lundi 3 juin 2013

O CAVALEIRO DA DESESPERANÇA (3)

Nem a avó, nem o menino lhe dirigiam a palavra. Conversavam entre si e o velho fazia como se eles não existissem, ou só existissem para lhe dar comida, água e alcançar o bornal onde guardava suas tralhas e a tabaqueira de seu permanente cigarro de fumo de corda. Quando acabava, tinha outro troço já comprado pela velha no mercado.
                        Apesar do silêncio, ou talvez por ele mesmo, o pequeno velho parecia ocupar todo o espaço da casa. Ainda que conversassem, era em palavras rápidas e respostas curtas para perguntas apressadas, como se temessem que suas vozes cutucassem o mutismo enfezado do homem. Às vezes, o menino abstraía-se em seus estudos e saía com perguntas como aquela de Lampião, a avó respondia em meia dúzia de palavras e fechava-se novo silêncio. Por isso a intromissão do avô na conversa pegou a velha e o neto despreparados. Mas por uma dessas estranhices da idade, aquele dia achou de rememorar anteriores passagens e respondeu à pergunta do menino sobre seus conhecimentos de Lampião:
                        - Fui cabra de seu cangaço... – revelou em inusitada confidência
                        - Nunca tu me contou que tinha sido do bando de Lampião. – a velha assoprou como se falasse debaixo da mesa, rompendo temores em tom de lisonja, buscando evitar que o interesse do neto indispusesse o homem.
   - E tenho que tá te contando? Inda mais naquele tempo! Se fosse dizê que tinha sido cabra do Capitão Virgulino, tudo ia corrê longe de mim. Pois fui e hoje escuto essas besteira e sô obrigado a engolí calado. Sei eu que foi não. O cangaço até pode tê sido ruim, mas Lampião foi não. Aquilo era homem bondoso. Bondadoso até demais. E pra quem duvida, conto uma história veraz.
   Os olhos do neto e da avó se cruzaram rápidos, enquanto a língua do velho passeava nas bordas murchas dos lábios, lambendo lentamente o papel que enrolava o fumo.
               Bateu a binga, achegou o fogo ao cigarro. A brasa lampejou iluminando o olho opaco que se sumiu por trás da fumaça, de onde emergiu memórias:
        - Aqui mesmo nesse Ceará... A gente vinha vindo de visitar o Santo Cícero, padrinho de nós tudo, de todos os sertões: daqui, de Pernambuco, Paraíba, Bahia e outros país. A cabraiada vinha que vinha no assossego, no desafogo. Nem carecia de aperreio, pois nesses tempos os macaco do exército tavam mais é empenhado em barrá a caminhada de uma tal Coluna Prestes, vinda lá dos confins do sul, atravessando tudo quanto é rio, caatinga, cerrado, morro e sertão. Aquilo era uma manobra bonita!
               Naqueles tempos o exército e o governo tava tudo de perna pro ar e era soldado brigando com soldado, não dava nem pra entender. Pois se sargento faz soldado raso, novato, caminhá légua e meia por dia, pra exercício, porque então tavam tudo danado com o tal Prestes? Ele fez melhor: botou a soldadesca a estirar muito mais de milha, fez os home corrê o trecho do Brasil todinho. Vai vê que a bronca é por que esses eram tenente... Que diferença faz? No cangaço tem dessas besteiras de patente, não. Ali, quem mandava era Lampião e acabou-se. Quer dizer, tinha Corisco tumém, que era chefe de um bando, mas era chefe sob as ordens de Lampião. Depois tinha Volta Seca, Curió e outros cabras valentes que em percisão comandavam um magote de homens pra essa ou aquela missão... Sempre a mando de Lampião. Mas não era qualquer bunda suja, não! O cabra tinha de ser valente e gostar do cangaço. Também tinha que Lampião gostar dele e aquilo era homem ciente, experimentado nas malícias da vida. Sabia reconhecer e dar valor para quem tinha valor... Quem não tinha, não se fizesse de besta. Não era título, nem nome de família o que valia. Valia só a coragem.
               Nem lamber a alpercata do rei do cangaço adiantava. Pior! No exército, só faz carreira quem é destro na lambe-cuzagem. Sujeito pode num saber dar tiro, mas vai de cabo a general subindo pendurado em saco de superior, que nem macaco em galho. E o soldadinho que se esfalfa no campo de batalha, fica sempre na merda, levando desaforo de sargento. Por isso é que nos meus dezenove anos de homem feito, sabendo onde queria o nariz, deserdei do exército brasileiro e bandeei pras ordens de Virgulino Ferreira, o Lampião.
               Naquele tempo, nem ele tinha patente, não. O caso da patente de capitão surgiu foi naquela visita mesmo a Padim Ciço, de que a gente vinha voltando. O Padre chamou Lampião prum canto e contou que fora procurado por gente graúda do exército, um certo major que pedira que ele, o Santo, fosse intermediário junto a Virgulino para convidá-lo a se aliar com o exército para juntos dar combate ao homem da coluna. Lampa assustou! Como então podia o cangaço se aliar ao inimigo? Padre Cícero contou que no caso da aliança o major prometia o perdão do governo pra cabroeira toda e a Lampião a patente de Capitão. Ouvi a conversa porque nesse tempo eu era da confiança de Virgulino e não arredava de perto dele, incumbido de transmitir qualquer ordem sua pros cabras que estavam dispersos, fazendo visitas às suas famílias nos sem-fins dos sertões, aproveitando a trégua das volantes envolvidas com Prestes. Mas ainda tinha os jagunços dos muitos inimigos do cangaço e, por isso, ou qualquer outra percisão, tava eu ali pra me incumbir de transmitir as ordem de Lampião aos cangaceiros espalhados.
               De jagunço nós não tinha receio. Apesar de mais valente que soldado, não tinham arma que chegasse pra afrontar o cangaço e eram pouca gente. Além do mais, nós tava aqui, no Ceará, onde o bando era bem recebido e o nome de Lampião era respeitado. Aqui não era como na Bahia e no Pernambuco, aqui a gente era tratada com festa e honraria, sob a proteção do Padim Cícero e dos coronéis amigos de Lampião. Foi pra fazenda de um coronel coiteiro desses que Lampião dirigiu o bando, depois de prometer ao Padre que ia pensar no assunto, mas que só podia decidir depois de falar com Corisco. Era assim: pai d’égua! Ele que mandava, mas não tirava decisão importante antes de conversar bem conversado com a companheiragem. Aquilo é que era homem político. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo por não ter decidido! Quando foi, foi depois do caso que vou contar e fiquei sabendo por ouvir dizer. Resolveu-se se por no serviço da pátria, mas foi então alertado pelo próprio Padre Cícero, que fora avisado por um acompadrado seu... Homem muito influente naqueles tempos, mas que agora não recordo o nome. Pois o tal homem contou ao Padre que aquilo tudo era patranha do major. O que o exército queria era por a famosa coluna em guerra com o cangaço, pra depois ficar fácil de acabar com os dois. Pra isso tinham usado a bondosa ingenuidade do Santo.

               Vigie o que é a honra militar do exército brasileiro! Corja de mandrião, filhos de uma puta! Mas valeu a patente, à qual Lampião não renunciou e o povo lhe conferiu com mais valor do que se passada por decreto oficial. Desde então ficou sendo o Capitão Virgulino. E nós que já tinha andado no encalço da tal coluna, rastreando a posição dos cabras do Prestes, e até trocamos uns tiros? Isso depois da visita ao Juazeiro e antes de chegar na tal fazenda do coronel coiteiro, amigo de Lampião, onde se fez pouso pra depois correr trecho atrás de Corisco.

Continua amanhã!

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