mercredi 15 mai 2013

A CABEÇA EM IONESCO


"Ah, cabeça! ah cabeça!" É falando que me apercebo de que as palavras dizem coisas. As coisas dizem palavras? Por que é que as pessoas nascem com cabeça? Então, as perguntas não estão mortas..." (trecho do monólogo final de VIAGEM À CASA DOS MORTOS), peça inédita de Ionesco, com trechos publicados no Brasil.

 Não sendo embora um filósofo, no sentido, digamos técnico do termo, mas teatrólogo, nem por isso deixa Ionesco, como grande homem de teatro, uma arte em que forçosamente a filosofia como concretitude, na argumentação e vivência da peça se mostra. Ele filosofa: "Todo homem, porque homem,  filosofa. haveria uma diferença entre a filosofia e exercer a si próprio e o filosofar no teatro e em outras ciências? Pois que sim.
Filosofia é a exposição, são as definições, é a parte expositiva daquilo que se chama de doutrina ou princípio; filosofar é exercer um direito e mesmo o dever de pensar, de conjecturar, de refletir. Não vale pensar sem consciência, ou pensar que se pensa, é preciso mesmo pensar. Não vai pensar se não se está certo no ato de pensar. Quem não filosofa, quem não pensa sobre o penar e o pensamento, pode saber teorias filosóficas: Não filosofa, e portanto não pensa.

Cabeça, aqui, não é a parte externa, física, no topo do corpo: é o pensamento, é a mente, é o ser interior, que, muitos chamam alma ou espírito e outros chamam, simplesmente, cabeça, Tenho cabeça e penso...
Deixemos.

Cabeça, aqui apenas exterioriza, é um necessário MEIO para que se faça o pensamento e se faça o pensar. Pensamento no Homem, exterioriza o que há dentro na substância ou essência (podemos, aqui, confundir esses termos e, até certo ponto, propositadamente) mostrando que o homem é CABEÇA. Uma filosofia legítima, vê que o homem é essência-substância-pensamento e existência pensante ou o pensamento no concreto existencial real..

Como Hegel: "Todo real é racional e todo reacional é real". Queria dizer filosofar
 é estar no real que se exterioriza, como viu Ionesco, na CABEÇA pensante.

Essência-existência estão sempre na base de todas as filosofias e de todo pensar. A CABEÇA, pois, em Ionesco, o pequeno trecho, é símbolo: Trata-se do que há dentro, informante e não mero órgão físico exterior.

Ao falar o homem, com e pela palavra, nomina e dá sentido às coisas. Só falando, privilégio do animal mais aperfeiçoado da natureza, o homem percebe que as palavras dizem (significam) coisas. Ah, então, há um sentido realista entre o falar-manifestação exterioizante - e as palavras? O homem fala palavra. A s coisas dizem palavras? Também as palavras estão imbricadas e implicadas nelas.

A s pessoas assim, nascem com CABEÇA, para pensar, falar, dizer, ver e saber as coisas. A s perguntas nunca estão mortas: Salvo se a CABEÇA( a mente interiorizante do homem) estiver sem a capacidade de perguntar por qualquer motivo, essencial ou existencial, ou sempre essencial-existencial... Ionesco sabe pensar: filosofar e, daí,
que a frase teatral "Ah, cabeça, ah, cabeça!" Pode ser completada no pensamento do grande pensador espanhol José Bergamin: "Um paradoxo é um paraquedas do pensamento.Faço paradoxos para não me quebrar os ossos". E Ionesco fez, como dramaturgo, um paradoxo lógico e lógico para o filosofar humano...
Ah, cabeça! Ah cabeça!

Germano Machado

 Salvador - Bahia, Brasil 08 de maio de 2013

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