vendredi 28 juin 2013

Crônica da Urda

TEMPOS FELIZES 4
- Animaizinhos na floresta
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(Excerto do livro "Meu cachorro Atahualpa", publicado em 2010) 

Estamos em outra primavera, porém, e muitas das coisas da primavera passada estão se repetindo, embora já não haja as construções próximas, onde os gambás reinavam soberanos. Lá na floresta, no entanto, há muito mais vida do que a gente consegue ver de dia. Quando a noite cai e se adianta, uma população invisível de dia anda em plena euforia, namorando, noivando e decerto casando sob as árvores e fazendo barulho nos fundos de casa. Estou sempre dizendo que irei comprar uma lanterna para tentar espiar melhor o que se passa lá atrás, mas ainda não o fiz. O fato é que há um tropel danado de animais de diversos tamanhos correndo em todas as direções lá atrás, sem a menor preocupação de pisar de mansinho, e se eu, que sou apenas humana, consigo ouvir aquela bicharada fazendo seu festival no mato, imaginem só o que ouve Atahualpa, com seus sensíveis ouvidos caninos!
                     A coisa funciona mais ou menos assim: eu fico no computador (o escritório é nos fundos da casa) trabalhando, enquanto Atahualpa dorme sossegadamente ao meu lado numa das suas camas, até que começa a haver ruídos de animais. Ao menor estalido de uma patinha pisando num graveto lá na floresta, ele desperta e dá um primeiro latido de alerta – dependendo dos ruídos que vão se repetindo e aumentando (alguns animais de porte bem maior que os que vejo de dia andam por ali à noite. Sei disto pela barulheira que fazem ao caminharem ou decerto brincarem uns com os outros) Atahualpa aumenta os latidos que me chamam para prestar atenção ou mesmo os grossos latidos que pretendem espantar aquela malta dali de perto de casa. Em algum momento, diante da aflição dele, eu largo o computador e lhe digo:
                       - Tem bicho, tem, Atahualpa? Tem bicho lá fora?
                     E então ele muda o tom da voz, e os novos latidos soam com a sonoridade do badalar de um grande sino, e eu sei que ele está me dizendo:
                       - Deixa-me ver, deixa-me! Eu sei que tu podes!
                     E tão sonoros e agoniados são aqueles latidos de quem pede para ser levado à janela, que eu o pego carinhosamente no colo e o levo para espiar a noite escura lá fora, onde não se vê nada, mas onde há cheiros que eu não sinto mas que ele sente, e que seu nariz que parece um periscópio capta com ânsia. Como tenho trabalho me esperando, depois que ele cheira um pouco a noite escura, explico-lhe:
                     - Não é nada, não, Atahualpa! São só os bichinhos da floresta, os animaizinhos silvestres! – explicação que ele aceita de bom grado e que o acalma, e então posso pô-lo de novo na cama e continuar o que estava fazendo... até que um novo estalido ou outro ruído volte a despertá-lo, e então tudo se repete, às vezes dez ou vinte vezes numa noite, e eu entendo o que ele diz, e ele entende o que eu digo, e a gente se entende perfeitamente.
                     Normalmente, lá pela meia noite, ele se aborrece de estar a me pajear ao computador e resolve que é hora de ir dormir – então se transfere para o nosso quarto, normalmente para a minha cama, e de lá fica dando uns rosnados engraçados que dizem:
- Tu não vens dormir? Está na hora, estou cansado!
E eu fico dizendo:
                                   - Já vou, já vou! Espera só mais um pouquinho!
Mas é só quando vou dormir de verdade que ele sossega. Muito eventualmente aceita dormir na minha cama, ao lado dos meus pés – no geral, dorme numa cama noturna que preparo para ele perto da minha, usando dois grandes blocos de espuma daqueles para os quais Rovena costurou as capas, sobre os quais vai uma antiga coberta de penas que era minha, um travesseiro de penas, uma manta andina (se é inverno) ou algo mais fresco, se é tempo quente, e mais algumas coisas, conforme a estação. Vale dizer que Atahualpa veste camisetas infantis tamanho 4, e que possui diversas, desde regatas até moletons e blusinha de lã, sem contar as capas de chuva e as capas de feltro que andei costurando para ele. Uma das capas de chuva a Neide trouxe de um lugar chique de Curitiba; outra, eu mesma a fiz com um tecido impermeável. Também fiz as capas de feltro: uma azul, com luas e estrelas amarelas, dentro da qual ele parece um feiticeiro; e outra amarela, com toda uma paisagem marinha em azul , com direito a barquinho à vela navegando nas ondas, gaivotas voando no céu e peixinhos e cavalo marinho sob as águas.
Claro que ele não usa nada quando o tempo é quente – mas quando esfria um pouquinho ou um poucão ele aceita a roupa de acordo com aquela temperatura, desde uma camisetinha regata bem maneira até uma capa de feltro, que às vezes usa até para dormir.
Disse que ele sossega quando eu vou dormir, mas tal expressão é relativa. Sossega em relação aos animais que existem nos fundos da casa – fica extremamente atento, no entanto, com o que acontece no interior deste nosso pequeno condomínio, onde conhece cada pessoa, cada visitante habitual, os homens que trabalham na construção de uma casinha, cada cachorro. No decorrer da noite, basta acontecer algo novo ou que desconhece, como um entregador de pizza aparecer por aqui, por exemplo, para ele se acordar de imediato, passar correndo por cima de mim para chegar à janela, abrir a cortina com o focinho e avisar em altos brados que algo de diferente se passa.
                                   Às vezes faz tal alarde que acabo indo à janela espiar também, mas, no mais das vezes, já ouvi o barulhinho da moto do rapaz das pizzas ou outro sinal do que acontece e me limito a dizer, ainda dormindo:
                                   - Está bem, Atahualpa, não é nada. Pode ir dormir, é só o entregador de pizzas!

                                   Então, parecendo se dar por satisfeito com a minha ciência quanto ao que ocorre, ele sossega e volta a dormir.

            Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR 





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