samedi 6 juillet 2013

Crônica da Urda

TEMPOS FELIZES 5
                          - As crianças e as viagens
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Atahualpa tem uma tendência enorme para gostar de todas as crianças do mundo – imaginem só o quanto gosta das crianças que vivem aqui pertinho dele! É só ele ouvir as vozes das crianças vindo aqui para o parquinho que já se alvoroça todo, o rabo abanando, o maior jeito de felicidade na cara peluda, e a felicidade dela só aumenta quando as crianças vêm brincar na nossa varanda. Às vezes tais brincadeiras são de pet-shop, e então as crianças lhe dão comidinhas, brincam de penteá-lo com sua escova, jogam bola e brincam com seus bichinhos de pelúcia e sua boneca, e ele fica todo mole entre elas, as pernas viradas para cima, parecendo ele também um bicho de pelúcia.
                                   Apesar de gostar de todas as crianças, sua relação com elas é variada: diria que Diana é sua preferida, talvez por ser ainda tão pequenina e com aquele jeitinho frágil – ele chega a chorar quando passa na casa dela e não a vê. Fico pensando o que passa na cabeça do meu cachorro diante de crianças pequenas – talvez ele as veja como adultos em miniatura, mais adequados para brincar do que os enormes adultos de 1,60 m, muuuuito mais altos que ele. Diana acaba de completar sete aninhos e ainda está baixinha, e é tão meiga! Penso que se pudesse escolher, Atahualpa traria Diana para ficar morando aqui em casa, assim como também traria Monique, e Fernanda, e tantas outras crianças! Sua relação com Fernanda é de amor total, e ele freqüenta a casa dela, e sempre entra na varanda dela quando saímos para nossa última voltinha, tarde da noite, e é na casa de Fernanda que ele faz suas maiores artes, subindo no sofá e nas camas e estragando alguns brinquedos. Já fico morrendo de medo quando vamos até lá: meu cachorro é muito comportadinho, mas perde totalmente a educação na casa da Fernanda. Não sei bem qual é a química que existe entre os dois, mas sei que ele perde qualquer acanhamento e vira um bicho muito arteiro, quando lá.
                                   Já com Monique Schörner ( da casa 34) ele trata como se ela fosse alguém de casa, e Monique É alguém de casa. Nossas casas são contíguas e, como dona do Preto, ela está sempre vindo aqui em casa atrás do Preto, ou vamos juntas fazer passeios com os nossos cachorros – Monique é como uma filhinha, ou como uma sobrinhazinha, e é ela que recorro quando Atahualpa se nega a comer, coisa que faz muitas vezes. Monique tem uma paciência infinita com meu cachorro, e então fica pegando os pedacinhos de carne, ou os grãozinhos de ração, ou a papinha de leite com bolo numa colher, e oferecendo a ele enquanto faz que chora, pedindo:
                        - Come, Atahualpa, come para eu não chorar!
                        Não sei a mágica que ela consegue, mas meu cachorrinho acaba comendo pelas mãos de Monique. Diana também consegue efeitos parecidos.
                        E são tantas, tantas as histórias das crianças do condomínio com o meu cachorro que penso que daria outro livro, que não caberiam todas aqui!   
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                        Minha vida me faz viajar muito, principalmente para dar palestras em escolas onde os alunos leram os meus livros, mas, nos últimos tempos, o número de viagens dobrou, pois estou a fazer um doutorado na Universidade Federal do Paraná, na cidade de Curitiba mais ou menos a 250 quilômetros daqui. Em uma ou outra viagem Atahualpa vai junto, principalmente em cidades rurais próximas, ou quando vou a passeio a algum lugar, como Florianópolis. Florianópolis é uma cidade bastante movimentada, e meu cachorro, que não usa coleira ou guia, se sente em plena felicidade correndo pelas ruas ou pela Praça XV, em Florianópolis, cheirando tudo e fazendo xixi em muitos inesperados lugares novos. Fico de olho nele, e quando vejo que ele está desorientado, sem saber mais onde estou, basta dar um assobio que ele volta direitinho em minha direção.  Já aconteceu de estarmos a andar pelo movimentado calçadão da Rua Felipe Schmidt, em Florianópolis, com Atahualpa ziguezagueando por entre a multidão móvel, quando comecei a ouvir alguém gritar:
                                   - Atahualpa! Atahualpa!
                                   Era nada mais nada menos que o meu amigo jornalista Raul Fitipaldi, que não me havia visto, mas que vira meu bichinho.  Encontramo-nos com efusão – teríamos passado um pelo outro sem nos vermos, caso Atahualpa não estivesse circulando por ali.
                                   E ele também faz bastante sucesso nas escolas aonde vai – claro que peço autorização antes, explico que ele toma todas as vacinas, que é bonzinho, não morde – e ele costuma se comportar muito bem nas escolas, deixando-se acariciar por dezenas de crianças e é levado no colo pelos adolescentes. As fotos dele e as histórias sobre ele costumam circular nas escolas antecipadamente, e quando lá chegamos tudo corre bem, a não ser uma vez, numa escola, onde uns meninos chutaram o meu bichinho. Nem culpo os meninos: crianças são reflexos da educação que recebem dos pais.
                                   Mas, mesmo ele indo a diversas viagens comigo, não pode ir à maioria, por distância, ou porque são escolas urbanas, ou porque ficarei num hotel, coisas assim. Então, onde é que Atahualpa fica?
                       




"Eu me dei conta de que cada vez que um dos meus cachorros parte, ele leva um pedaço do meu coração com ele. Cada vez que um cachorro novo entra na minha vida, ele me abençoa com um pedaço de seu coração. Se eu viver uma vida bem longa, com sorte, todas as partes do meu coração serão de cachorro, então eu me tornarei tão generoso e cheio de amor como eles."  (Autor desconhecido)

Urda Alice Klueger
                                               Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela
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