mardi 4 juin 2013

O CAVALEIRO DA DESESPERANÇA (4 E ÚLTIMO)

Um mais eu se adiantâmo levando aviso da chegada de nosso bando, recebido com mesa farta: buchada, farofa, inhame, carne seca, macaxeira... Um despropício. Na mesa mesmo, só Lampa e Maria Bonita, Sêo Coronel, mulher, filhos e agregados. Cabraiada espalhada por perto, servida pela criadagem, ia aproveitando para se insinuar às molecas, ralando dedo na passagem das cuias. Umas correspondiam com olhar de baixo e sorriso de canto, mas a maioria cerrava cenho e endurecia olho, pois que ninguém se passava pra cangaceiro, sabendo ser crepúsculo sem alvorada e até-nunca-mais-ver. Quem queria, encontrava vontade de homem curtida em solidão de caatinga, das vez por mais de mês. Quem não queria, não carecia por receio, pois que cabra nenhum era besta de apelar pra garra de onça e rompante de galo, sabedor da moralidade desmedida que Virgulino Ferreira impunha à tropa. Daí que muita gente se preferisse sob comando de Corisco, o Diabo Lôro, pois que aquele deixava frouxo essas questões de libertagem, mesmo ele se satisfazendo por gosto ou por marra, não respeitando mais do que a familhagem de compadrismo bem compadrado.
               Pasto feito, beiço refrescado no calor da cana de cabeça do engenho ali da fazenda próprio, os homens modorraram por baixo das cabaceiras enquanto o coronel, aproveitando a ausência de Maria, acompanhada pela mulher da casa pra se despachar no banheiro; chamou Lampião num aparte que não pus reparo. Depois vim a saber da conversa vírgula por vírgula, ponto por ponto, pois que ouvi tudim do que dizia meu capitão... Naquela época ‘inda não o chamava assim, nem nunca vim a chamá, por o que, é que vou contar... Dizia meu capitão à sua mulhé, Maria Bonita, os dois sesteando nas redes do quarto, eu deitado no de cá de fora, modorrando no avarandado, sob a janela, pronto pra qualquer premência; pois ouvi Lampião contá à Maria Bonita que o Coronel havia reclamado da fama de maldagens que se contava do cangaço... “- Sabe o que diz, até?” – depois, lembrando bem, percebi que na voz de Lampião tinha arretação, mas então já era tarde. Ali ouvindo, achei até graça na idéia e fiquei ‘maginando...: “- Diz que jogo criancinha pra riba e aparo na ponta do sabre!”.
               A voz do avô ficou mais grossa para imitar a voz do Capitão Cangaceiro, depois voltou ao seu normal de voz malina como guinchado de gavião carniceiro:
               - Não é engraçado? - Riu. Riu sozinho. O menino e a velha eram tão silêncio que parecia estar contando para si mesmo.
               - Ô peste! Não tão me escutando, não?
               - Tâmo sim Olando – a mulher despertou: - Mas se não quizé, num percisa contá mais, não.
               - Óxente! Pois se me pus a contá, é porque quero. Quero e é perciso que alguém conte a verdadeira história de nós mesmo, pra que esses menino num fiquem pensando que são só filho da moléstia, sem nenhuma esperança. Tu tá querendo sabê a história de Lampião de quem viveu com ele, ou te basta a besteiragem que ensinam lá na desgraça dessa tua escola?
               -...
               - Hein?
               - Pode contá vô. Tô’uvindo, sim.
               - Apois! Então oiça a história contada por quem viveu nela e nela devia ter morrido pra não ouvir essas mentiras que dizem aí. E só nela não morri, porque Virgulino Ferreira, o Lampião, era homem bondadoso demais. Tanto que, dispensando o coito farto e fresco do dito Coronel, tangeu a cabroeira toda pra fora da fazenda. Ainda às vistas da casa grande, estancou o passo, fazendo parar os cangaceiros, agoniados com aquela decisão de sair assim pra pegar o frio e o vento no desabrigo da noite da caatinga, como se a polícia ‘tivesse no rastro. Estancou o passo, olhou no olho de cada um de nós tudo e perguntou: “- Quem de vocês, em eu mandando, teria coragem de jogar uma criancinha pra riba e depois aparar na ponta do sabre?”
               Entendi então o motivo da pressa. Lampião tinha se agastado com a conversa do Coronel. Mas entendi errado e, de besta, fui o primeiro a responder:
   “- Se vosmicê me dé a órde, eu cumpro sim sinhô.”
               Lampião achegou-se com o cenho franzido sob a tira do seu chapéu cravejado de estrelas. Tentei sorrir, mas seus olhos eram mais duro que o cristal dos óculos redondos.
   “- Odulando! Faça teu caminho e procure outro destino.”
   Quis retrucá, sem entendê onde ‘tava meu erro. Mas nem dexô:
   “- Tu é mau demais pra andar comigo. Cabra como tu, num quero no meu bando.”
               Isso era Lampião. O Capitão Virgulino Ferreira do qual cortaram a cabeça e puseram em exposição lá na Bahia. A dele e a de Maria Bonita. Tão lá pra quem quizé espiá. É o que dá de acontecê com quem é bondadoso demais. Tão lá na cidade das míle igreja, de todos os santo. Tão lá Lampião e Maria Bonita pra refestelo dessa gente que diz que Lampião era mais ruim que a peste. Bons são eles que cortam e penduram cabeças.
               Eu sei que tumém num sô bom, mas acreditei que meu Capitão Virgulino um dia faria de mim alguma coisa melhó. Cada cabra, daqueles tantos do bando, acreditava nisso, por isso a gente seguia ele. O que aconteceria de nós tudo, ninguém sabia, mas a gente ali podia tê esperança e não há coisa pior prum cabra do que tirá toda a esperança dele. Ou vira um sujeito mofino, cheio de cagaço, como vocês e toda essa modernagem de hoje, esses brasileiros de merda... Ou lhe ataca a gota serena e se resulta em um cabra da peste, desses capaz de jogar criancinha pro alto e aparar em ponta de sabre. Só por desesperança.


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