jeudi 21 mars 2013

Crônica da Urda


A mulher de Caracas
                                   (Para Hugo Chávez Frías)
                                   Éramos um pouco mais de 20 brasileiros daqui de Santa Catarina em Caracas. Fôramos por causa do Fórum Social Mundial, mas do Fórum eu só vi uma palestra – deixei-me ficar pelas ruas, conversando e conversando pelos dias inteiros, conversando com quem quisesse conversar comigo, ricos e pobres, muito mais pobres do que ricos, claro, porque sempre há uns pouquinhos ricos para cada multidão de pobres, e como havia pobres em Caracas! Logo ficava claro como as coisas funcionavam por lá: os ricos ODIAVAM (assim com maiúsculas) ao Presidente Hugo Chávez, que tirara das suas mãos a grande riqueza do petróleo, enquanto os pobres AMAVAM (assim com maiúsculas e negrito ao cubo) ao mesmo presidente, por estar canalizando para eles a mesmíssima riqueza do petróleo que lhes fora usurpada por mais de 60 anos.
                                   Chávez era um reformador, um revolucionário, um corajoso por quem aquela gente daquele país sem classe média (só consegui ver duas classes, na Venezuela: a dos milionários e a dos miseráveis) só conseguia ter sentimentos extremos. Dentre outras coisas, fizera coisas assim: ricos proprietários estavam há décadas sem pagar impostos de grandes edifícios? Sem problemas, Chávez nacionalizava os mesmos e os entregava para que os moradores de rua tivessem aonde viver. Fico pensando em tantos outros políticos por aí, no lugar de Chávez: teriam distribuído tais edifícios para os moradores de rua ou teriam, silenciosamente, passado os mesmos para  genros, pais, amantes ou sei lá quem, como é tão comum ver-se pelo mundo, a começar pela justiça brasileira, onde um certo juiz Lalau foi exemplo para dar e vender!
                                   Mas queria contar como descobri tais coisas lá da Venezuela.
                                   Fim de tarde, e tomava alguma coisa em simpático bar numa das avenidas principais, quando se aproximou uma velha senhora vendendo algumas canetas. Foi só lhe dar trela e já ficou minha amiga, como é tão comum às gentes daquele país simpático.
-                                  - Moro ali, ó! – explicou-me ela, apontando bonito edifício do outro lado da rua. – Moro ali porque o Comandante me deu um pequeno apartamento ali!
                                    Fiquei curiosa. Embora já tivesse sabido de tantas coisas em mudança na Venezuela, aquilo era novidade para mim. Quis saber mais, saber tudo. A mulher me explicou das desapropriações de  imóveis com grandes dívidas de impostos, e depois contou a sua história:
                                   - Eu nasci na rua, sabe? Minha mãe me teve e me criou na rua, porque não havia para onde ir. Cresci na rua, fui prostituta na rua, e conforme envelheci, passei a ser mendiga na rua. Mas agora tenho o meu apartamento.
                                   O peito da mulher inchou, gritou de sentimento, creio que numa mistura de prazer e dor:
                                   - Dona, a senhora não imagina o que é ter uma chave, possuir uma chave como esta aqui! – ela tinha uma chave pendurada ao pescoço por forte cordão. – A senhora decerto sempre teve chave, não sabe como é nunca ter nenhuma! Eu nunca tinha tido, e agora tenho, e posso fechar a minha porta e me sentir segura, e poder fazer o que queira dentro do meu apartamento, sem ficar com medo.
                                   Ela sentou-se à minha frente para ter mais forças para explicar melhor o que acontecia com ela.
                                   - Quando a gente não tem uma chave, um lugar com chave, qualquer um pode vir e abusar da gente, maltratar a gente...
                                   Céus, que coisa mais forte era o poder de uma chave, e a gente nunca pensa nele! Já quase no final da sua vida, aquela mulher de Caracas acabara encontrando aquele poder que lhe dava a segurança que nunca tivera, e a emoção dela era violenta:
                                   - Se não fosse o Comandante...
                                   Nunca poderei esquecer daquela mulher, nem do seu prazer de ter, afinal, uma proteção que lhe faltara por toda a vida.
                                   E então de novo choro, e penso: por que o Comandante teve que se ir tão cedo? Ah! Comandante, ah! Comandante! Que tua obra não seja interrompida, pois há ainda muitas chaves a serem entregues...

                                   Blumenau, 18 de março de 2013.

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. 

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