lundi 10 juin 2013

CELEBRIDADES

 (PROSA POÉTICA “VULGAR”)

Para os meus amigos, e para todos aqueles que ainda buscam o Humano
E para os que já se foram

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Uma moça – filha de uma celebridade já morta– corta os pulsos aos quinze anos.
As pessoas casam-se para aparecer na revista “Caras”.
E as pessoas separam-se para serem vista na revista “Caras”.
Tudo é descartável, tudo se dissolve – nada fica.
Nada?
Somos seres da memória.
A tentação facilitária (vulgar) é a de indagar: o que está havendo?
Pensamos que estamos bem próximos.
Não: estamos ilhados virtualmente.
Somos seres falantes.
É preciso contar, dizer, imprecar.
É preciso deixar falar os nossos mortos.
Como um jardim: cultivar os nossos ancestrais.
E como um poeta panfletário, indagar: onde foi parar o NÚCLEO DO HUMANO?
Acumulamos dignidade ou buscamos freneticamente geringonças eletrônicas?
E comprar, comprar, comprar!
E nos perdemos de nós mesmos – no velho labirinto, já lembrado pelo poeta Mário de Sá Carneiro – que se matou em Paris, aos 26 anos.
Repito – como numa catacumba moderna (cheia de teclados e nomes em inglês: onde foi parar o humano?
E num tal de Twitter (que não sei bem o que é), escreve a moça que cortou os pulsos:
“Yesterday, all my troubles seemed so far away not it looks as though they’re to stay” (…) 
(“Ontem, todos os meus problemas pareciam tão longe, agora parece que vieram para ficar”).
(De “Yesterday”)
Que agora escuto, e sua beleza faz que eu pare tudo, vá à janela e contemple um pássaro cantando.
Agradeço: estou vivo, e isso me surpreende muito.
(...) Theres’s a shadow hanging over me”.
“Existe uma sombra pairando sobre mim.”
O tempo flui, mais uma tarde – o dia nunca repetido.
(...) “Oh, Yesterday come suddenly”
(“Oh, ontem veio de repente”)
E assim,  seguimos:
(…) “Love was such on easy game to play”
(“O amor era um jogo fácil de se jogar)
Queria ser enterrado com “Yesterday”, com Cartola (“As Rosas não falam”), “Romaria”, na voz de Elis Regina ou Renato Teixeira ( ou com “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach).
A beleza salvará o mundo?
O amor é um jogo fácil de ser jogado? – agora eu indago
Não, não é.
Repito:  essa prosa poética, áspera, desconjuntada, vai para todos os meus amigos, vivos e mortos, que ainda acreditam (acreditaram) na Salvação do Humano.

(Em Salvador – Primeira Capital do Brasil –, em junho de 2013)

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