samedi 16 février 2013

DE BERLIM COM RUI MARTINS: BERLIM DESTACA HAITI



O terremoto do dia 12 de janeiro de 2010, no Haiti, e a reconstrução do país são os temas de um dos principais filmes do Festival de Cinema de Berlim, Berlinale, do cineasta haitiano Raoul Peck, cujo título é Assistência Mortal.

Exibido na mostra Berlinale Especial, trata-se de um documentário reunindo depoimentos de autoridades, como os do ex-pesidente René Preval, do ex-primeiro-ministro Jean Max Bellerive, do ex-presidente Bill Clinton, co-presidente da Comissão Interina de Reconstrução do Haiti, mais dirigentes de Ongs e habitantes da capital Port-au-Prince.

O objetivo é o de demonstrar a mobilização internacional da ajuda humanitária, tão logo ocorreu o devastador terremoto, porém, ao mesmo tempo, como essa ajuda mobilizando alguns bilhões de dólares não respondeu às necessidade básicas da população. Como explica um dos ex-ministros haitianos, os países que ofereceram assistância o fizeram sem consultar e sem a participação do governo local, enquanto as Ongs tomaram iniciativas próprias, algumas vezes absurdas.

Assim, fica-se sabendo que, na remoção de detritos num dos principais sistemas de canalização das águas pluviais, três Ongs agindo isoladamente e em trechos diversos da canalização faziam e refaziam o mesmo trabalho. A primeira removeu todo o material que impedia o escoamento das águas e colocou ao lado. Ora, nas primeirias chuvas tudo entrou de novo na canalização e, a seguir, foi devidamente removido por outra Ong mais abaixo. Todo o trabalho foi perdido com novas chuvas e coube a outra Ong refazer a limpeza, isso demonstrando a maneira caótica dispensada pelas organizações humanitárias.

« Não existe uma coordenação das Ongs, explica uma autoridade haitiana, e se torna impossível se contatar as duas mil Ongs existentes, muitas delas religiosas, que evitam qualquer planificação com o governo. Um caso mais marcante, explicou, foi a construção de um novo hospital, perto de um já existente, sem qualquer autorização, ao invés de alguns quilômetros mais diante, próximo de uma população mais carente. O resultado é que enviei tratores para impedir a construção, dada a insistência dos dirigentes da Ong, sem que eu saiba o porquê de tal interesse!

Outro absurdo relatado é o de que certas casas de emergências construídas pelas organizações humanitárias estrangeiras custaram mais caro do que se tivessem sido construídas pelos próprios haitianos. Essa discrepância entre o que se oferece e o que se precisa é acentuada logo no início do filme, quando o presidente do Haiti não entende porque os países filantrópicos enviam produtos do exterior quando poderiam ter sido comprados dentro do próprio Haiti.

Raoul Peck deixa também visível um interesse de certas Ongs fazerem qualquer coisa, mesmo mais cara e nem tanto necessária, provavelmente para mostrarem serviço aos seus financiadores. Há também uma discrepância entre os totais anunciados nos planos de assistência e os dólares que realmente chegam ao Haiti.

O cineasta Raoul Peck, nascido no Haiti, mas que viveu no Zaire e nos Estados Unidos, vive na França. Hoje cinquentenário, Peck já fez, na se notabilizou, logo depois de seus estudos em cinema, por um filme dedicado à memória de Patrice Lumunda, herói congolês, cujo assassinato deu acesso ao poder ao ditador Mobutu.

Tatcher e a política social inglesa

Também na mostra Berlinale Especial está o filme do cineasta inglês Ken Loach, com o sugestivo título de O espírito de 45, ano, do fim da guerra, quando a vitória dos trabalhistas significou uma série de nacionalizações dos serviços públicos minas, estradas de ferro, eletricidade, gas, portos, serviços de assistência médica e o próprio Banco da Inglaterra.

Ora, esse socialismo inglês foi totalmente anulado na época da primeira-ministra Margareth Thatcher , de 1979 a 1990, que aplicou um programa de privatização, precedendo o atual neoliberalismo, que se alastra pela Europa e pelo mundo.

NOVA VERSÃO DE OS MISERÁVEIS

Já estreado na Inglaterra, Berlinale exibe também, na mostra Especial o filme de Tom Hooper, uma nova versão do romanche de Vitor Hugo, publicado em 1862.

A história de Jean Valjean, perseguido, preso e enviado à prisão por ter roubado um pão, contando as misérias dos pobres de todo o mundo, e da avareza do casal Thénardier, onde Fantine deixara sua filha Cosette, continua emocionando leitores e espectadores. Não se pode esquecer que o escritor Vitor Hugo, que viveu parte de sua vida no exílio, não escondia suas idéias socialistas e sua condenação da exploração gerada pelo advento da industrialização.

A história de Jean Valjean inclui também o incansável inspetor de polícia Javert, fiel aos princípios da época de que a prisão devia ser uma punição, um pouco o inferno para os que desobedecessem a lei. Sem perceber que a lei serve principalmente para a manutenção, no poder, dos opressores de todo tipo.



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