samedi 1 juin 2013

O CAVALEIRO DA DESESPERANÇA (2)

E o velho rascava o fundo da boceta de fumo, catando os últimos caroços para a palha ou papel de enrolar o cigarro, único prazer de sua escuridão. Mesmo parecendo despercebido da discordância da avó, exalava o receio respirado pelo menino que perguntou apressado:
            - O sinhô conheceu?
            Aí o susto da avó foi maior. Percebeu que falando, o neto buscava a atenção do velho e, talvez, o castigo, como quase aconteceu naquele dia em que chegando do mercado, deu com a assombração do velho sentado no banco, escondido no escuro do detrás da porta.
   - Olando! – sussurrou para dentro de si mesma, como se arrenegando uma visão que a emudecia no seu terror.
   - O que é que tu comprô no mercado? – foi só o que perguntou o velho, como se dali a tivesse visto sair e chegar todos os dias daqueles tantos anos, compartilhando das corriqueirices do cotidiano das vidas daquela casa. Os olhos da mulher percorreram o pouco do aposento único e sossegou no olho espantado do menino ao fundo. Voltou-se de cabeça baixa e tartamudeou num misto de medo e fingida doçura na voz, subornando alguma simpatia ou antecipando desculpas por erros desconhecidos:
   - Comprei algum provimento: um pedaço de chita, vela pro santo, querosene pro lampião, milho pra criação...
   - Milho?...
   - Sim! Não... É que o da roça já foi... Teve São João e veio a entressafra... – sentia-se na obrigação de explicar, mas o velho não se mostrou interessado, apenas pedindo com naturalidade e estranha gentileza:
   - Dê cá um punhado!
   Trêmula, encostou a sacola, buscou o saco de milho e o estendeu ao velho. Só então percebeu que ficara cego.                                                                                                                                              - Tu não enxerga Olando? Como foi isso?
   Tateando, enfiou a mão no saco. Sempre sorrindo e falando manso, derrubou um, dois... Três punhados do milho no chão de terra dura e batida:
   - Te importa? Devia não... Pois se tu num ia nem mais deixá eu entrá aqui na casa.
                        A velha iria gaguejar alguma coisa, mas se voltou rápido num olhar que pedia silêncio e alertava perigo ao menino que se remexeu lá na parede ao fundo. Repentino, num bote, a mão do homem agarrou seu pulso. Pressionou como garras de gavião carcará, mas ao invés de voar às alturas para devorar a presa no alto de uma lapa, forçou-a abaixo, obrigando que se dobrasse:
               - Ajoelhe aqui Vitó. Aqui no pé da porta, bem aqui no grão de milho. E cante aquela música da Lua. Aquela uma que tu sempre cantava. Toda vez que me lembrava dessa música, lembrava de tu. Ô lembrança disgramada! Mas a música é bonita. Cante!
   Cantou. Terminava a música, ele dizia calmo:
   - Faz mal não, cante outra vez. Não precisa nem parar, pode continuar repetindo os verso que é pra matar bem a saudade.
   Cantava, enquanto os grãos iam se cravando na pele esmagada sob o joelho magro, de muito osso e pouca carne. Passou hora, a voz foi se misturando aos soluços e lágrimas, engasgando, e o velho insistindo, embevecido:
   - Cante Vitó! Cante! – alentava: - Quero ouvir tua voz bonita.
   - Posso mais não. – chorou: - Fico ajoelhada, mas não me peça que cante.
   - Mas tem que cantá, Vitó. Se não, como é que vô sabe se tu tá aí, ajoelhada no milho, junto de mim? – insistia em voz branda de cruel carinho.
   O menino via a avó se dobrar, enxugar as lágrimas que escorriam no leito seco das rugas, fungar e soluçar entre os versos tristes da toada:
   “Lua bonita,
   se tu num fosse casada,
   eu pegava uma escada
   ia no céu te beijar.”
   Não agüentava mais ver o sofrimento da avó. Teve vontade de levantar e dar um berro, xingar aquele velho de merda. Mas era tão grande a ruindade, tão sofrida a dor, que o menino calava e só ouvia a voz soluçada:
   “Lua bonita,
   me traz ‘borrecimento
   ver São Jorge em seu jumento
           pisando teu quilarão”
            O menino tapou o ouvido e fechou os olhos. Não queria ver, não queria ouvir... Um medo enorme da tamanha maldade não permitia que ele levantasse dali, passasse em frente ao olho cego daquele avô ressuscito dos infernos, e fugisse pro terreiro, pra longe da voz da avó chorando:
           “Tu te casaste
               com um homem tão sisudo
           que come, bebe, drome,
           faz tudo,
               dentro do teu coração.”
            Apertou as mãos nos ouvidos, como as rótulas da velha apertavam os grãos já melados de sangue. Mesmo assim, o pranto infiltrava-se por entre os vãos do seu tímpano, ecoando dentro da cabeça:
            “Lua bonita
           me traz ‘borrecimento...”
               - Chega! – o grito saiu de sua garganta como uma vazão de açude. Medrosa, a avó calou e olhou espantada. O olho vermelho do menino dançava entre o medo do avô e a aflição da velha.
   - Quem é esse? – perguntou Odulando, sem poder distinguir a direção do grito e o tom da voz estrangulada.
   - É o filho de Socó... Seu neto.
   - O que ele faz?
   - Me ajuda muito. Não mande ele embora – a avó não chorava mais da dor do milho, apesar do joelho sangrando muito. – Sem ele não posso fazer nada, não tenho mais força pra tirá água do poço. Sem ele nós morre.
   - Só faz tirá água de poço?
   - Não! Faz muito mais... Estuda tumém. Não incomoda nada. Manhã toda na escola. Depois ajuda... Ajuda muito. Não mande... não mande...
   A voz da avó era só um soluço dolorido no silêncio pensante do avô, avaliando sem expressar decisão, definindo-se apenas por um:
   - Tô com fome. Me dê o de comê.                                                                                 
   A avó levantou, desdobrando os joelhos como se os desenterrasse da terra batida. Sangravam. Cambaleou até o fogão. Chorando, o menino engatinhou até ela, abraçou seus joelhos intumescidos, pretos de sangue. Retirava os grãos incrustados, salgando as feridas com as lágrimas do seu choro.

                        Desde aquele dia nunca mais o velho disse nada além de “Tô com fome.”, “Quero água.”, “Me dê o bornal.” Mais nada. Guiava-se sozinho dentro da casa, de onde só saía para curtas incursões no terreiro em horas mais frescas, logo voltando a sentar na soleira, olhando pro nada. Quando sentia o aproximar de alguma das criações de penas, espantava numa tapa que se perdia no ar. Mesmo inofensivo, fazia receio no menino pela sobrevida dos pintainhos. Ao cachorro sarnento desferiu pontapés. Depois de ganir a dor de um que o alcançou nas costelas, o bicho aprendeu a se arredar das pernas do velho. Nas horas do Sol mais quente, escondia-se no interior do cômodo único e só vinha afora por precisão da casinha de necessidades, mas por si se arredava da mesa quando pressentia o circundar dos demais viventes que, por vezes, daquela tábua careciam para as tarefas de estudo do menino ou pelos afazeres de costura e cozinha da mulher.   

(Continua na segunda-feira dia 3 de junho) 

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...