vendredi 31 mai 2013

Crônica da Urda

TELINHA NACIONAL


Junto com alguns outros  escritores de Santa Catarina, estamos, neste momento, ocupando a telinha nacional em diversos canais e horários. A  matéria foi feita pelo pessoal da TV SESC/SENAC, de São Paulo, que já um mês antes pediu nossos livros pra lê-los, etc., o que nos garantia uma entrevista de qualidade e me deixava impressionada. A entrevista foi marcada para ser feita em Florianópolis, e nos encontramos no bar "Armazém Vieira", tradicional casa noturna da nossa capital. O pessoal da TV era extremamente simpático, e quando vi seu material de trabalho, os grandes e sensíveis microfones peludos, etc., coisas que costumo ver no exterior, e não aqui na minha pequena província cheia de burgos, senti que a coisa iria rolar legal! E o entrevistador, puxa! aquilo era um entrevistador! Sabia o que cada um de nós tinha escrito, como fluía nosso pensamento - estava equivocado apenas quanto a uma coisa: ele e sua equipe vinham de longa temporada no Nordeste, e tinham  escolhido Santa Catarina para um programa de final de ano, que fosse bem diferente do que tinham visto e ouvido no Nordeste, e pelo que falou, entendi que esperava, aqui, uma continuação da Literatura alemã, italiana, polonesa, etc., já que somos um Estado de muitas imigrações. Se estivesse no lugar dele talvez também pensasse assim: à mesa, estavam um Buss, um Raduenz e uma Klueger, no caso, eu, nomes nada lusos, bem ligados  aos antigos imigrantes. 
Com sua grande capacidade de entrevistador (ele se chamava Ricardo Soares, e é um escritor, igual a nós), começou nosso longo papo, que se prolongaria por umas três horas, com perguntas muitíssimos inteligentes.  Só aquilo já fazia um bem danado!  Às vezes a gente ouve cada coisa de um entrevistador! Ano passado fiz maravilhosa viagem de moto por 5 países da América do Sul, e na volta fui chamada para dar certa entrevista – e  ao invés de o entrevistador me deixar falar das magníficas coisas que existem pela América, ele fazia perguntas do tipo: “Você foi dirigindo a moto ou foi de carona?”  - coisa assim para deixar o público cada vez menos informado.   
                                   Desta vez, porém, a coisa era de alto nível, e o único equívoco era sobre nossas heranças culturais. Penso que o entrevistador foi de surpresa em surpresa quando cada um de nós se identificou: dois éramos produtos das bibliotecas públicas das suas cidades; um tinha como substrato a canção popular brasileira, como Adinoran Barbosa e Caetano Veloso. Dois se sentiam catarinenses e brasileiros, sendo que um se classificou como também membro da grande família da língua portuguesa  - eu me disse pertencente à grande família da América dita Latina. Eram complicadas explicações para quem esperava Schiller e Goethe, mas o Brasil é assim mesmo, um caldeirão  de loucuras com as suas etnias. E vi, agora, quando o programa foi ao ar, que andei defendendo com muita garra a Literatura Xokleng que se faz aqui no Vale do Itajaí, onde o país inteiro pensa que só tem alemãozinho de calções bordados e chamados de Fritz. Para quem não sabe, Xokleng é um povo muito, muito antigo, que vive no Vale do Itajaí, povo assim com pelo menos uns 6.000 anos de história, e que está produzindo literatura na sua língua e publicando. Viram vocês como estavam equivocados a respeito de Santa Catarina? 
                                   Depois, no outro dia,  o entrevistador foi atrás de Salim Miguel, no seu paraíso de praia, e obteve outra magnífica reportagem. Até mandei gravar, para ter tal lembrança da sabedoria dele bem guardada. De novo penso que ele se equivocou: ao invés de Schiller ou Goethe, Salim Miguel é genuinamente nascido no Líbano, e veio parar por estas plagas por mero acaso, e se hoje sua língua é o português, de novo foi por acaso.
                                   Então a equipe da TV foi embora, e só agora, mês e meio depois, foi que vimos o programa. Claro que eles tinham que editar, das cerca de 3 horas que gravamos saiu uns 15 minutos – a entrevista com Salim Miguel foi tão bela que ocupou outros 15 minutos. Mas ficou muito bonito, e fico torcendo para muita gente ver que Santa Catarina, como o resto do Brasil, é um grande caldeirão de etnias, e que somos tão mestiços física e culturalmente como quase todos os brasileiros. Disseram-me que  o programa vai ficar rodando por aí por uns dois anos – talvez ajude a fazer o brasileiro em geral entender que Santa Catarina não  é uma cidade. Isto aqui é um Estado, viu, gente? E tão complexo quanto quase todos os outros deste nosso país maravilhoso!

                                               Blumenau, 10 de Dezembro de 2005.


                                               Urda Alice Klueger
                                               Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR


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