, já que as meninas mudaram os nomes quando casaram e já não recordo mais tantos detalhes desta minha vida que já está ficando longa...
                                   (Lembro bem da minha Crisma, no entanto. Era muitíssimo pequena, e ela se resumiu em um solene homem parado diante de mim carregando uma travessa cheia de arroz cozido. Sempre me disseram que não era arroz, mas algodão usado para a unção, mas até hoje tenho a certeza de que era arroz!)
                                   Seu João era barbeiro, profissão importante daqueles tempos. A barbearia era algo como uma sala de bate papo das redes sociais de hoje, e presidir a uma era ter sua importância na escala social. E ele foi o meu primeiro morto.
                                   Lembro como se falava baixinho, lá em casa, para se dizer que o seu João estava doente do pulmão, e também lembro quando a gente ia vê-lo lá na Rua XV nr.  1392, onde ele morava, e ele estava de cama, e tossia e estava fraco, mas era tão bom, tão doce comigo, menininha de nada, que ainda nada compreendia do mundo. Lembro com doçura daquele seu João de olhos febris e que ainda está vivo comigo até hoje, e de algumas coisas que ele dizia, como a que o Ório tinha que ter sempre uns trocados para sair, pois rapazes não poderiam sair de casa sem um dinheirinho no bolso – imagino que ele pensava no guaraná ou no cinema que o Orion fosse pagar para uma mocinha.
                                   Então, um dia, seu João morreu. Eu não vi sua morte, nem seu velório, nem seu enterro – era pequena demais para tais coisas – mas ninguém ainda morrera, no meu mundo, e seu João acabou sendo o primeiro morto que a vida me trouxe. Sua morte entrou na minha casa em forma de uma encorpada colcha amarela – a família estava se desfazendo de tudo o que fora dele, para não ficar triste quando olhasse, penso, e a colcha amarela veio bater na nossa casa. Éramos todos muito pobres, então, mas havia alguém mais pobre nas redondezes: uma mulher chamada Maria Viola, que morava na nossa rua. A colcha era para ela com seus muitos filhinhos, e lembro agora dessa Maria Viola, uma mulher alegre que passava pela nossa casa e me encantava. Sabia que ela falava que, quando a fome que tinha era muita, tomava uma caneca de água com sal, e depois outra caneca com água sem sal, e fazia de conta que tinha comido, e tocava a vida alegremente, como se tivesse comido bem. Maria Viola era daqueles pobres que faziam parte das comunidades de então, conforme tão claramente nos explica Milton Santos[1][1] e era através dela que a comunidade podia exercer a caridade pregada pela Igreja daqueles tempos. Assim, ela herdou a colcha amarela do seu João, que esteve por alguns dias na nossa casa, à espera dela, e eu não tocaria naquela colcha por nada do mundo, pois dentro da pequena criança que eu era criara-se como que um misticismo, algo que ainda hoje não sei explicar, pois aquela era a colcha de um morto.
                                   Seu João de Amorim, pai da minha dindinha, meu primeiro morto, quem ainda se lembra do Sr. além de mim?
 
                                   Blumenau, 20 de Julho de 2013.

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora, doutoranda em Geografia pela UFPR.        





[1][1] SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. São Paulo/Rio: Record, 2000.  “A pobreza incluída” (p. 70 – diferente da atual “Pobreza estrutural globalizada”.  

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