lundi 1 avril 2013

Feliz Páscoa!

(Vicência Jaguaribe)

28/03/2013


Em um mundo como o nosso, em que nos preocupamos mais com a aparência do que com a essência das pessoas e das coisas; em que portas se abrem para os ricos e fecham-se para os pobres; em que um irresponsável que atropela e mata um pai de família não é punido porque o pai pode pagar a fiança; em que a vida humana vale duas pedras de crack; em que o respeito entre pais e filhos é tido como démodé; em que um amigo não sabe ajudar o outro; em que as crianças são desrespeitadas, agredidas e levadas para o caminho do crime, induzidas por adultos-monstro; em que populações inteiras de regiões miseráveis morrem de sede e de fome, enquanto populações de países ricos esbanjam; em que a corrupção grassa em todas as instâncias do poder público e das entidades privadas, prejudicando os mais necessitados; em que as leis não são respeitadas, e a palavra dos juízes encarregados de julgar os infratores — quer sejam pessoas físicas quer sejam pessoas jurídicas — além de não ser ouvida, é, muitas vezes, ridicularizada; neste mundo torto em que vivemos, que mensagem podemos mandar aos nossos amigos em tempo de Páscoa?
Na dúvida sobre o teor da mensagem, lembrei-me de haver recebido, há algum tempo — não sei quem me mandou —, a tradução para o português de uma oração árabe muito eloquente em suas lições de humildade, de modéstia, de sabedoria, de compaixão, de justiça, de tudo, enfim, que as sociedades de hoje — em especial, a brasileira — precisam aprender para não continuar a ser um aglomerado de homens e mulheres perdidos na senda da inconsequência e da inconsciência, mas transformar-se em um conjunto harmonioso, que toque as notas certas da sinfonia tão ansiosamente esperada.
Em tempos de ecumenismo, em tempos em que os líderes das grandes religiões do planeta tentam apagar o passado de ódio e incompreensão e viver como irmãos — afinal, o Deus cultuado de maneiras diferentes é um só —, pode-se muito bem celebrar a Páscoa cristã meditando sobre uma Prece Árabe

Deus, não consintas que eu seja o carrasco que sangra as ovelhas, nem uma ovelha na mão dos algozes.
Ajuda-me a dizer sempre a verdade na presença dos fortes e jamais dizer mentira para ganhar os aplausos dos fracos.
Meu Deus! Se me deres a fortuna não me tires a felicidade.
Se me deres a força, não me tires a sensatez.
Se me for dado prosperar, não permitas que eu perca a modéstia, mas conserve apenas o orgulho da dignidade.
Ajuda-me a apreciar o outro lado das coisas, para não enxergar a traição dos adversários e nem acusá-los com maior severidade do que a mim mesmo.
Não me deixes ser atingido pela ilusão da glória, quando bem sucedido, nem desesperado quando sentir a presença do insucesso.
Lembra-me que a experiência de um fracasso poderá proporcionar um sucesso maior.
Se me tirares a fortuna, deixa-me a esperança.
Se me faltar a beleza e a saúde, conforta-me com a graça da fé.
Ó Deus! Faz-me sentir que o perdão é o maior índice da força e que a vingança é prova de fraqueza.
E, quando me ferir a ingratidão e a incompreensão dos meus semelhantes, cria em minha alma, Senhor, a força da desculpa e do perdão.
E finalmente, Senhor, se eu Te esquecer, Te rogo, mesmo assim, nunca te esqueças de mim.  (Traduzido do árabe por Seme Draibe.)

Vemos que nessa prece é solicitado ao Altíssimo, qualquer que seja o nome que os crentes de cada religião lhe deem, tudo o que uma pessoa precisa para ser feliz. Tudo o que o homem do século XXI precisa para transformar este planeta em um espaço de justiça, de amor, de compreensão, de verdade, enfim, naquele mundo ideal que os líderes da Revolução Francesa de 1789 resumiram em três palavras: LIBERDADE, FRATERNIDADE E IGUALDADE.
O que pede o homem piedoso e sensato nesta prece?
Que seja justo com os outros e que os outros sejam justos com ele. Que diga sempre a verdade a qualquer ouvido que esteja a escutá-lo — em outros termos, que não use a palavra para agradar os poderosos ou para manipular os mais fracos, os mais pobres e os mais ignorantes.
Que não se deixe dominar pelo fascínio da riqueza e do poder, pois mais importante do que o dinheiro é a felicidade de viver uma vida digna, dentro dos princípios da moral, da ética e da compaixão, e mais importante do que a força ou o poder é a capacidade de agir com equilíbrio.
Que o comedimento, a compostura e a dignidade sejam constantes em sua vida.
Que tenha a capacidade de olhar e ver além das aparências, para tratar os outros — adversários e amigos — da maneira justa.
Que se distinga pela moderação e não se deixe dominar pelos tentáculos ilusórios do sucesso, nem se desespere quando os infortúnios o atingirem.
Que saiba tirar lições de vida mesmo nas derrotas.
Que sua vida esteja sempre amparada pela esperança, pela fé e pela capacidade de desculpar e de perdoar.
E, finalmente, que ele tenha sempre a certeza de que Deus está por perto.

Ora, se qualquer homem, cristão (em toda a sua diversidade), judeu, muçulmano, budista, hinduísta, isto é, homens de todas as crenças, e homens sem nenhuma crença conseguissem a graça de ver concretizados os pedidos expressos nessa prece, este nosso sofrido Planeta poderia ser a terra dos sonhos, a terra prometida, a terra onde abundam o leite da justiça e o mel da fraternidade.
Que esta oração sirva de parâmetro para uma vida mais verdadeira e mais digna.

Feliz Páscoa, para vocês, amigos.

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