vendredi 31 mai 2013

O CAVALEIRO DA DESESPERANÇA (1)

Por Raul Longo

- Vó!... Quem foi Lampião?
            - Víche... Um cabra ruim que só a peste!
            - Pois foi mesmo o que disseram lá na escola.
            - Te disseram besteira lá e tão te dizendo besteira aqui.
            A voz do velho, dita assim a despropósito do que fosse de sua própria serventia, veio tão repentina que pegou a gente despreparada. A avó nem se deu tino e escorregou em discordância: - Óxente! Pois se ele pôs este sertão todo agoniado.
            Depois de dito, a velha tremeu no arrependimento tardio, gelando na subida das canelas até à pelugem da nuca. No menino anuviaram as vistas por medo da vingança que havia jurado se o avô castigasse outra vez sua avó, como daquela primeira... Fora por culpa dele, menino, que falou sem saber, respondendo ao velho que berrava na boléia da carreta de boi, chamando em outra direção: - Ô de casa!
               Saiu atendendo, quando devia se fazer de inexistido: - Inhô!
               O velho se voltou, mas sempre olhando perdido e vago, como se o menino estivesse lá no morro da serra. Perguntou seco: - Essa é a casa de Odulando Ferraz?
            - É mais não.
            - Sabe onde vive Vitorina Ferraz?
            - Aqui mesmo, sim sinhô. – se soubesse, não falava.
            - Xente! Pois se aqui vive Vitó, aqui é a casa de Odulando, sua besta!
                        - Odulando era meu avô, mas um dia sumiu-se no mundo sem aviso e minha avó disse que se voltar não deixa entrar mais não. – informou na confiança da ameaça já finda, apenas memória de passados suplícios da avó, relembrados como certificado das graças devidas à Providência por esses melhores tempos, sem as agruras e medo daquele homem de impensado retorno.
            O velho apeou. Apoiado num bastão com que tateava a firmeza do piso, procurou no bolso do colete e deixou uma nota na mão do carreteiro:
            - É aqui mesmo. – desceu uma maleta e depois, gemendo e gingando, a carreta foi-se repetindo lamentos, enquanto o velho perguntava: - Quede sua avó?
            - Foi pro mercado. – menino respondeu em muxoxo, na má vontade.
            - Já tem disso?... Quede sua mãe?
            - Foi pra capital. Mora aqui mais não.
            - Pegue minha matula e me leve pra casa.
            Aí que o menino se apercebeu que o velho era cego. Depois se arrependeu muito de não ter mentido, dizendo que a casa era de outro qualquer.
            Levou o velho pra dentro, sentindo no ombro o peso dos dedos que aferraram como garra entre seus ossos.
            - Me dê água e algo em que me abanque. – pediu tão logo sentiu no frescor o sombreado do interior do pau-a-pique. Primeiro o menino aproximou o banco que era o da avó debulhar o milho, descascar a mandioca e toda tarefa que permite o descanso das pernas. Depois trouxe na caneca de lata a água fresca da moringa e o velho ficou ali, escondido da luz entrante pela porta, atravancando o ar que se fez nulo no receio e no arrependimento a sufocar o menino agarrado ao tabique, no outro extremo do chão batido, querendo olhar entre as frestas da parede de barro para divisar a chegança da avó. Mas sem conseguir desviar daquele estranho, duvidando da cegueira nunca mencionada.
            Sentiu então o peso do ódio e da raiva cultivada nos relatos das tantas maldezas daquele que um dia sumiu-se porque acabara a comida da casa, deixando para trás a mulher e a filha que sobreviveram à custa de raízes, cactos, calangos e das almas clementes, ainda em disposição de repartir mazelas e misérias.
            A menina cresceu sem pai que reclamasse pela sua honra, perdida para o desejo do primeiro que surgiu dizendo-se dono daquelas terras que ninguém queria em anos de estiagem. Depois veio outro, querendo ser dono da mesma terra... Trocaram tiros e a menina, já feita mulher, trocou de cama. E veio mais outro e outro mais, até que um deles – sabe Deus qual! – a deixou buchuda. Era ele: o menino.
            Na primeira estiagem a comida não chegou pros três. A menina, então mulher de fato, resolveu fazer da cama profissão e se foi, dizendo que ia pra capital. Mandou dinheiro um mês, talvez dois, talvez três. Escrevia por mão e ciência de alguém outro, em breves e tortuosas promessas traduzidas por uma mestra do bê-á-bá, providência que atestava o desenvolver e o melhorar da vida naqueles ermos, justificando o ensejo do menino em pedir que se pedisse o retorno da mãe, mas dela nunca mais se soube, como nada também se soube de Odulando, covarde que fugiu abandonando a mulher e a filha naquele inferno de seca e sertão e de quem, segundo a avó, era a culpa de todo e tanto aperreio, castigo herdado por tamanhas injúrias e malinidades testemunhadas por toda a vizinhança:
            “- Aquilo era a peste!” – benziam-se comentando o tanto sofrer da avó e desfiando relatos de maldades que assombraram muitas noites do menino enterrado no fundo da rede, abafando-se até o nascer do Sol e a luz da manhã afugentar o vulto terrível e gigante daquele que, agora, ali se amesquinhava na penumbra ao fundo da tapera iluminada pela lamparina sobre a mesa, onde a mão principiante rabiscava as letras das respostas às questões copiadas no caderno da escola, e os dedos experientes da avó cerziam os rasgos das calças do avô, rotas no esbarrar cego por tudo quanto era estrepe dos caminhos poucos da casa e do terreiro.

            - Lampião era homem bom... Muito bom.


(continua amanhã neste blog)

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