mercredi 27 mars 2013

Um dia sem Maria

Um conto realizado a várias mãos pelo Grupo Varal do Brasil no Facebook

      Naquele dia, me senti só. Tinha sua presença dentro de mim, mas somente dentro de mim. Pois sei que você está aqui, ali, em todo lugar, já que por todos você tem que olhar.
      Observei as nuvens carregadas, teimando em esconder o sol, no prenúncio de forte temporal... Uma luz muito forte entrou pela fresta da janela e tomou todo o meu ser. Fiquei por um momento sem saber o que fazer. De repente, braços me abraçaram e olhos tristes me olharam profundamente no meu olhar.
Em num mundo cheio de gente, cresce a nossa solidão e a escuridão desorienta.
      Em cada uma de nós, uma Maria. Nunca ausente de doce luz envolvente, constatando que em toda tristeza sempre existe a mensagem de uma verdade.
Maria, mãe de todas nós, mulheres. Mulheres que batalham, perdem e ganham. Perdem filhos na violência de cidade grande,  perdem para as drogas, e, ganham forças através da Fé, que vem de Maria, nossa Mãe no Céu.

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      Com um turbilhão de sentimentos, a enfermeira Maria deixou aquele quarto que a sufocava; encostou-se à janela do corredor para tentar recompor-se. Seus pensamentos conflitivos deixavam-na triste: tivera de despedir-se daquela criança que permanecia inerte naquele leito. Ali, sofrendo num momento angustiante para ela, sentiu que outros braços a abraçavam, virou-se e...
       O sorriso do Dr. Oscar foi direto ao seu coração. O idoso oncologista trazia no olhar a sabedoria das perdas, das despedidas sem palavras, da resignação que a profissão impunha. Maria se deixou abraçar, sem se preocupar com as regras                                          rígidas da ética hospitalar.
       Neste instante, Maria, mais do que nunca percebe a força de um abraço e seu coração, apesar de triste, sorri confortado. Voltou a olhar, à distância, para o pequeno paciente do Dr. Oscar, e seu sorriso se alargou. Então, a criança no leito, fortificada com o poder daquele momento mágico, deu sinais de recuperação.
       Maria soltaou um sorriso mais abrangente e todo o local ganhou um novo alento.
        “Hoje, não vou ser Maria. Sou muitas Marias... Hoje, vou deixar todas em casa. Não vou ser nenhuma Maria. Vou ser só Poesia.”
       A Poesia vinda da Fé e de um abraço amigo, emanou por todo  ambiente, curando até doente. O Cosmo providenciou um encontro maravilhoso de um ser que salva vidas e que ilumina mais a enfermeira Maria.
        O dia avança. A força de Maria cresce. Seu mundo não será mais o mesmo, pois se transforma continuamente, mesmo sem Dr. Artur, ou se a enfermeira Maria deixasse de existir.

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       A noite chega. Silêncio por todo aquele casarão. Subitamente uma voz gritou:
       - Saiam da frente, abram espaço!
       Correndo, os enfermeiros conduzem Maria em trabalho de parto. Meia hora depois, sorridente, a enfermeira Maria anunciou que Maria, a da maca, deu à luz a uma menina, que recebeu o nome de Madalena!
        Madalena, anjo transformador, já soube roubar a cena, trazendo à vida uma linda alternativa, na noite adentro que não para e segue em frente, com o movimento de  anjos em forma de gente, ali facultados e munidos de conhecimentos para cuidar de enfermos e até de seus tormentos.
        Assim segue a noite e o relógio lógico e cronológico, anunciando minuto a minuto que tudo pode acontecer, até que Maria despertou e viu, num pequeno berço colocado ao seu lado, o milagre da sua própria continuação no rosto da pequena Madalena, que sempre será (ao menos para ela) o ser mais lindo e perfeito da face da Terra. Neste momento, ela percebeu que tudo fará, absolutamente tudo, para garantir a felicidade e o bem-estar daquele anjo moreno, a sua Madalena.
        Madalena é, por si, todas as flores do mundo, toda a leveza e força.Aquele ser, roto, pequeno, frágil, uma fortaleza, a regeneração da vida de Maria, essa de tantas que, única, é só Madalena, o recomeço anunciado, a possibilidade de um novo caminho a ser trilhado. Seu primeiro papel no mundo – manter Maria na Vida. E, uma certeza se acentuava. Talvez até se pudesse ficar um dia sem Maria, a mãe maior, mas não poderia ficar, nem mesmo um segundo, sem Madalena. Seu rostinho encerra toda a beleza que se possa ter desse mundo...

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       Amanhece o dia já fervilhante de atendimentos e urgências. Sara, a enfermeira chefe, procura por sua auxiliar Maria. É informada que logo após participar do parto, Maria deixou o hospital, sem dar satisfações ao médico de plantão, Sara continuou as visitas pelas enfermarias e, ao chegar na ala oncologia infantil, encontrou Dr. Oscar, preparando-se para deixar o plantão. Pergunta-lhe pela paciente que dera a luz. Dr. Oscar nem lembrava da paciente, eram tantas, eram tantos... Na verdade, depois de uma noite como aquela, lua cheia e plantão, tudo o que queria era poder dormir em paz.

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        Ao sair do hospital, Maria não se preocupara em trocar de roupa. Caminhava ao léu. Sentia-se fraca após sofrer com uma criança à beira da morte, e vivenciar o esplendor do nascimento de Madalena. Sentindo-se debilitada e com a mente ainda em turbilhão, precisava organizar seus pensamentos de forma coerente. Afinal, trazia dentro de si, por sua fé, o exemplo de Maria, a Mãe de todos...
        Passando em frente de uma discoteca, sua atenção se prendeu: as luzes da discoteca piscavam sem parar. Ela passou a girar no ritmo da música. Girava, girava, girava... Sabia que Maria Maior estava com ela, mas a dor que a dominava não fora embora. Seu plantão fora tumultuado: enfrentara um caso de morte e outro de nascimento. Ela ainda estava muito dolorida com a perda de seu amor que fora embora. Ela estava só e... girava na rua...
        A música, a discoteca, as pessoas que entravam e saiam daquele recinto, prenderam-na em todos os seus sentidos. Entrou no amplo salão, onde pares curtiam a dança frenética. Alguns raios de sol entravam pelas frestas das janelas: o dia caminhava o seu caminho. Maria gingava seu corpo. Lembrou-se do terno abraço que lhe dera Dr. Oscar, e como fora reconfortante naquela noite agitada. Ela girava por todo o salão. A roupa que vestia a impedia de rodopios. Ela pensou:
          “ a vida é assim mesmo. Com dores e prazeres, com alegrias e tristezas. Ela me encurrala por vezes, num ou noutro momento, vou dar-lhe o troco. Vou encurralá-la, vou dançar ... em pleno dia dançarei...”
          Seus passos ficaram mais agitados.
          “Mereço isto e muito mais”.
          Retirou  sua roupa e se pôs a dançar mais e mais.
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Grupo Varal do Brasil
março de 13

Participantes do conto coletivo:
1-      Jacqueline Aisenman, 2- Dulcio Ulysea Junior, 3- Désio Cafiero, 4- Inês Carmelite Lohn, 5- Caroline Baptista Axelssonn, 6- Nilda Lima Graeser, 7- Tereza Dalva Rodel, 8- Norália de Mello Castro, 9-  Ly Sabas, 10-  Flávia Assaife, 11-  Juca Cavalcante, 12-  Carmem Di Moraes,13-  Dulenary Santana, 14-Márcio Felipe Cavalcanti, 15- Alexandra Magalhães Zeiner, 16- Rosemary Montovani.




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