vendredi 8 mars 2013

DIA MUNDIAL DA MULHER

Por Dulce Rodrigues


Esta iniciativa muito simpática dos "dias mundiais" de qualquer coisa tem vindo a desenvolver-se a um ritmo acelerado desde há algum tempo e, se não servir para muito mais, é, sobretudo, lucrativa para os comerciantes. Não vivemos nós numa sociedade consumista? Quanto à finalidade essencial por que se criou o Dia Mundial da Mulher, será que esta é a melhor maneira de a atingir?
Como Mulher (não por oposição, mas como complementaridade a "como Homem"), permito-me discordar. Ao banalizarem-se os dias mundiais – fazendo dias mundiais a torto e a direito, por isto e por aquilo – estes perdem o seu simbolismo, logo a sua verdadeira importância. O mesmo tem acontecido com tantos outros valores, que se perderam, ao banalizarem-se determinadas atitudes ligadas intrinsecamente a esses mesmos valores. Só esta é a explicação para a crise de identidade em que tem vivido a nossa sociedade desde há mais de quatro décadas.
Dia Mundial da Mulher é todos os dias, pois a Mulher celebra-se no quotidiano da sua vida, ocupando-se do bem-estar dos filhos (se os tem), da família, da sociedade em geral. Mas, neste mundo em que vivemos desde há milénios, em que é a força física que impera, não a força espiritual do Amor pelo próximo, esta lição de humanismo perdeu-se, banalizou-se também. E é assim que ninguém se preocupa em questionar o que seria do mundo se todas as mulheres, ao mesmo tempo, decidissem fazer greve dessa celebração que se conjuga no tempo presente, no passado e no futuro do seu dia-a-dia.
E poucos se lembram – ou querem lembrar – que a forma primeiríssima de sociedade foi matriarcal, pois a mulher é a única capaz de dar vida, por isso ela era venerada. Que maior dávida para a humanidade do que "dar vida", por oposição a "tirar a vida", que é uma característica tão masculina?
Amanhã, festeja-se mais um Dia Mundial da Mulher e gostaria de vos contar um fim-de-semana, na aparência igual a tantos outros que vivi, mas que foi, contudo, diferente desses outros.
Nesse fim-de-semana houve um encontro literário em Longwy, na França, para o qual eu tinha recebido o convite aquando de um outro acontecimento do mesmo género em que participara na Bélgica, em Outubro do ano anterior. Os organizadores tinham previsto organizar uma mesa-redonda sobre a evolução da condição feminina ao longo dos tempos, para a qual fui convidada, assim como três outras escritoras, todas elas francesas, uma das quais membro da Academia Alsaciana.
No decorrer do jantar que se seguiu, falaram um, dois, três, quatro homens, debatendo assuntos de actualidade. Nenhuma mulher. Achei que num Dia Mundial da Mulher, as mulheres tinham algo a dizer e, como das mulheres ali presentes nenhuma tomava a iniciativa, competia-me a mim, em representação de todas elas e porque, ainda por cima, era a única estrangeira, tomar o microfone e falar.
Devo dizer muito sinceramente que o fiz com bastante custo, pois gosto muito de escrever, mas não tanto por falar em público. Mas teve de ser e falei, entre outras coisas sobre as mulheres afgãs, sobre as mulheres e crianças iraquianas, sobre as mulheres que sofrem sem poder, sequer, exprimir-se. Não falei muito, mas penso que toquei alguns corações, pois mal me tinha sentado, houve um jovem de uma outra mesa que se levantou e veio ter comigo porque “tinha de me dizer quanto gostara das minhas palavras e agradecer-me por as ter dito”. Mal ele se tinha sentado, foi a vez de uma jovem (soube depois que era escritora e viera de Cannes) se me dirigir e dizer que ficara emocionada ao ouvir-me e que me agradecia por isso. A minha emoção não foi menor perante estes dois jovens testemunhos.
A terminar esta crónica, gostaria de deixar bem clara a minha opinião de que, por mais leis que possam existir para defender os direitos e deveres de igualdade entre os dois sexos, essa igualdade só será conseguida quando houver uma mudança radical de mentalidade de ambos os lados. E essa mudança só se conseguirá através da educação. A educação da sociedade para a igualdade de direitos e deveres da mulher e do homem deve começar a ser feita já nos bancos da escola e complementarizada, a nível do secundário, com a realização de “conversas”, para as quais seriam convidadas – na medida do possível – autoras/intervenientes cujo percurso de vida testemunhe de uma época em as mulheres tiveram de lutar por objectivos que as gerações de hoje aceitam como adquiridos; mas que, exactamente por essa atitude passiva, podem vir a ser postos em causa.
Enquanto houver num sítio qualquer do globo mulheres que vivem subjugadas e sem qualquer possibilidade de afirmação como seres humanos com direitos e deveres, não haverá igualdade entre homens e mulheres.
É a todas essas mulheres que dedico estas linhas, insuficientes – reconheço – para defender tão grande causa, mas ditadas pelo meu coração de Mulher e de Mãe.

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